Ring Fit Adventure


E se um jogo pusesse as pessoas a fazer exercício? Esta é uma questão tão antiga como aquele velho preconceito dos videojogos serem só para se ficar alapado no sofá, como se fossem gostos incompatíveis. Jogos de dança existem até do tempo das arcades, por exemplo, para não se falar nos tempos áureos da Wii e o seu famoso Wii Fit.

Ainda assim, todos eles pedem à partida um gosto pela actividade que se vai praticar. Conseguirá este ser diferente?


Ring Fit Adventure tem por base um novo acessório para a Nintendo Switch, chamado Ring-Con. Na prática, este é um anel de pilates onde se pode encaixar um comando, mas conta no seu interior com um sensor capaz de detectar a força com que está a ser apertado ou esticado, além de uma pequena memória interna. Aliado com toda a tecnologia do Joy-Con, facilmente se torna numa ferramenta de exercício físico sincronizado com o que se passa na TV. A grande surpresa, porém, é que mais do que uma experiência de fitness com o anel, a Nintendo se propõs a fazer um jogo de aventura!

O ponto principal do jogo é precisamente o de oferecer uma grande aventura como desculpa para fazer os jogadores exercitar, e por isso mesmo o grande apelo está na jogabilidade propriamente dita. Tudo começa quando a nossa personagem encontra um misterioso anel dourado. Ao pegar nele, liberta sem querer um demónio do fitness, que pretende gastar todos os recursos do mundo em seu redor só para ficar mais e mais musculado. Para o impedir, o herói irá aliar-se a esta personagem circular e os seus poderes mágicos, que obrigarão o jogador a também se movimentar. Afinal, o anel mágico depende dos movimentos do Ring-Con!


E assim se começa a jogar. Com o Joy-Con esquerdo agarrado à perna (acessório incluído) e o direito ligado ao Ring-Con, os movimentos do jogador serão facilmente traduzidos nos da personagem. A principal diferença, é que se vai estar a correr sem sair do lugar, enquanto o herói avança para explorar. Mas não se pense que basta fingir que se corre... por exemplo, subir escadas implica levantar mais os joelhos, passadeiras rolantes obrigarão a aumentar a velocidade. E se tudo isto é avaliado com um comando na perna, o mais interessante é mesmo tudo o que se controla com o anel.

Segurado no ar, em frente ao peito, o Ring-Con é o anel de pilates mágico nas mãos do herói, capaz de disparar ou sugar o ar conforme é apertado ou esticado. Apontando para o chão, permite fazer saltar e, mantendo premido, até mesmo flutuar. Ao longo da aventura, novos poderes serão obtidos, tornando o anel num remo para atravessar percursos na água em cima de uma jangada, ou até mesmo asas para voar. Aprendem-se os controlos, acabam por se tornar intuitivos, sem que se aperceba começou-se a exercitar.


Ao longo dos níveis, irão surgir inimigos para se combater. Neste jogo há um sistema de combate por turnos ao estilo de qualquer RPG clássico, mas com todos os movimentos baseados em exercício físico. Os ataques dividem-se em 4 categorias, relacionadas com aquilo que se estará a exercitar, podendo-se escolher entre braços (vermelho), abdominais (amarelo), pernas (azul) e poses de ioga (verde). Dentro de cada categoria, há uma série de movimentos, chamados Fit Skills, que vão sendo desbloqueados confome se avança no jogo, mas caberá ao jogador escolher quais terá disponíveis ao longo de cada nível.

Cada tipo de ataque afecta diferentes inimigos, correspondendo às suas cores. Quer isto dizer que num nível com muitos adversários vermelhos, será melhor apostar em movimentos de braços, enquanto que adversários azuis serão mais facilmente derrotados com exercícios de pernas. Ainda assim, nem só a cor é importante, e terá de ser quem joga a definir a sua estratégia preferida. Cada ataque tem uma quantidade de dano que provoca, assim como o número de adversários que consegue afectar. Isto promove a escolha de atividades diversas, e por vezes o próprio nível recomenda a cor dos exercícios que se deve selecionar, como incentivo a não se fazer sempre a mesma coisa.

O engraçado do jogo é que não é apenas sobre exercício, mas também sobre estratégia no combate. Ao longo dos níveis, vai-se recolhendo materiais que podem ser transformados em smoothies, bebidas saudáveis que ajudarão, por exemplo, a aumentar a energia de certos ataques, aumentar as defesas ou recuperar energia. Com isto, criam-se também missões secundárias, onde personagens solicitam certos itens, o que fará repetir alguns níveis com objetivos diferentes. O resultado é uma enorme longevidade para um jogo do qual muitos farão sessões entre meia-hora a uma hora de cada vez.


