Pragmata (Nintendo Switch 2)


O ano de 2026 pode muito bem ser dos mais importantes que a Capcom tem há muito. Começaram com Resident Evil Requiem, celebrando os 30 anos de uma das mais icónicas séries de videojogos, senão a mais importante no género survival horror, e nos planos têm o regresso de Onimusha com Way of the Sword, série que há 20 anos que não tinha nenhum novo lançamento principal. O que nos traz hoje é mais uma aposta para este ano, uma novidade, e não é todos os dias que a Capcom decide trazer novas propriedades intelectuais ao mercado. E, se há empresa que estou sempre curioso com o que podem trazer de diferente (sejam novas séries, ou não), é esta.


Falamos de Pragmata, o novo jogo de ação que mistura uma boa dose de tiros com um minijogo constante para derrotar tudo o que é inimigo que nos barra o caminho, dos mais comuns aos enormes bosses, que colocam a nossa vida em perigo! Se há coisa que gosto de ver a Capcom fazer é quando aposta em novas séries, despregando-se das mais que conhecidas como Street Fighter ou até mesmo Mega Man, este que também tem um regesso marcado para o ano. E, sim, não foi assim há tanto tempo que nos trouxeram Kunitsu-Gami: Path of the Goddess, que também apostava em algo diferente… mas, esse foi um jogo que passou bem despercebido. O mesmo não se pode dizer com Pragmata, já que a Capcom parece estar bem focada em promover o jogo.

Este é um jogo sci-fi, que nos leva à Lua numa missão de ver o que se passa de errado, numa fase a humanidade descobriu o misterioso Lunafilament, uma matéria que permite replicar ou construir rapidamente qualquer coisa, logo que haja informações sobre o que queremos criar. Tudo se passa num futuro não muito distante, que numa missão nos leva aos eventos do jogo e, desde o início, somos deixados no escuro sobre o que se passa. Poucos minutos após a nossa chegada à Lua, o tempo suficiente para nos darem um tutorial de como jogar, algo corre mal e estamos por nossa conta, deixando o protagonista Hugh "às escuras" sobre o que aconteceu. Ele é resgatado por uma curiosa miúda, uma Pragmata (basicamente, um robô mega inteligente) de nome Diana, capaz de uns hacks giros em tudo o que é eletrónico ao seu redor, mas que pouco sabe, também, do que se passou na Lua.


O duo de Hugh e Diana têm assim uma extensa estação espacial sem quaisquer aparentes sinais de vida, o que criou a atmosfera perfeita para ficar logo agarrado ao jogo, isto aliado a não saber mesmo o que raio se passa mesmo umas boas horas após o início da aventura. Se há algo que me retira o prazer de tudo o que é ficção científica é quando dão uma sobreexposição a tudo que acontece, retirando-me qualquer prazer em ficar na dúvida do que é que se passa. Talvez, Pragmata deixa-nos é demasiado às escuras, sendo que vamos descobrindo alguma história que serve de dicas para o que se passa na Lua, através de práticos registos que estão espalhados pelos mapas. Na prática, estes registos nada mais são que os diários (ou coisas do género) que sempre tivemos em Resident Evil. Sabemos só que há hordas de inimigos robóticos para enfrentar, que nos querem tirar a vida seguindo as ordens de IDUS, uma inteligência artificial bem avançada, responsável por monitorizar a estação na Lua.

O que Pragmata faz (muito) bem é olhar para o historial de jogos que a Capcom trouxe e aprender com eles: temos o ambiente aterrador de Resident Evil, onde os zombies são trocados por robôs (alguns que se movem, também, lentamente), temos uma jogabilidade onde os nossos reflexos são a nossa melhor ajuda, algo bem habitual em Monster Hunter. Temos um design futurista dos inimigos aos cenários, estes que contam com enormes áreas para combater, como Devil May Cry me habituou ocasionalmente. Há uma casa ao tesouro por pequenos bonecos que nos dão recompensas, como os Resident Evil mais recentes nos trouxeram, temos até mesmo um sentimento onde tudo é mesmo um jogo, dos minijogos a uma boa porção de desbloqueáveis, algo que a Capcom gosta de colocar nos seus jogos.


