Wisdom of Solomon

Artigo por João Efigénia

Ainda antes de “Disciple Detective”, cuja review fizemos anteriormente, já a Funhill Games tinha lançado dois jogos de estratégia com uma temática bíblica. Um deles, “Wisdom of Solomon”, é o que vamos rever neste mesmo artigo.

“Wisdom of Solomon” é um jogo competitivo, com sistema de worker placement, inspirado no reinado do Rei Salomão, para 2 a 5 jogadores e uma duração entre 45 e 70 minutos. A temática bíblica está mais fortemente presente nas diferentes cartas sob forma de versículos da Bíblia, ilustrativos da ação da própria carta (semelhante aos bocadinhos de lore presentes nas cartas de Magic: The Gathering).

O tabuleiro representa a cidade de Jerusalém, com o seu mercado, templo, entre outros edifícios, e também todo o território de Israel (isto por volta de 950 a.C.), com as suas regiões devidamente identificadas. O jogo traz também diversos cubos de madeira, entre 6 cores diferentes, que representam recursos, 6 meeples de trabalhadores, 6 casas em madeira em diferentes cores para os 5 jogadores, e cartas de Edifícios e de Fortuna, sendo estas muitíssimo bem ilustradas! 


Como fã deste tipo de jogos, achei o jogo surpreendentemente simples de jogar, na sua complexidade. O jogo decorre em rondas, chamadas Anos, nas quais os jogadores colocam um dos seus trabalhadores numa das 6 áreas diferentes do tabuleiro, cada uma representando uma ação diferente, e com uma (diminuta) lotação máxima de trabalhadores. Quando todos os trabalhadores tiverem sido colocados no tabuleiro, o Ano “chega ao fim”: todos os trabalhadores são recolhidos, os mercados de recursos e edifícios repostos, cartas de Fortuna em vigor descartadas, e o novo ano começa! 


O objetivo do jogo é terminar com o maior número de pontos de Favor. Estes são adquiridos ao contruir Edifícios, ao utilizar algumas cartas de Fortuna e através de algumas ações disponíveis no tabuleiro. A dificuldade em adquirir pontos de Favor prende-se com o facto de serem também a moeda de compra de recursos. Ocasionalmente, há que sacrificar alguns pontos para conseguir comprar aquele último recurso necessário para contruir um determinado Edifício. No entanto, é um risco, pois entre o turno em que se compra e o turno em que se constrói, pode acontecer muita coisa!

Entre as diversas ações, os jogadores podem trocar recursos (um por dois diferentes), comprar recursos (cujo valor sobe à medida que escasseiam), construir um Edifício (pagando os recursos necessários), adquirir uma peça do Templo ou posicionar-se no Altar Sagrado. Para além disso, pode também colocar um trabalhador em qualquer uma das regiões de Israel (desde que não tenha apenas casas dos seus oponentes) e receber os recursos dessa mesma região.

Aqui, o jogo prende-se na necessidade de rentabilizar todas as ações, de forma a acumular o máximo de pontos possível. O jogo termina assim que um jogador contruir a sua última casa, ou a última peça de Templo for retirada do mesmo, ao fim de 4 ou 5 Anos o fim pode ocorrer a qualquer momento, em duas ou três jogadas bem arquitetadas. Mesmo assim, há um elemento surpresa no final do jogo que, nas sessões de teste para a review, representaram sempre o fator decisivo para determinar o vencedor: as peças de Templo.


Estas estão dispostas no tabuleiro, mais precisamente no Templo, viradas para baixo, ocultando um valor entre os 6 e os 10 pontos. Ao escolher uma peça, o jogador pode olhar para ela e deve mantê-la em segredo. Isto significa que um jogador que esteja alguns pontos à frente dos restantes durante toda a partida pode ficar para trás após a contabilização dos pontos no final do jogo. Esta mecânica de sorte, num jogo tão calculista, parece descabida. No entanto, e em contexto bíblico, o Favor de Deus funciona assim mesmo.

Outro pormenor interessante é o mapa de Israel. Ao construir Edifícios (disponíveis no Mercado de Edifícios e pagando o respetivo custo em recursos), os jogadores podem colocar casas nos espaços livres das várias regiões do reino. Tal ação serve para marcar a sua presença nessa região, e assim impossibilitar os outros jogadores de adquirir recursos desse local. Ao construir, ganham os pontos de Favor dessa carta de Edifício, mais um bónus consoante a posição da carta no Mercado. 

