Hell is Us


Num mundo pós-apocalíptico devastado por uma guerra civil e atormentado por uma misteriosa calamidade que deu vida a criaturas perversas e invulneráveis a todas as armas modernas, Hell is Us apresenta a história de Remi, que regressa ao país de Hadea, pela primeira vez após ter sido contrabandeado para fora do mesmo quando era uma criança.

Inicialmente, Remi está apenas à procura da sua família, mas esta missão rapidamente se transforma em algo diferente, quando ele parte em busca das razões que levaram à calamidade que assola Hadea e descobre uma conspiração muito maior que ele próprio.


Hell is Us mostra desde o início que aceitou o facto de que nem todos os jogadores serão fãs. Uma das primeiras coisas que o jogo nos diz é que não existe qualquer tipo de mapa, bússola, pontos de referência ou indicação de como prosseguir para um determinado objetivo ou na história em geral. Pessoalmente, como alguém que gosta, até certo ponto, de ter estas ajudas, as minhas primeiras horas em Hell is Us foram desafiantes e frustrantes, até. Mas a pouco e pouco acabei por habituar-me e até apreciar o nível de dificuldade que estes handicaps introduzem. Isto não significa que de repente quero que todos os jogos adotem esta abordagem, mas foi algo que aprendi a apreciar em Hell is Us.

A partir de um certo ponto torna-se mais fácil apanhar pistas e detalhes relevantes que indicam o próximo passo na nossa investigação, mas ainda assim, parece quase obrigatório manter um registo escrito não só dos diferentes puzzles que vamos encontrando, como das várias personagens que conhecemos nesta viagem, personagens essas que terão, frequentemente, algum pedido para Remi, muitos dos quais só podem ser concluídos mais tarde na história de Hell is Us. Uma exploração que requer constantes notas ou uma memória de elefante pode parecer aborrecida, ou monótona, mas felizmente a quantidade de inimigos espalhados pelo mundo de Hadea faz com que o entretenimento nunca acabe.


O combate de Hell is Us é relativamente simples, o que não significa que não seja satisfatório. É um sistema de combate que conta com todas as características que seriam de esperar de um jogo como este: um arsenal sólido de armas e outras ferramentas (neste caso, um drone que luta ao lado de Remi), combos, parries e esquivas, habilidades especiais, entre outros. Tudo isto resulta num combate que, apesar de não trazer nada de novo ao mundo dos action-adventure RPGs, é suficiente para ser divertido e satisfatório e para carregar o jogo nos momentos em que a exploração pode parecer mais uma tarefa do que uma aventura. Um aspeto interessante deste combate é o sistema de regeneração de saúde: uma sequência de ataques abre uma oportunidade para recuperar alguma saúde, mas isso está dependente de pressionar um botão no momento certo. De início isto foi um desafio para mim, pois demorei a alinhar-me com o ritmo necessário, no entanto, como tudo, a prática é a solução e aos poucos este sistema deu-me liberdade para ser mais agressivo, sabendo que bastava acertar alguns ataques para poder recuperar a saúde perdida.

Algo que me apanhou de surpresa foi a quantidade de puzzles em Hell is Us. Muito ao estilo de God of War ou Resident Evil, são muitos os puzzles convenientemente espalhados por Hadea e, felizmente, não existe um pequeno Atreus a gritar as soluções ao fim de 2 minutos. Estes puzzles rapidamente se tornaram mais um capítulo nas notas escritas que me vi obrigado a tomar, necessitando muitas vezes de diferentes itens, alguns dos quais ainda não tinha descoberto ou não estariam sequer disponíveis até um momento posterior na história, para serem resolvidos. Mais uma vez, não há nada de revolucionário em relação a estes puzzles, a maioria segue o estilo a que estamos habituados nos jogos que mencionei acima, mas ainda assim são capazes de existir no ponto certo entre monotonamente simples e ligeiramente desafiantes, proporcionando o desafio inicial sem nunca serem um impedimento ao aproveitamento da história.


O único aspeto que os torna uma dor de cabeça é a dificuldade de perceber se de facto já temos todos os itens necessários para a sua resolução, se deixamos escapar algo que ficou para trás ou se é necessário progredirmos até outra área para encontrarmos a solução. Algo que seria pouco mais que uma pequena inconveniência noutro jogo, torna-se um problema maior num jogo com orgulho em não registar estes puzzles ou os itens necessários. Daí a necessidade das notas escritas, principalmente depois de uns dias sem jogar, algo pelo qual eu passei e que dificultou bastante o meu tempo com Hell is Us.

A parte mais interessante de Hell is Us é, sem dúvida, o seu mundo. Remi testemunha em primeira mão os horrores causados pela guerra civil em Hadea, entre Palomistas e Sabinianos, bem como pelas novas criaturas que assombram as suas ruas, invulneráveis a armas normais, resultando num mundo que, por muito sobrenatural e diferente do nosso que seja, é assustadoramente semelhante ao nosso. Temas como ódio, violência, brutalidade e tantos outros estão estampados por todo este mundo, que claramente encontra as suas raízes no nosso.


Podemos falar de tudo o que se passa em Hadea com a maioria dos NPCs mais relevantes e todos eles têm as suas próprias ideias sobre a guerra civil, Hadea, as forças militares e os dois lados da guerra. Seja uma criança escondida nos escombros da sua própria casa, um líder da comunidade violentado e exibido no meio da cidade como exemplo ou um soldado que é pouco mais que carne para canhão, todos têm uma perspetiva sobre estes assuntos. E ainda que a maioria destas conversas não seja necessária para progredir a narrativa (no máximo introduzem uma tarefa opcional), são cruciais para nos fazer entender este mundo e os seus habitantes, ainda que por vezes as semelhanças com o nosso mundo faça delas difíceis de digerir.


Hell is Us é um jogo bastante sólido, com um mundo e narrativa interessantes o suficiente para sugar os mais curiosos. E ainda que a soma de todos os seus componentes não acabe por resultar em algo verdadeiramente especial, Hell is Us toma riscos suficientes para fazer de si um jogo que vale a pena experimentar e que, certamente, terá a sua merecida legião de fãs.


Nota: Análise efetuada com base em código final para PlayStation 5, gentilmente cedido pela CD Media Portugal.


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