Há uma boa dose de ação frenética no jogo, muitos ataques para desviar e contra-atacar, atingindo os inimigos nos seus pontos fracos (que brilham bem, quando acertamos), e à medida que avançamos no jogo ganhamos novas armas e habilidades, tanto para Hugh como para Diana, esta que vai também ajudando a navegar pelos labirínticos mapas que temos de percorrer. Aqui houve algo que me chateou, a exploração não é propriamente a melhor, e apesar de tudo ser bastante linear, houve vários momentos confusos em que não era claro como ir buscar determinados itens ou segredos, e aqui o mapa não ajudava de todo. Temos um certo toque de metroidvania, que nos convida a explorar zonas que já havíamos passado, mas como temos uma nova habilidade há algo de novo a descobrir, nem que sejam itens para melhorar o armamento de Hugh, tudo para que a exploração do mapa fique a 100%, que o jogo gosta bem de apresentar a percentagem das coisas que já obtivemos.

Se há algo que Pragmata não tem qualquer tema a afirmar é que se trata de um videojogo puramente divertido, com foco na ação e sem precisar de justificar muito das coisas que vão surgindo. Aqui entra a principal mecânica de hacking, onde se um dia me dissessem que iriam aliar aqueles minijogos onde vamos ligando tubos de água por uma grelha de quadrados, a um jogo cheio de ação, acharia isso uma ideia bem parva. Mas aqui estamos, e conseguiram demonstrar que não só é bem possível, como conseguimos ter um desafio que vai aumentando, com novas mecânicas introduzidas e habilidades nesse "minigame" que podemos tirar partido, para tornar os combates mais acessíveis. Para descansar do caos provocado em vários momentos, estamos recorrentemente a regressar à base principal, onde vamos desbloqueando uma boa dose de coisas e até mesmo subindo o nível da mesma, algo que é apresentado em letras grandes no meio do ecrã. Há missões VR com desafios para nos recompensar, há collectibles para oferecer a Diana, que lhe vão mostrando um pouco mais da Terra.


São muitas as coisas que vamos desbloqueando em poucas horas, mas de modo algum somos assoberbados por tutoriais que nos obrigam a quebrar o ritmo do jogo: aqui tudo é apresentado em ecrãs que nos explicam o que cada arma ou habilidade fazem, e está feito. Os controlos são simples, mas, Hugh é mesmo um brutamontes de controlar, com movimentos pesados e até mesmo toscos por vezes, sendo por vezes difícil conseguir saltar (ou flutuar) com ele para determinadas partes do mapa. E acreditem, o jogo exige muito de platforming em todas as áreas, algumas em pleno combate e senti mais dificuldades em controlar a personagem, ao mesmo tempo que lutava, do que todas as vezes que fazia hacking com Diana ao mesmo tempo que me desviava dos ataques inimigos. Ainda são alguns tipos de inimigos diferentes, todos eles com uma estratégia bem definida para derrotar facilmente, mas, na prática tudo se resume a "atingir o ponto que pisca", após um hack bem-sucedido.

Visualmente? A direção artística o jogo está mesmo muito bem conseguida, com robôs muito orgânicos, apesar do seu aspeto futurista, tal como os cenários ricos em detalhe que vamos explorando, com momentos belíssimos apesar de ser quase tudo em tons monocromáticos. E, aqui entra um ponto fundamental sobre o que escrevo: tudo foi testado na Nintendo Switch 2, sendo uma versão em muito excelente, embora não tanto ao nível que Resident Evil Requiem me habituou. O jogo não é fluído, apesar de não sofrer quedas abismais de fluidez, ele não conseguia ser estável, sendo que tavez preferisse que o jogo estivesse fixo nos 30 frames por segundo, em vez de estar com os frames desbloqueados, que ora tem zonas que atinge os possíveis 60 frames, ora descem a partir do momento que passamos para uma zona do mapa mais amplo.


