Alien Role Playing Game – Starter Set

Artigo por Marco Silva

Se és fã de Role Playing Games ou és curioso e gostavas de entrar neste mundo, e gostas do universo originalmente criado por Ridley Scott e Dan O’Bannon em 1979 no cinema com o filme Alien, o 8º passageiro, então continua a ler esta análise pois vais gostar do que tenho para partilhar contigo. Eu sou um enorme fã deste universo e cresci a jogar RPGs tanto tabletop como no PC e consolas, por isso é um prazer partilhar convosco a minha experiência a explorar este jogo.


Vou falar-vos do Starter Set que a Free League Publishing lançou em 2020 e ao qual tivémos acesso neste Natal. Se já conheces outros Starter Sets de outros Tabletop RPGs então já conheces o conceito, mas para quem não conhece passo a explicar rapidamente o que é normalmente o objetivo de um Starter Set. São versões “Prontas a Jogar” dos RPGs que representam, normalmente incluem sets de dados, personagens já criadas, e uma ou mais campanhas que um jogador ou grupo de jogadores podem pegar e começar praticamente logo a jogar, sem as complexidades de criação de uma campanha e até com uma explicação simplificada, mais focada das regras para retirar os entraves à entrada de jogadores neste universo.

 


Falando do universo do Alien Roleplaying Game que a Free League criou, este Starter Set é uma parte da oferta que já existe desse mesmo universo. Podem também encontrar o Core Book e a expansão Destroyer of Worlds (expansão que tanto funciona com o Core Book como com o próprio Starter Set). Adicionalmente, já está anunciada a expansão Colonial Marines que deverá sair na primeira metade de 2021.

Um dos primeiros pontos que quero referir desde já é a forma como a Free League cria os seus conteúdos e cenários neste universo, e que tem uma particularidade que é importante realçar. Existem 2 tipos de cenários: o que eles chamam os Cinematic Scenarios, que são no fundo aventuras únicas muito guiadas e algo fechadas que acontecem nesse universo e em que as personagens são especificas dessa aventura, tal como as histórias dos filmes; e as Open-World Campaigns, que são aventuras mais abertas em que as personagens vão evoluir normalmente com o tempo e as diferentes aventuras que vão realizando, e que são criadas pela Game Mother (que, no fundo, é o clássico Dungeon Master) com os elementos presentes no Core Book e nas expansões que podem ir adicionando. Dito isto, este Starter Set apenas inclui um Cinematic Scenario chamado Chariot of the Gods que só pode ser encontrado no próprio Starter Set, e será sobre este material que vamos basear a nossa análise. Se calhar no futuro teremos a oportunidade de conhecer o resto dos livros deste universo.

Vamos começar por falar sobre o que vem dentro da caixa:

Um livro de regras, paper-back, com 104 páginas, que é uma versão resumida do Core Book que tem 392 páginas;

Um livro de 48 páginas da aventura Chariot of the Gods, escrito pelo Escritor de Sci-Fi Andrew E.C. Gaska;

5 folhas de personagens já pré-criadas;

Um enorme mapa (864x558mm) a cores e em papel bem grosso, impresso dos dois lados, em que um lado é o mapa estelar do ano 2183, e no seu verso um mapa dos andares da “Chariot of the Gods”;

Um punch card de marcadores em cartão (84 no total) para poderem ser colocados no mapa para conseguir visualmente demarcar onde estão as personagens, sensores de movimento, etc.;

Um deck de 56 Cartas que inclui cartas de armas, agendas pessoais das personagens, e marcadores de iniciativa para combate;

2 sets de 10 dados de 6 faces, customizados para serem temáticos, uns pretos e outros amarelos.

Ao abrir a caixa e folhear os livros, pegar nos dados, ou simplesmente nas cartas, reparamos que a qualidade de todos os componentes é incrível. Os pormenores dos dados terem os valores 6 com uma imagem de uma cruz que representa o sucesso de um lançamento e os valores 1 terem o clássico Facehugger impresso, que no jogo representaria um insucesso, é fantástico. O outro ponto que é impossível não dar uma nota muito positiva é a arte presente em todo o lado do jogo: ao folhear o livro de regras ou o livro da aventura notamos que ambos estão recheados de páginas inteiras de ilustrações incríveis. A própria caixa do jogo está muito bem ilustrada, com tons de vermelho e preto, mesmo ao estilo artístico que é impossível não nos remeter para as nossas imagens mentais dos filmes.

