Istanbul: O Jogo de Dados


Artigo escrito por João Efigénia

Em 2019, a MEBO Games (na altura, MEBO) trouxe-nos o Istanbul: Jogo de Dados, uma das ofertas mais acessíveis e rápidas do seu repertório. Adaptando o original com o mesmo nome e revolucionando as mecânicas de forma a tornar o jogo mais fluido e distinto, será este jogo um caso verdadeiro de "menos é mais"?

O conceito do jogo é idêntico ao original: os jogadores são mercadores que, através de várias transações diferentes, irão tentar obter os Rubis vermelhos que os vão levar à vitória. Essas transações são realizadas através de dados que são rolados pelo jogador actual, e cujos símbolos resultantes podem ser combinados ou utilizados individualmente para concretizar açcões como ganhar Liras, adquirir Peças de Mercadoria ou de Mesquita, e até (com alguma sorte) comprar um Rubi imediatamente.

Mas como se joga?

No início do seu turno, o jogador irá rolar os dados (a início 5, embora mais tarde possa dados adicionais); de seguida, utilizará as faces que obteve para executar duas acções (a início 2, potencialmente mais). O seu turno termina quando concretizar a sua última açcão.

O foco do jogo reside, principalmente, em tentar combinar as diferentes faces dos dados de forma a maximizar o potencial de cada turno. Todos os dados são idênticos e têm 6 faces: uma para cada tipo de mercadoria (com uma cor respectiva), uma com duas Liras e uma com o símbolo de Cartas de Bazar (que explicarei mais à frente). Duas faces de mercadoria iguais dão uma Peça de Mercadoria desse tipo, e duas faces de mercadoria diferentes dão um Cristal, que permite ao jogador voltar a rolar tantos dados quantos queira uma vez. Ao todo, existem 8 possíveis acções que os jogadores podem realizar utilizando os dados e as Peças de Mercadoria, que essencialmente são faces de dados que o jogador pode adquirir e guardar (sem qualquer limite) para poder executar acções que requerem provavelmente mais faces de determinado tipo do que há dados disponíveis. 

Os Rubis, e a sua compra ou aquisição, são o objectivo principal do jogo, e são adquiridos de 3 formas diferentes: pagando o seu custo em Liras, marcado no círculo mais próximo na área de comercialização de Rubis do tabuleiro (em cima, na faixa vermelha, o custo do primeiro Rubi disponível é 12 liras); utilizando um determinado número de mercadorias de certo tipo (no exemplo acima, os jogadores poderão utilizar 4 mercadorias amarelas ou verdes para adquirir o rubi à esquerda deste número); ou coleccionando um determinado número de Cartas de Mesquita (no exemplo acima, 5). 

É claro que o foco dos jogadores irá sempre centrar-se na rápida captura dos Rubis. No entanto, é importante criar uma mecânica que lhes permita rolar tantos dados e executar tantas acções quanto possível, de forma a maximizar as suas hipóteses de sucesso. E é aqui que entram as Cartas de Mesquita que referi anteriormente.


Estas cartas, na sua essência, consistem em modificadores permanentes do turno do jogador. Muitas delas são despoletadas ainda antes de ele rolar os dados: receber 3 Liras, um Cristal, ou uma Carta de Bazar no início do turno pode fazer toda a diferença no desenrolar do jogo. Outras atribuem ao jogador acções adicionais, dados extra ou bónus de Liras de cada vez que é utilizado um determinado tipo de mercadoria numa acção. Ou seja, embora todos os jogadores comecem o jogo com apenas 5 dados e 2 acções por turno, na última ronda é possível já jogarem com 7 ou 8 dados e 3 ou 4 acções. Estas Cartas de Mesquita são adquiridas pagando o custo em mercadoria indicado no topo de cada Carta, de um mercado de 6 disponíveis a todo o momento.


E já que falamos em Cartas, existem ainda as Cartas de Bazar. Estas cartas são adquiridas através das faces dos dados ou das Cartas de Mesquita, e são utilizadas imediatamente. Existem 2 tipos de cartas: as que têm efeito apenas para o jogador que as utiliza, e as que têm efeito tanto para o jogador como para todos os outros jogadores. Normalmente, há sempre alguma espécie de ganho para o jogador (mesmo que o próprio opte por não descartar ou utilizar peças ou faces para ganhar o benefício ganha sempre 1 Lira). O importante é, quando ocorra tal situação, o jogador determinar se compensa utilizar aquela Carta de Bazar, pois pode beneficiar os adversários e prejudicar o seu próprio jogo. 

O final do jogo é despoletado quando um jogador adquirir o seu 6º Rubi (ou 5º num jogo com 4 jogadores). Nesse momento, todos os jogadores que ainda não jogaram nesta ronda fazem o seu turno, de forma a que todos na mesa tenham tido o mesmo número de turnos. Ganha o jogador que tiver mais Rubis e, em caso de empate, o que tiver mais Liras após ter vendido todas as suas Peças de Mercadoria e Cristais não utilizados.


