80 Days


Como falar de um jogo que consegue ser tão intensamente viciante e de uma simplicidade desarmante? Talvez seja melhor iniciar a nossa jornada justamente com o primeiro dos afamados oitenta dias, bem no coração de terras de Sua Majestade.

Em 80 Days somos Jean Passepartout, criado leal do cavalheiro inglês Philleas Fogg. Logo nos primeiros momentos somos atirados para uma aposta inusitada: dar a volta ao mundo em 80 dias. Esta circum-navegação é da (ir)responsabilidade do distinto Fogg mas cabe a Passepartout tornar possível toda a logística desta aventura.


É na delicada gestão de recursos que assentam as principais mecânicas de 80 Days: teremos de controlar o orçamento, cuidar da saúde e bem-estar do nosso senhor, estar atentos a oportunidades nos mercados locais e planear o roteiro de viagem. Este sistema de necessidades está implementado organicamente na narrativa, o que permite uma maior imersão e investimento na história. Prosseguimos viagem num meio de transporte mais rápido mas também mais extenuante para a saúde de Fogg? Exploramos a cidade onde acabamos de chegar ou ficamos a trabalhar no hotel para ganhar dinheiro extra? Compramos um objecto raro para o vender por muito dinheiro num próximo destino mesmo sabendo que teremos de percorrer um caminho mais longo? São questões como estas com as quais o jogador se debate constantemente na sua volta ao mundo e que imprimem tensão real nas nossas decisões.

E acreditem: serão muitas as decisões que farão os jogadores ficarem colados ao ecrã da Switch e a repensar se fizeram a melhor escolha. O melhor é aceitar, logo à partida, que o imprevisto faz parte de qualquer viagem. São os contratempos e acontecimentos inesperados que elevam a experiência de 80 Days e garantem que haja uma vastidão de caminhos a percorrer, muito além dos pontos espalhados pelo globo. Mas esta dimensão só é possível graças à principal joia da coroa deste jogo: a escrita.


As páginas d’A Volta ao Mundo em 80 Dias de Júlio Verne são revitalizadas e expandidas em 80 Days graças à sua escrita brilhante, minuciosa e profundamente envolvente. Sendo este um jogo bem ao estilo de “Choose Your Own Adventure” em que o texto é rei, é impressionante como rapidamente nos esquecemos que estamos “só” a ler palavras num ecrã. Posso fechar os olhos e lembrar-me vividamente das memórias de Passepartout em Paris durante a guerra ou recordar o meu choque perante um desfecho trágico com um revolucionário indiano. A escrita tem uma qualidade e carácter tão cativante que imaginamos autênticos cenários com imagens e sons, transportando-nos para outras realidades à semelhança dos melhores livros.

O texto é acompanhado de belíssimas ilustrações que representam as várias cidades por onde passamos e os meios de transporte em que nos deslocamos. As animações são curtas mas repletas de vivacidade. Os sons dos locais e a música são os detalhes finais que contribuem para uma imersão fluída.

Embora a história decorra no século XIX como o livro de Verne, 80 Days introduz ainda vários novos elementos de ficção-científica. Basta ir de Londres para Paris para mergulharmos nas profundezas do Canal da Mancha graças a um comboio… anfíbio. Maravilhas tecnológicas como um um gigantesco pássaro mecânico fazem de cada travessia uma aventura, e despertem a vontade de descobrir todos os diferentes meios de transporte disponíveis. Mas não são só os veículos que inovam. O espírito de ficção-científica encontra-se nas próprias cidades (podendo estas serem secretas ou até ambulantes!) e nas personagens, onde impera uma luta entre o velho e o novo, entre quem defende as novas criações tecnológicas e quem as teme. Estes detalhes asseguram que nunca sabemos o que esperar da nossa viagem, provocando assim uma vontade constante de descoberta ao longo do mapa.


80 Days oferece tantas possibilidades ao jogador que o factor de “replayability” é enorme. O jogo convida a isso mesmo já que, no final da circum-navegação, são desbloqueadas novas histórias e eventos adicionais. Existem segredos que só são descobertos após várias tentativas, levando a que cada nova experiência deixe a sua marca no jogador.

Este é um jogo largamente acessível mas conseguir completar o grande objectivo dos oitenta dias não é uma tarefa fácil de cumprir. São vários os apelos de personagens para traçarmos novos percursos, terras distantes onde os nossos itens terão mais valor ou, simplesmente, querermos ir a pontos no globo que nos despertam a curiosidade. 80 Days não é punitivo quando nos desviamos de um suposto roteiro porque são os desvios e desventuras que residem no âmago do jogo.

Este título da inkle é extremamente intuitivo na Nintendo Switch, e graças à sua própria natureza (foi inicialmente lançado em 2014 para telemóveis) assenta como uma luva em ambiente portátil. O interface foi repensado para a Switch, sendo possível jogar com Joy-Con ou touchscreen. É notório também o cuidado em manter a qualidade dos gráficos e a legibilidade do texto tanto em modo portátil como na dock.


São várias as emoções que as aventuras de 80 Days despertam e, frequentemente, quando menos esperamos. Existem inúmeras situações que testam a moralidade do nosso Passepartout mas permitindo ao jogador moldá-lo segundo as suas preferências. O tom do jogo muda como os próprias dias, envolvendo-nos num momento com situações cómicas e noutro com acontecimentos desoladores. São diversos os tons a descobrir ao longo de oitenta dias (ou mais) e é essa descoberta que torna este um jogo francamente especial.

Vamos à aventura?
Nota: Esta análise foi efetuada com base em código final do jogo para a Nintendo Switch, gentilmente cedido pela Inkle Studios.
80 Days 80 Days Reviewed by Joana Maltez on 01 outubro Rating: 5

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