 


Um outro ponto que é importante referir é o da imersão da história criada no universo Alien que está incrivelmente bem feita, com uma timeline de eventos até ao momento presente onde este universo do RPG se passa. É muito engraçado ler sobre estes eventos e ver marcados os momentos em que a Weyland Corp lança o Prometheus em busca dos Engineers, ou o momento em que o Nostromo encontra o pedido de ajuda da colónia terreste no planeta LV-426, retratando os momentos do primeiro filme, entre outros muito bem contextualizados.

Falando agora do jogo em si e da experiência de o jogar. Começo por deixar uma dica: apesar de já vir incluída no starter set uma folha por cada personagem, podem fazer download do PDF da Character Sheet no site oficial da Free League e usar isso para marcar os valores de atributos da vossa personagem e manter as modificações que vão sofrendo durante o jogo, ao invés de simplesmente ter tudo anotado numa folha em branco ou usarem as folhas das personagens que vêm no starter set e assim preservam o jogo mais tempo. O jogo em si é muito simples de jogar: a forma de resolver os combates tem uma mecânica de número de dados, por isso nada daquelas coisas complicadas que muitas vezes assustam os jogadores menos habituados, e nos dados têm de se contar as faces com cruzes de sucesso (que no fundo correspondem aos 6) e os insucessos que seriam os Facehuggers. O sistema de iniciativa do sistema de combate também é muito interessante, diferente dos sistemas normais em que rolamos um D20 para determinar quem ataca primeiro e temos os stats a modificar o valor dos dados. Aqui temos um baralho de cartas de iniciativas, numeradas de 1 a 10: dependendo da rapidez das personagens/inimigos, uns podem ir buscar 2 cartas e escolher a melhor, ou ir buscar múltiplas cartas e atacar múltiplas vezes. É um sistema diferente para gerir a iniciativa, mas que pessoalmente gostei, pois ainda não tinha jogado nenhum jogo com esta dinâmica em que dependendo dos stats e habilidades da personagem os jogadores vão ter formas diferentes de interagir com este baralho, e a estratégia está ai e não tanto num rolar de um dado com modificadores.

 


O jogo introduz também uma mecânica de stress muito interessante, em que quanto mais stressado uma personagem está, mais dados pode ir buscar, o que faz sentido porque quando estamos sob pressão de sobreviver até temos mais força para lutar pela vida. Contudo, usamos os dados amarelos para esses novos dados adicionados e se por acaso falharmos o lançamento desses dados e tivermos Facehuggers como resultado, o stress rapidamente se transforma em pânico e as coisas começam a piorar rapidamente.

O jogo tem muitos destes elementos de stress, suspense e terror tal como nos filmes. É muito fiel em nos colocar em situações muito complicadas e nos matar personagens ou nos ferir gravemente, novamente tal como nos filmes. Um exemplo de pânico que temos de gerir ao longo do jogo é os consumíveis, como a água, comida e ar… e à medida que o jogo passa, o pânico aumenta e temos de rolar para ir usando os consumíveis e vemos que cada vez temos menos dados para rolar porque os consumíveis se estão a esgotar, e estamos a ficar sem ar, o pânico começa a instaurar-se.

Um elemento que também quero realçar no jogo é o elemento dos objetivos pessoais, que cria uma dinâmica muito boa no jogo. No fundo todos temos o objetivo de sobreviver e vamos andando pela aventura simplesmente a tentar sobreviver, mas cada personagem, por causa da sua história, tem um objetivo pessoal que é relevante em certos momentos da história e que o jogador irá seguir um dado comportamento e tomar certas decisões para conseguir preencher o seu objetivo pessoal. Isto fez-me lembrar muito os filmes, pois se os conhecerem, conseguiam ver várias personagens que, à medida que a história se ia revelando, começávamos a ver uma agenda pessoal, como por exemplo o Ash, o androide do primeiro filme que tinha ordens para trazer o Xenomorph para a Terra, ou o Burk, no segundo filme, que queria trazer a Ripley ou a Newt “grávida” com um Xenomorph para a Terra, e fechou-as numa sala com um Facehugger. 

