Pecaminosa


Os clássicos nunca saem de moda. Os videojogos com estética retro têm ganhado um número cada vez maior de seguidores, algo que leva as produtoras, principalmente as independentes, a depositarem todo o seu talento neste tipo de títulos que, muitas vezes, me fazem lembrar os jogos icónicos da Sega MegaDrive ou da Super Nintendo. É por isso que a Cereal Games, um estúdio situado em Portugal, decidiu inspirar-se em The Legend of Zelda: A Link to the Past para criar o seu próprio RPG - Pecaminosa (que joguei na Nintendo Switch). Mas, em vez da habitual fantasia heróica que geralmente associamos a estes títulos, a produtora deu um passo além, definindo esta aventura cronologicamente na década de 1940.

A narrativa de Pecaminosa é bem curiosa - jogamos com o ex-detetive John Souza que, depois de uma noite de bebida, é acordado por três figuras sinistras ao pé dele, que me fez lembrar a história “Um Conto de Natal” de Charles Dickens. Na verdade, estas três figuras são, nada mais, nada menos, do que o notório gangster Charlie Two Angels e o seu par de capangas. Felizmente, este é um fantasma que não está à procura de vingança, mas sim de uma maneira de chegar ao céu. Mas como pode ele fazer isso? Ajudando Souza. Dando-lhe pistas para encontrar o seu parceiro desaparecido. O que se segue é um conto cheio de intriga que não tem medo de abraçar alguns elementos peculiares ao longo do caminho e, durante todo o jogo, pude regozijar-me nas desgraças de Souza e nas piadas bem cliché que eram lançadas pelo meio.

 


Uma boa parte do jogo gira em torno da exploração dos diferentes ambientes enquanto procuramos por pistas. No entanto, como RPG de ação top-down, Pecaminosa é muito mais do que isso. O jogo oferece-te uma série de armas com as quais podes jogar mas, no início do jogo, terás de confiar nos teus punhos e envolveres-te em alguns momentos de combate corpo a corpo antes de pegares na tua pistola favorita. O combate corpo a corpo é, de uma forma geral, satisfatório - aprender quando investir para atacar o inimigo, quando retroceder e até mesmo quando usar a funcionalidade de bloqueio, de maneira a reduzir o dano causado requer algum treino mas acabamos por assimilar.

Podia, na minha sensata opinião, ter sido um pouco aprimorado, já que a velocidade de movimento lenta de Souza torna algumas batalhas um pouco trabalhosas. Não me interpretem mal: por vezes, é divertido alinhar disparos contra os inimigos e as armas funcionam bem, mas senti-me sempre um pouco vulnerável sempre que me aproximava de um inimigo, graças ao quão lento o movimento pode ser.

Por sua vez, subir de nível levou-me a pensar nos RPGs clássicos, com o jogador a ser capaz de melhorar detalhes como a stamina de Souza, mas também a sua inteligência, de maneira a dar-lhe uma maior  nuance ao conversar com NPCs. Nem todos os momentos do jogo têm de terminar num tiroteio, sendo que um Souza mais esperto será capaz de neutralizar uma situação sem que nenhum sangue tenha de ser salpicado nas paredes. 



Ainda assim, nada disto me impediu de desfrutar do jogo, enquanto as batalhas contra os bosses se destacaram como alguns confrontos variados e bem projetados, tornando-se dos melhores momentos do jogo. O jogo melhora consideravelmente quando atualizas as capacidades de Souza também, com a última metade do jogo a tornar-se mais agradável assim que comecei a refinar o seu conjunto de habilidades. Para além disso, existem certas mecânicas absolutamente hilariantes no jogo, como o whisky Mack Janiels que usamos recarregar a saúde de Souza (e que certamente não é baseado numa famosa marca!)

Tenho ainda de mencionar um dos detalhes que não decepcionou em Pecaminosa: a sua banda sonora. Repleta de melodias inspiradas no jazz totalmente viciantes, poucos foram os momentos em que não dei por mim a bater com o pé enquanto jogava o jogo. Na verdade, há algo que Pecaminosa faz melhor do que tudo o resto: criar uma atmosfera fenomenal através da música. O design de som, juntamente com os  gráficos vibrantes “pixel-noir”, foram mais do que suficientes para espicaçar a minha curiosidade, mesmo quando a jogabilidade podia não ser a mais divertida.

 


Foi difícil não ficar também impressionado com a apresentação do jogo - é ótimo explorar o mundo de Pecaminosa e conhecer o elenco excêntrico de NPCs, mesmo se tivermos em conta o facto do jogo conter os típicos locais que os jogadores esperariam encontrar numa cidade cheia de gangsters e negócios duvidosos. Apesar de não ser perfeito, o jogo tem claramente mais pontos positivos do que negativos e o facto de ser português é, sem dúvida, a cereja no topo do bolo. Ou, para fazer jus ao tema, o gelo dentro do whisky.

Nota: Análise efetuada com base em código final do jogo para a Nintendo Switch, gentilmente cedido pela Badland Publishing.

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