Disco Elysium - The Final Cut


Dois polícias, um homicídio e uma aventura interativa profunda, numa crua representação do que é ser humano. 

Num universo distópico, numa cidade que é de todos e de ninguém, acordamos num quarto de hotel ranhoso. Depois de uma longa discussão quanto ao porquê sequer acordar; acordamos praticamente despidos e ainda a segurar as evidências que na noite anterior exagerámos no álcool. O quarto está completamente caótico, resquícios do nosso estupor que nos deixou ainda outro presente: estamos completa e absolutamente sem memória.


Após uma curta recolha dos nossos pertences, saímos do quarto e somos confrontados com uma vizinha. Ela introduz-nos ao nosso primeiro índice: somos um polícia que está ali para resolver um homicídio. Tudo que fizemos até agora, no entanto, foi criar um vortex de caos embriagado que colocou toda a gente daquele pequeno hotel/bar e das imediações com zero confiança nas nossas capacidades. Somos um absoluto desastre de ser humano.

Pouco após umas quantas outras conversas iluminadoras, que criam uma audível e visível vergonha, conhecemos o nosso parceiro para esta investigação. Um polícia exatamente no espectro oposto: direto, eficaz e diligente. A dicotomia entre nós e ele é um dos grandes temas da história, juntamente com as nossas constantes discussões internas com os vários lados e capacidades da nossa personalidade. O nosso cérebro e habilidades são não só factor nas escolhas que condicionam, mas também um elemento ativo de toda esta festa, trazidos à vida por uma narração digna de prémio.

Tudo que acontece é decidido em diálogos e escolhas de ações, condicionadas pelas nossas opções iniciais de proficiência. E nisto se revela a magia de Disco Elysium: as nossas ações definem não só o decorrer da história e investigação, como também a perceção externa e interna do nosso personagem. O sistema é extremamente dinâmico e quase orgânico, levando a uma experiência surreal que na verdade é o mais realista possível.


As nossas capacidade dividem-se em 4 categorias: intelecto (coisas como a lógica), psique (inteligência emocional), a nossa musculatura e resistência e a nossa destreza e reflexos. Os pontos que vamos obtendo podem ser colocados em várias divisões destes 4 que irão influenciar a nossa capacidade de resolução de certos problemas. Um exemplo claro: temos uma parede de músculos incontornável na resolução do nosso objetivo, podemos tentar ganhar o confronto físico, encontrar um caminho alternativo ou aceitar a teoria racista dele para o convencer. 

Após uma triste tentativa de vitória física fiquei limitado às outras opções (e sim se falharem crucialmente o jogo tem game overs preparados e contextualizados ao vosso progresso). A falha em vencê-lo, no entanto, abriu-me todo um leque de opções e eu decidi tentar ludibriá-lo, fazendo-me servo da sua teoria sem sentido. No entanto isto não é apenas uma escolha definida pela pontuação, tive que aceitar intrinsecamente aquele pensamento para o convencer, o que demora tempo de jogo, tal como a digestão interna de qualquer ideia nova.

Existem imensas destas linhas, que nos vão aparecendo no desenrolar da história principal e das actividades paralelas. São não só importantes para o desenlace das várias histórias como quando trabalhadas dão-nos bónus permanentes, tendo depois sempre a opção de as esquecermos para enquadrarmos outras novas. Estamos em constante crescimento e mutação como ser e o jogo enquadra tudo isso como mecânicas sobre as quais temos algum controlo.


A contemplação do falhanço não fica por aqui, todavia. Todas as decisões, escolhas e opções têm opção de sucesso ou falha contempladas com excelentes descrições narrativas e impactos reais. Para uma obra fictícia, o jogo faz um trabalho fascinante em contemplar todas as avenidas possíveis, tornando aquilo que parece uma aventura surreal numa das experiências mais realistas que experiencei até hoje.

Não é só todo um Universo diferente fisicamente aquele onde o jogo reside. Filosofia, política e até questões como a estratificação de classes e o racismo são temas correntes e que nos colocam dúvidas sobre as nossas próprias opiniões. Mais ainda, o domínio desses temas pode facilitar a compreensão dos interesses de todos os envolvidos neste caso, que com o decorrer compreendemos que o impacto do mesmo é quase universal.



A arte tem um estilo único, uma mistura vanguardista que é perfeita neste ambiente semi moderno e caótico. Os efeitos visuais e auditivos estão perfeitos e enquadram perfeitamente a narração. E que narração, das mais brilhantes que já tive o gosto de ouvir, cada momento, cada discussão é genialmente trazida á vida pelo trabalho de voz. Todo o cast está genial, mas o narrador merece um crédito particular. Numa última sugestão, comprem uma boombox. A banda sonora está genial e há um momento em que, se tiverem a dita cuja boombox, terão um momento que descreve exatamente o quão disco é aquela realidade.

Brilhante, real e ao mesmo tempo surreal. Uma desconstrução e construção da realidade e do "eu" que torna este jogo tão numa experiência tão fascinante como inquietante.


Nota: Análise efetuada com base em código de acesso no Google Stadia, gentilmente fornecido pela Google.




Disco Elysium - The Final Cut Disco Elysium - The Final Cut Reviewed by Bruno Santos on 09:00 Rating: 5

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