Não teve o mesmo fator "uau" que Resident Evil Requiem teve, muito provavelmente por estarmos constantemente em zonas bem mais amplas que as desse título, mas, uma coisa é certa: tanto as personagens como os cenários estão ricos em detalhe, demonstrando uma boa atenção que a Capcom teve ao trazer este jogo para a consola a Nintendo, a par do lançamento para os restantes sistemas. Senti bem mais as questões de performance enquanto jogava em modo portátil, sendo uma experiência bem mais rica quando jogava na TV. Ainda assim, as personagens brilhavam com detalhe, em ambos os modos de jogar, e em ponto algum, a performance arruinou a minha experiência com o jogo, e sim: os cabelos continuam a ser o principal ponto onde sentimos onde há menos detalhe.

Pragmata é, também, uma aposta segura. A jogabilidade experimenta algo novo, mas em ponto algum tenta exagerar aumentando a dificuldade, sendo que até podia ser um pouco mais difícil do que é, já que tive encontros com certos inimigos que nem pareciam os bosses principais das respetivas zonas. Mesmo ao nível de história não tenta seguir caminhos confusos com complexos: a IA é má e a impressão 3D traz-nos problemas, mensagem partilhada logo na primeira hora do jogo. Por muito que seja um jogo sci-fi, a história é sobre a ligação de Hugh e Diana, como se fosse a aventura de uma pai e a sua filha, uma relação que funciona bastante bem em todo o jogo, apesar de contar com os típicos clichés que podem esperar deste tipo de relações.


Não esperem aqui uma história revolucionária, apesar de bem contada. Ausente de plot twists chocantes, de surpresas marcantes ou até mesmo uma boa dose de momentos que nos vão marcar para sempre, este é um jogo simples, com uma narrativa apropriada e que não nos vai deixar a pensar profundamente sobre o que vimos, ou experienciamos. Mesmo o modo como as coisas vão sendo contadas, através de registos, podem facilmente serem ignorados se não forem como eu, e gostem de carregar em tudo o que é prompt no ecrã a dizer que há ali uma interação. Apesar de um leque reduzido de personagens aventura fora, o foco está mesmo em Hugh, Diana e no constante sentimento de perigo causado por IDUS, que contrasta com a relação entre os dois protagonistas, e a sua química.

Foi esta química entre ambos, aliada ao completo isolamento que sentimos em toda a aventura do início ao fim, que me levou bem ao colo para avançar jogo fora. Isto e um constante sentimento de curiosidade com o que o jogo tinha por contar, muito além do que Hugh tinha para contar sobre o seu passado a Diana. Sendo ela uma Pragmata bem avançada, Diana agia sempre como uma curiosa criança, o que por vezes me irritou por estar sempre a alertar coisas óbvias, ou itens que não tinha mesmo como chegar lá no momento, apesar de estar à minha frente. Também ajudaram os pequenos toques à metroidvania, que me faziam querer voltar sempre a zonas já terminadas, para explorar tudo na totalidade, que por várias vezes faziam-me perder o foco em que tinha era de progredir na história!


Para uma companhia bem conhecida por apostar fortemente nas suas propriedades mais famosas, a Capcom conseguiu criar algo de muito bom com Pragmata, mesmo sendo um jogo que fique pela segurança de entregar uma aventura sólida, sem grandes riscos. Se este será o nascimento de uma nova série para a companhia, só a receção do público o dirá, apesar de termos aqui uma base sólida para o início de uma nova série, que tem como base um universo sci-fi e uma mistura curiosa entre a ação e um minijogo de ligar um circuito. É também jogo que vou voltar recorrentemente, há ali coisas que ainda não descobri, fatos para desbloquear para Hugh e Diana, e não vou descansar enquanto não ficar com tudo a 100%, conforme indicado nos menus do jogo!

Nota: Análise efetuada com base em código final do jogo para a Nintendo Switch 2, gentilmente cedido pela Ecoplay.

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