Frostpunk: Console Edition


O apocalipse gelado e impiedoso de Frostpunk chega agora às consolas PS4 e Xbox One depois de em 2018 ter alcançado sucesso significativo junto da crítica e do público na sua versão PC.

O que aconteceria se um cataclismo de proporções mundiais reduzisse a humanidade ao limiar da sobrevivência? Esta é uma das grandes questões lançadas por Frostpunk e que determina o tom que permeia todo o jogo. Estamos numa linha histórica alternativa onde, durante o pico da revolução industrial, o planeta mergulhou numa crise climática devastadora. A civilização ficou enterrada sob pesadas camadas de gelo e a vida tem de ser encontrada algures debaixo do desesperante pano branco que cobre este novo mundo.


Sobreviventes de Londres rumam a norte à procura de meios que lhes permitam sobreviver. Um gerador abandonado torna-se a personificação da esperança e o motor de uma nova sociedade que coloca o jogador no papel de líder. Temos assim a duríssima tarefa de criar (e mais importante ainda: manter) a última cidade na Terra. Custe o que custar.

Isto significa que teremos de gerir os escassos recursos disponíveis como carvão e madeira, construir habitações para os sobreviventes e erguer todas as infra-estruturas necessárias para garantir comida, conforto e segurança para todos. Mas isto é apenas uma pequena parte de Frostpunk, um jogo que combina de forma singular elementos de estratégia, sobrevivência e city-building. Existe a forte vertente de micro-gestão a que muitos jogadores estão habituados, mas esta está sempre assente numa lógica de sobrevivência da sociedade. Este é, aliás, o grande lema do jogo: A Cidade Tem de Sobreviver. Somos o último bastião da humanidade e Frostpunk nunca nos deixa esquecer disso.

A optimização de recursos parece simples de início mas rapidamente somos lançados num vórtex de dificuldade desesperante. À medida que os dias passam e o frio aumenta, as exigências da população também escalam. Existem dois instrumentos que nos indicam o estado actual da sociedade: os níveis de Descontentamento e de Esperança. Cada decisão tomada vai afectar essas escalas, sendo necessário encontrar um equilíbrio entre os sacrifícios necessários e o bem-estar possível da população. Se o Descontentamento subir em demasia e a Esperança for inexistente, o jogador corre o risco de ser banido ou ser executado em praça pública. Ninguém disse que o poder é livre de consequências.


Frostpunk assenta as escolhas morais dos jogadores em dois modos distintos que promovem a oscilação entre decisões com resultados a longo ou curto prazo. Por um lado, temos questões de cidadãos individuais, os pequenos casos que criam objectivos adicionais ou a resolução imediata de problemas. Mas a forma mais interessante e inovadora como o jogo lida com questões morais é através do seu Book of Laws. Enquanto líder, o jogador tem a possibilidade de instituir leis e regras a que todos têm de obedecer e que moldam a sociedade de formas frequentemente imprevistas. Conseguiremos manter a empatia com alguns quando necessitamos evitar o colapso colectivo? Este é um dilema sempre presente durante a nossa jornada gélida em Frostpunk.

Num jogo que é frequentemente considerado o sucessor espiritual de This War of Mine, é curioso constatar como a empatia difere tanto entre ambos os títulos. Se em TWOM estamos a um nível micro a gerir um pequeno grupo de sobreviventes durante a guerra e é fácil encontrarmos compaixão pelo seu sofrimento, em Frostpunk esse sentimento é muito mais difícil de ser experienciado. Somos agora um líder de uma cidade e estamos constantemente a sacrificar alguns pelo bem de muitos. Isto inevitavelmente altera a forma como nos relacionamos e nos importamos com os destinos dos sobreviventes sob a nossa alçada.


Um dos aspectos mais cativantes do jogo é a exploração de outros locais através de pequenas equipas de patrulha. Estas aventuras face ao desconhecido são necessárias para a obtenção de recursos mas também conferem mistério a um jogo de estratégia. Este elemento incentiva o jogador a procurar saber mais sobre o mundo fora da sua cidade e traz consequências à comunidade que gerimos. É uma dança delicada e difícil entre as várias facetas do jogo mas possível de alcançar.

A transição de um jogo de estratégia ou de city-building para consolas é geralmente recebida com receio pelos jogadores. Mas Frostpunk consegue demonstrar como é possível que esta seja uma experiência largamente acessível. Todo o interface foi repensado e redesenhado para ser intuitivo num comando, através de ideias muito bem executadas como o design radial nos menus. A navegação entre todos os elementos, menus e ícones é fácil e o controlo da câmera e do zoom é igualmente efectuado sem esforço.

O aspecto menos positivo de Frostpunk é a a forma como fornece informação importante ao jogador. Esta é dispensada ao longo do jogo de forma gradual mas falha por vezes na explicação de mecânicas e sistemas vitais. Isto origina alguma confusão nas primeiras horas de jogo, tornando-se fácil falhar por mero desconhecimento.


Frostpunk consegue ser um jogo francamente stressante tanto na atmosfera opressiva como na dificuldade assinalável. Não é de todo uma experiência divertida mas muitos encontrarão aqui um jogo intenso e desafiante que não facilita a vida aos jogadores. É especialmente indicado para aqueles que encontram prazer na luta contra obstáculos hercúleos, sabendo que farão melhor a cada tentativa até conseguirem alcançar o objectivo final.

Nota: Esta análise foi efetuada com base em código final do jogo para a PlayStation 4, gentilmente cedido pela Evolve PR.
Frostpunk: Console Edition Frostpunk: Console Edition Reviewed by Joana Maltez on 14 outubro Rating: 5

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