No jogo os objetivos pessoais nem sempre são algo que seja muito impactante: de vez em quando são coisas simples como não destruir propriedade privada, ou encontrar uma bebida, mas também pode ser algo que ajude o resto dos jogadores ou que vá agir contra os outros jogadores. Este detalhe cria uma dinâmica muito interessante e, ao longo da aventura, por cada parte da aventura (que está dividida em Atos, ou Capítulos) os jogadores pontuam Story Points, que podem ser usados no jogo para evoluir as personagens. Um aspeto muito curioso destes Story Points é que a Free League incluiu uma forma muito interessante de conseguir transitar algo entre jogos destas Cinematic Campaigns como é o caso desta Chariot of the Gods, em que, apesar de usarmos personagens especificas e que só existem no contexto destas aventuras, os Story Points que não usamos no final de uma aventura podem ser passados para a próxima personagem que iniciarmos a próxima aventura. Assim criam uma dinâmica de evolução simples num modelo que, em circunstâncias normais e noutro jogo qualquer, não teria este elemento.


Opiniões finais

Como opinião final, irei basear-me no sistema D.I.C.E., onde irei tocar nos tópicos de Dinâmica, Inovação, Continuidade e Entretenimento.

Dinâmica

Sendo um RPG, não é o típico RPG. À parte das ilustrações e arte incríveis presente em todo o lado no jogo, é um jogo bastante ativo, com uma pressão de sobrevivência muito presente e uma dinâmica muito simples. Não é, de todo, um RPG parado. 

Inovação

Comparado com os clássicos RPGs, tem muitos elementos interessantes e inovadores, desde os 2 tipos de aventuras mais abertas ou mais pré-construídas para agradar a 2 públicos-alvo, ao sistema de combate com base em cartas de iniciativa, ou ao sistema de objetivos privados que vão mudando com o decorrer da história e que criam uma dinâmica muito interessante entre jogadores. Há mesmo muito que possamos ver de novo e único neste jogo que nos ajuda a criar momentos fascinantes que vamos certamente recordar.

Continuidade

Este Starter Set em particular infelizmente apenas tem uma aventura. É provavelmente o ponto que mais pena tive em ver. Estou habituado a ver Starter Packs com uma miniaventura ou duas só mesmo para os jogadores experimentarem as regras, muitas vezes são jogados muito rapidamente e são mesmo quase como um trailer para o filme principal, mas já dão um gostinho do jogo, e depois tem 1 ou 2 campanhas mais completas. Neste caso não, apenas tem esta campanha, apesar de ser uma campanha com diferentes personagens e pode ser jogada várias vezes, é só uma. 

Adicionalmente o Starter Set só contém as 5 personagens pré-criadas e não contém no livro de regras os elementos necessários para construir convenientemente novas personagens uma vez que se trata de um Cinematic Scenario. Este aspeto, infelizmente, torna este Starter Set um pouco mais limitado, na minha opinião.

Por outro lado, adicionando apenas o Core Book, podemos utilizar as personagens e até mesmo os Non-Player Caracters deste Starter Set como personagens de aventura em campanhas abertas no mundo, o que aumenta bastante o potencial do jogo. Também é importante referir que a Free League lançou já a expansão Destroyer of Worlds, que funciona tanto com o Core Book como com o Starter Set, o que foi muito bem pensado da parte dele.

Entretenimento

Este é, sem dúvida, um RPG que será capaz de entreter um grupo de amigos por muitas horas. Os jogos estão planeados para 4h neste Starter Set, mas é muito fácil nos perdermos nas imagens e na arte no início durante horas e a partilhar histórias dos filmes, porque uma imagem ou passagem de texto tinha uma referência escondida. 

 


Em resumo, é um jogo muito bem construído, com uma arte incrível e uma excelente forma de entrar no mundo dos RPG, bem como no universo de Alien. Para fãs desta franchise é, sem qualquer dúvida, uma fantástica forma de relembrarem os filmes e de explorarem de uma forma nova este universo. Para os amantes de RPG é também um muito bom universo a explorar e uma fantástica porta de entrada, o Starter Set traz muita coisa que podem depois usar juntamente com o Core Book e podem dar início à vossa aventura de uma forma mais simples e leve com esta versão simplificada do Rulebook e depois avançar para mais aventuras se quiserem continuar.

Alien Role Playing Game – Starter Set Alien Role Playing Game – Starter Set Reviewed by DICE Cultural on 10:00 Rating: 5

Latest in Sports