Unforgiven – The Lincoln Assassination Trial

Artigo escrito por Miguel Lourenço.

“Unforgiven – The Lincoln Assassination Trial” é um jogo competitivo para 2 jogadores, criado por Tom Butler, e publicado pela Green Feet Games.

Neste jogo, os 2 jogadores tomam parte do julgamento de Mary Surratt, que foi a primeira mulher a ser condenada e executada por traição pelos Estados Unidos.

Antes de irmos ao jogo propriamente dito, temos de fazer aqui uma pequena abordagem histórica, uma vez que é preciso contextualizar porque é que o jogo se chama “The Lincoln Assassination Trial”, quem foi Mary Surratt, e como é que tudo isto se liga.


Contexto

Começando pelo início, Abraham Lincoln, o 16º Presidente dos Estados Unidos, foi assassinado a 15 de Abril de 1865, por John Wilkes Booth, no Ford’s Theater, enquanto assistia a uma peça de teatro.

John Wilkes Booth posicionava-se na Guerra Civil Americana como apoiante dos Estados Confederados, derrotados na Guerra, e tinha originalmente um plano para raptar o Presidente.

No entanto, esse plano foi alterado para assassinarem o Presidente, o Vice-Presidente, e o Secretário de Estado, de forma a ajudar a causa Confederada.

Mary Surratt era dona de uma pensão e taberna, e o seu filho foi recrutado para a conspiração de raptar Lincoln. Algum tempo depois, apoiantes da Confederação começaram a frequentar a taberna, entre os quais John Wilkes Booth, tendo ela própria participado em algumas movimentações da Confederação.

Mary Surratt foi mais tarde presa, e julgada e condenada por um tribunal militar composto por 9 juízes.


O jogo

Voltando ao jogo, “Unforgiven” retrata o julgamento de Mary Surratt, em que um dos jogadores será a defesa, e o outro a acusação. Um dos jogadores ganha quando uma das 3 condições de vitória forem conseguidas: conseguir persuadir 4 juízes, fazer pender a balança da Justiça para o seu lado, ou num desempate, se tiver mais Pontos de Julgamento que o oponente.

Mecanicamente, o jogo faz lembrar alguns jogos de engine-building, como o Splendor, uma vez que existem cartas de “prova” (testemunha, local, objeto, etc), que têm um custo (no fundo da carta) e dão um benefício permanente (no topo da carta), e também o 7 Wonders Duel, uma vez que, no setup do jogo, colocamos essas cartas de uma forma intercalada:

 

 

Cada jogador tem uma área pessoal, onde vai colecionando as cartas de testemunha e prova, para ajudar ao seu “lado”:



Nessa área pessoal, cada jogador tem também um conjunto de pontos de Sway, que serve como a “moeda” do jogo, que podem ser usados para, por exemplo, comprar cartas.

 


No centro da mesa, temos o tabuleiro, com 5 jurados previamente colocados, 5 dados, a balança ao centro, na posição 0, e 3 cartas colocadas debaixo do tabuleiro, de forma a que apenas se veja o seu custo. (a imagem foi tirada durante o jogo, apenas aparecendo 2 das 3 cartas). 

 


Turno do jogador

O jogo desenrola-se ao longo de 3 fases, em que, no seu turno, o jogador terá sempre de escolher uma das cartas do “losango”, e colocá-la na sua área pessoal, pagando o seu custo, ou descartá-la, para poder ganhar Sway, persuadir um jurado, ou convencer um jurado que tenhamos na mão. 

Também pode efetuar quaisquer ações de dados, desde que tenha algum dado na sua área.

Colocar uma carta na área pessoal implica simplesmente escolher uma carta do “losango” da fase atual, pagar o seu custo, e colocá-la na área pessoal. De lembrar que cada carta dá sempre um benefício, e que é permanente, portanto pode ser vantajoso ter mais destas cartas.

Persuadir um jurado significa que temos de fazer chegar um dos jurados no centro da mesa até ao nosso lado. Para isso, cada jurado tem 3 “passos”, cada um com um custo progressivamente superior. Quando conseguirmos persuadir um jurado, esse é automaticamente 1 dos 4 jurados que temos de conseguir para ganhar o jogo.

Convencer um jurado significa que temos um jurado na nossa mão, e, tal como todas as outras cartas, tem um custo. Quando conseguirmos ter todos os recursos, podemos “jogar” essa carta, sinalizando que temos mais um dos 4 jurados necessários para ganhar.


Quanto às ações de dados, caso um jogador tenha dados na sua área pessoal, os quais são possíveis de obter através de cartas, por exemplo, existe um player aid que detalha todas as combinações de dados possíveis, e os bónus associados. Todos os dados são diferentes, o que faz com que haja sempre um nível de surpresa associado ao lançamento de cada dado.

 


A balança da Justiça

Como já indiquei, uma das formas de ganhar o jogo é fazer pender a balança da Justiça para o nosso lado. Essa balança é representada por uma track com 9 espaços para cada lado, e podemos fazer avançar a balança através de cartas ou dados que tenham o símbolo da forca. Por cada símbolo, avança um espaço na direção do jogador. 

Ao voltar ao espaço 0, esse jogador tira o dado que está no centro da balança para si, e poderá utilizá-lo quando precisar.

Ao chegar ao espaço 4, “desbloqueia” o jurado que lá está, fazendo com que esse jurado passe para a área pessoal do jogador. Atenção que este jurado ainda tem de ser convencido, ou seja, ainda temos de pagar o custo da carta! 

Caso alguém consiga fazer chegar a balança completamente ao seu lado, ganha o jogo imediatamente.



As 3 fases e o final do jogo

Cada uma das 3 fases do jogo termina quando já não houver cartas no “losango”. Aí, cada jogador escolhe um dado da fila de dados, pagando algum custo em Sway se necessário, e o jogo continua.

Caso as 3 fases terminem sem que nenhum dos jogadores tenha conseguido pender a balança da Justiça para o seu lado, ou convencer 4 jurados, o jogo tem um mecanismo de “desempate”, em que o jogador que tiver mais Pontos de Julgamento (ou seja, mais ícones de martelos com fundo amarelo) vence.



Conclusões e opinião

Depois de ter jogado o jogo, percebi que Unforgiven não é apenas um jogo, é uma lição de História de um período conturbado dos Estados Unidos. Fez-me querer saber mais sobre a época, sobre os factos, sobre quem foram aquelas pessoas, e o que aconteceu. Não mencionei antes, mas todas as cartas têm uma fotografia de uma pessoa, um objeto, um local, etc, que são fotografias reais, e que o criador do jogo agradece a várias instituições americanas por fazerem com que a simulação seja mais real.

Outro aspeto que poderia saltar à primeira vista é que, sendo um jogo sobre um julgamento, podia ou devia ser assimétrico, ou seja, a defesa e a acusação terem alguma forma de assimetria, mas depois de jogado, não é necessário que isso aconteça, uma vez que cada testemunha ou objeto pode ser utilizado quer por um quer pelo outro lado da “barricada”.

Resumindo, é um jogo bastante interessante, sobre um período da História dos Estados Unidos que não chega muito ao outro lado do Atlântico. Está tematicamente muito bem ligado, e mecanicamente podemos fazer comparações diretas com o Splendor e 7 Wonders Duel, o que faz com que quem tenha jogado esses jogos se sinta aqui muito confortável.

Adicionalmente, se gostarem da tensão de julgamentos, provas, etc, este é um jogo para vocês!


Unforgiven – The Lincoln Assassination Trial Unforgiven – The Lincoln Assassination Trial Reviewed by DICE Cultural on 12:00 Rating: 5

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