Correr, combater e continuar a correr. Tudo o que é feito durante um nível é contabilizado e, no final de cada sessão, o jogo apresenta uma surpreendente lista de exercícios realizados. Sem se ter apercebido, ao avançar pelo nível e combater os inimigos, trabalhou-se uma grande variedade de músculos e até mesmo a nível da postura física. É apresentada uma estimativa das calorias gastas nesse dia, o tempo total de exercício feito (não o do jogo ligado, mas sim das atividades) e até uma avaliação do esforço provocado, medindo a tensão arterial graças ao leitor de infra-vermelhos integrado no Joy-Con.

Durante este período de análise, chegou-se até ao sétimo mundo, de um total de vinte segundo a Nintendo, mesmo deixando para trás muitas missões secundárias que também importam para a longevidade. A ideia é evitar a sensação de se estar sempre a fazer a mesma coisa, e por isso apostaram numa boa diversidade de cenários, que variam entre a natureza e o ginásio, e diferentes visuais que alteram a experiência de passar pelo "mesmo sítio" em diferentes horas do dia na história do jogo. Afinal, a intenção é que se volte sempre a jogar.

Um factor que é sempre importante no que diz respeito a se fazer exercício, é criar uma rotina. Investir, por exemplo, em passar uma meia hora por dia a exercitar, dará melhor resultado do que fazer longas sessões apenas uma vez por semana. Com a rotina, o próprio corpo habitua-se e começa a pedir exercício, mas enquanto tal não acontece, o jogo permite criar alarmes a partir do sistema da própria consola.


O registo de alarme fica na própria Nintendo Switch, por isso mesmo com a consola em modo de descanso e sem o jogo no interior, esta irá ativar a vibração do Joy-Con, assim como a luz do botão "Home" a piscar. Como se pode ver, uma óptima solução para quem utilizar o "hoje nem me lembrei" como desculpa habitual para não utilizar.

Aliás, do ponto de vista do exercício em si, o jogo conta com algumas funcionalidades bastante importantes no que diz respeito às opções disponíveis a partir do ecrã principal. Além de todos os minijogos que se encontram ao longo da aventura no modo de história, todos os exercícios efetuados no jogo estão aqui acessíveis. É possível criar listas de atividades e configurar a intensidade pretendida de cada uma, podendo assim cada utilizador fazer os seus próprios programas de exercício como faria num ginásio.

Isto abre várias possibilidades, desde todo um software de exercícios para quem não quer saber do videojogo em si, até um simples complemento de quem gosta da aventura mas por vezes só quer fazer uma certa sequência de atividades. Sendo um título que os diferentes habitantes da mesma casa irão querer experimentar, estas listas de excercício e simples atividades tornam-no certamente mais abrangente aos gostos de cada um. A própria lista de divertidos minijogos que se encontram neste software, pode não fazer dele um "party game", mas despertará certamente a curiosidade de alguns.

O engraçado, porém, é perceber que só uma lista de atividades para exercício não teria metade do apelo que tem este videojogo. A Nintendo Switch tem sido uma caixa de surpresas devido à forma como se exploram as capacidades do seu hardware e as capacidades dos comandos Joy-Con, e este Ring-Con é agora um bom exemplo disso. Além disso, é um acessório bastante resistente e com bons materiais, sendo algo fácil de se manter limpo mesmo após sessões de jogo com muito suor à mistura.


Ring Fit Adventure é muito mais "jogo" do que se poderia esperar de um título baseado num anel de pilates e que claramente obriga à atividade física. Mas é acima de tudo apelativo, capaz de causar um sorriso enquanto se está a exercitar. Uma grande experiência para a Nintendo Switch, tanto para quem gosta de jogos de aventura como para quem quer fazer exercício, mas não quer ir ao ginásio.


Podem ler mais sobre como foi passar o primeiro mês a jogar em Ring Fit Adventure: Um mês de Suor!

Nota: Esta análise foi efetuada com base em material e código final do jogo para a Nintendo Switch, gentilmente cedido pela Nintendo.
Ring Fit Adventure Ring Fit Adventure Reviewed by Telmo Couto on 17 outubro Rating: 5

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