Heaven's Vault

Quem nunca se sentiu fascinado pelo trabalho dos arqueólogos que, ao olhar para símbolos estranhos, são capazes de entender o seu significado? Agora todos podem sentir um pouco dessa experiência, num mundo bastante diferente do nosso e no qual se perdeu o conhecimento de uma língua ancestral.

Heaven's Vault coloca-nos na pele Aliya Elasra, uma arqueóloga que tenta compreender os mistérios do passado, em busca de pistas para o futuro. A história passa-se em Nebula, um mundo composto por pequenos planetoides interligados por uma rede de rios celestiais. Os rios, porém, estão a secar. Os recursos em Nebula começam a escassear.

A aventura começa quando Aliya é convocada pela sua tutora para ir em busca de um professor que, entretanto, desapareceu da Academia. Para a acompanhar, irá também um robô assistente, carinhosamente chamado de Six - é que Aliya tem um histórico algo atribulado com estas máquinas. O que começa por ser uma simples busca, porém, rapidamente se irá tornar no desenrolar de um novelo relativamente ao passado. O que significam, afinal, as mensagens encontradas de tempos desconhecidos?


É precisamente nesse passado que se encontra a principal mecânica deste jogo, algo que o distingue de tudo o resto: a tradução. Tudo começa com uns rabiscos estranhos. Sendo arqueóloga, Aliya tem algum conhecimento de como as coisas se processam, mas daí até saber o que as coisas significam há todo um trabalho pelo meio. Compete então ao jogador a tarefa de a ajudar, o que irá por sua vez influenciar todas as traduções que venha a fazer, assim como a própria história e o que ainda irá acontecer.

Se nas primeiras palavras se estranha, também rapidamente se entranha. Para dar um exemplo, imagine-se um símbolo no qual se destacam duas curvas. Facilmente conseguimos associar este símbolo a umas ondas. Será isto "água"? Mais tarde, um símbolo parecido, com as mesmas curvas, mas rodeado por riscos diferentes, que transmitem algo previamente associado a movimento. Água e movimento, será esta palavra "rio"?

O mais interessante é que, na maior parte das vezes, não há uma resposta certa ou errada. O mesmo símbolo, ao qual é atribuído certo significado, vai surgindo em diferentes contextos. Se continuar a fazer sentido, então é tomado como garantido e perde, na tradução, o seu "?". Passa a ser uma certeza. Mas nada impede de, mais tarde, se encontrar uma contradição, na qual aquele símbolo já não pode significar aquilo. O que significa, então? E qual o impacto disso no conhecimento que se pensava ter das frases anteriores?

É, sinceramente, fascinante!


O jogo em si está apoiado no sistema Ink, uma ferramenta desenvolvida pelo estúdio e também utilizada no anterior 80 Days, com a qual a narrativa se vai adaptando a todas as escolhas e decisões do jogador. Em Heaven's Vault, isso significa que as próprias traduções irão influenciar a história, tanto a nível de descobertas e novas explorações, como a nível das relações com as restantes personagens. Da mesma forma, quase todos os diálogos contam com duas ou três opções de resposta.

Honestamente, são poucos os momentos em que os jogadores irão sentir uma verdadeira "escolha", em decisões que facilmente se sentem como cruciais. Na verdade, porém, tudo o que é feito acaba por afetar toda a narrativa. Mais uma vez, não há certo ou errado, mas se uma resposta a meio de uma conversa pode levar um NPC a revelar algo inesperado, a mesma informação poderá (ou não) ser alcançada de maneiras totalmente diferentes. Apesar do começo aparentemente linear, rapidamente a história começa a divergir entre os vários jogadores de acordo com as suas ações e escolhas. Isto não quer dizer, porém, que haja um "true ending": há apenas o caminho do próprio jogador, seja ele qual for.

Precisamente por causa disso, não é de estranhar que o jogo apele tanto a voltar a jogar depois de se terminar. Ainda pra mais, ao escolher "New Game +", todas as traduções feitas anteriormente já são conhecidas pela protagonista, e por isso os desafios de tradução são trocados por frases mais complexas, cujos significados terão impactos ainda mais profundos na história. Não há, afinal, uma verdade absoluta acerca do passado, apenas a interpretação dada ao que foi registado.


Se há um grande problema a apontar em Heaven's Vault, este será em termos de ritmo e andamento. Na Nebula, cada planetoide consiste numa área que pode ser livremente explorada, estando estes interligados pelos rios celestes e as suas correntes. A viagem em si, porém, feita num barco que flutua na direção da corrente, não traz nada que seja particularmente interessante à experiência de jogo em si e facilmente seria substituída por uma sequência de história, por exemplo. Felizmente, após a primeira jornada de um ponto A para o B, futuras viagens no mesmo caminho já permitirão fazer "skip", com o robô companheiro a controlar o navio.

De qualquer modo, é um jogo calmo, feito para se jogar com calma. Visualmente, o jogo não é propriamente apelativo, com cenários 3D relativamente simples aos quais se sobrepõem as personagens em 2D. Ainda assim, consegue transmitir uma sensação de mistério, especialmente à medida que se vão encontrando objectos, mensagens e até mesmo cenários cada vez mais ancestrais e... futuristas?

Se por um lado todo o universo da Nebula é bastante diferente da nossa realidade, por outro é precisamente isso que abre as portas à imaginação. Estudar coisas do passado, aprofundar o conhecimento em torno de diferentes épocas e tentar compreender o que aconteceu... tudo com base numa língua cujo "verdadeiro" significado se perdeu.


Heaven's Vault não é, certamente, o título ideal para quem procura uma empolgante aventura recheada de acção. É, sim, um jogo extraordinário para quem queira desfrutar de uma experiência tranquila, com cerca de 15 a 20h de duração e possibilidade de repetição, recheadas de mistério e suposição.


Nota: Análise efectuada com base em código final do jogo para a Nintendo Switch, gentilmente cedido pela Inkle.

Heaven's Vault Heaven's Vault Reviewed by Telmo Couto on 09:00 Rating: 5

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