As cartas de Edifício trazem também ações que podem ser ativadas pelo jogador, assim como modificadores às ações: uma delas, por exemplo, tem uma habilidade passiva que atribui um recurso extra gratuito ao jogador sempre que ele fizer uma ação de Troca. Outra permite ao jogador ter um desconto de um recurso ao contruir um Edifício.

Adicionalmente, podem também colocar uma peça de estrada entre uma região e outra adjacente. Isto irá criar uma Rede de regiões que, assim que o jogador colocar um trabalhador numa região da Rede com uma casa sua, receberá todos os recursos de todas as regiões incluídas nessa rede. Esta vertente estratégica pode fazer a diferença entre simplesmente ativar regiões ou gastar Favor no Mercado de Recursos para obter os mesmos.

Por fim, o Altar Sagrado tem 4 espaços livres, cada um com um bónus diferente, e um senão: ao ativar esta área, o jogador deve sacrificar todos os trabalhadores que ainda não pôs em jogo. Ou seja, o seu Ano termina ali, mesmo que os outros jogadores ainda tenham trabalhadores. É uma ação que normalmente se reserva ao último turno de cada Ano, mas que é valiosa: pode optar por biscar 3 cartas de Fortuna novas, obter metade dos recursos de um jogador que tenha mais do que 7 dos mesmos, ganhar 8 pontos de Favor e 1 Recurso Exótico, e obter 1 recurso dos 5 tipos de recurso normais. Para além disso, o primeiro jogador a ocupar o Altar nesse ano é o primeiro jogador na ronda seguinte.

A acrescentar a todas estas mecânicas, que ao fim de 2 Anos já estão praticamente memorizadas, estão as cartas de Fortuna, que detêm vários poderes e modificadores, assim como ações imediatas. Umas são válidas até ao fim do jogo, outras até ao fim do Ano, e devem ser mantidas em segredo na mão. Podem ser jogadas apenas quando o jogador realizar a ação de Troca ou de Mercado de Recursos, o que adiciona ainda mais uma camada de estratégia e organização das nossas jogadas.

Como um todo, o jogo está bastante sólido. Sentimos algum desequilíbrio nas mecânicas no decorrer do jogo, pois os pontos ganham-se de várias maneiras, mas no final do jogo as pontuações são sempre surpreendentes. Algumas cartas de Fortuna são um pouco fortes demais em relação a outras, mas estas são válidas apenas em algumas mecânicas de lotação limitada.


No que toca à apresentação do jogo, o manual é competente, os componentes em madeira são um pouco
rústicos ao toque (não destoa, de todo, da temática do jogo), e as cartas são, a meu ver, o ponto forte de todo o design: as ilustrações das cartas de Edifícios são muito competentes, e as de Fortuna têm uma espécie de desenho monocromático avermelhado irresistível. Neste aspeto dou os parabéns aos artistas Tim Baron e Matthew Ebisch!

Acrescento por fim, que o jogo inclui um conjunto de peças e um saco de pano para o modo Solo. O jogador joga contra Jeroboão, o primeiro Rei do Reino de Israel Dividido, ou Israel Setentrional. Jeroboão faz as suas ações consoante as peças retiradas do saco, e tem o seu determinado conjunto de regras e estratégias. Pessoalmente, acho preferível jogos a Solo com este tipo de AI do que com objetivos simples de “tenta ter x pontos”. Assim, mesmo sozinho, cada partida é uma surpresa!

“Wisdom of Solomon” é, ao fim e ao cabo, um jogo Euro muito bom! Cumpre todos os requisitos para ser uma experiência agradável, principalmente para aquele jogador que gosta de estratégia, mas que não quer nada muito complicado. Como referido acima, ao fim de um ou dois Anos, as ações tornam-se naturais e já conseguimos planear dois ou três turnos com imensa facilidade. É, também, um jogo desafiante! Quantos mais jogadores, mais depressa os espaços de ações livres desaparecem, o que nos obriga a usar as ações dos nossos Edifícios ou a “desperdiçar” trabalhadores em ações menos favorecedoras. 

É um jogo a ter em mente, e que a DICE Cultural irá ter disponível na sua biblioteca quando regressarmos aos nossos eventos! Até lá!!

Wisdom of Solomon Wisdom of Solomon Reviewed by DICE Cultural on 10:00 Rating: 5

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