Em suma, é difícil não gostar de um jogo como Istanbul: O Jogo de Dados. Os cartões de ajuda para os jogadores com um resumo de todas as acções possíveis, a total independência de língua, a iconografia simples de perceber e o conceito de "corrida comercial" acabam por torná-lo um dos jogos mais acessíveis da gama da MEBO Games. Aliado ao facto de ser uma reimplementação de um dos títulos mais famosos da Pegasus Spiele da década passada, muitos fãs do original (e os novos também) vão sentir-se desafiados e entretidos durante várias partidas. E a somar a isto, a curta duração de cada jogo (20 a 40 minutos) permite que se possa sempre jogar mais um "para a desforra". Pessoalmente, sempre que este jogo vem à mesa, nunca é jogado menos de duas partidas.


Avaliação D.I.C.E.

Dinâmica 
Acho que é um dos pontos fortes deste jogo. A maneira como as mecânicas de dados, engine-building leve e mercado se entrelaçam faz com que haja muitas maneiras diferentes de conquistar os Rubis. As Cartas de Bazar que beneficiam os adversários fazem-nos ponderar bastante se é compensatório utilizá-las de todo, quando podem ser a causa da nossa derrota. E as Peças de Mesquita, estando à vista de toda a gente e passíveis de estarem debaixo de olho de todos os jogadores, acrescentam aquela interacção entre jogadores que permite facilmente a que alguém que se esteja a sentir particularmente maléfico naquele dia de assumir o papel de mau da fita, e optar por comprar Peças de Mesquita que iriam beneficiar largamente os outros jogadores. E com 24 Peças de Mesquita e 33 Cartas de Bazar, a re-jogabilidade aumenta drasticamente.
                                                     

Integração Temática / Inovação 
É difícil classificar ou avaliar de forma justa a integração temática e a inovação deste jogo, uma vez que é uma adaptação de um jogo já existente. Cumpre muito bem a missão que lhe é incumbida, que é trazer um pouco do sentimento do jogo original e torná-lo mais leve, acessível e recompensador. As vitórias são rápidas, e é raro ver um jogo que adapta tão bem material já existente e reafirmá-lo com novas mecânicas que conseguem desenvolver o seu potencial. Não inova, no sentido literal da palavra, mas marca um bom patamar de qualidade para reimplementações de jogos futuros. 

Complexidade   
Este é outro dos pontos fortes de Istanbul: O Jogo de Dados. O baixo nível de complexidade torna-o praticamente acessível a todos os jogadores, mesmo os mais novatos. Ainda que o Istanbul original possa ser considerado por muitos um jogo de entrada no universo dos jogos de tabuleiro, a simplicidade desta variante poderá interessar até quem nem tem interesse de todo neste mundo. Digamos, aquele tio ou irmã que desafiamos para uma partida rápida com aquele argumento de "Vá, dá-me aí 20 minutos, é a desforra daquela sueca que perdi no outro dia!". True story.


Entretenimento, Design e Arte
O design e a arte deste jogo são trazidas quase na sua totalidade do jogo original. O estilo turco da iconografia, as moedas e o próprio tabuleiro de jogo são fiéis à sua origem. Os Rubis vermelhos continuam um dos elementos mais bonitos deste jogo, e os novos Cristais trazem um pouco mais de luz e "peso visual" a um jogo que por si só não tinha razões para ser mais bonito do que aquilo que já era. Tudo isto numa caixa que, na minha humilde opinião, poderia ter metade do tamanho, o que iria facilitar o transporte e enaltecer o sentimento de poder levar e montar este jogo em qualquer lado.
A nível de entretenimento, como referi acima, é difícil não jogar duas ou três partidas de cada vez. O setup é relativamente rápido, as acções possíveis são variadas mas não nos induzem em paralisia de análise, e é possível, com um pouco de sorte e zero estratégia, o sentido do jogo virar abruptamente, o que alimenta ainda mais a necessidade de uma desforra no final da partida.


Considerações Finais
Istanbul: O Jogo de Dados é uma excelente adaptação do jogo original. Sendo um jogo de duração rápida, com dois tabuleiros para jogar a pares ou em grupos de 3 ou 4, todo um conjunto de cartas diferentes (muitas das quais nem vão ver a luz do dia durante algumas partidas), e uma acessibilidade e simplicidade que são muito apelativas ao fim de um dia de trabalho, acaba por se tornar um jogo essencial na prateleira de qualquer jogador ou família de jogadores que precise de algo leve para animar as suas noites.

A DICE Cultural orgulha-se de ter contribuído para a distribuição deste jogo em Portugal, traduzindo-o para a nossa língua materna.

Istanbul: O Jogo de Dados Istanbul: O Jogo de Dados Reviewed by DICE Cultural on 10:00 Rating: 5

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