Crimson Desert
Inicialmente concebido como uma prequela de Black Desert Online, Crimson Desert acabou por evoluir ao longo do seu desenvolvimento para um título autónomo, com identidade própria, naquele espaço ambíguo entre promessa tecnológica e explosão criativa. Esta mudança refletiu uma ambição crescente, aparentemente imensurável, por parte do estúdio sul-coreano Pearl Abyss de criar uma nova propriedade intelectual, centrada numa experiência narrativa e num mundo aberto mais cinematográfico.
O jogo transporta os jogadores para Pywel, um continente cheio de fantasia medieval marcado por conflitos políticos, rivalidades entre fações e forças sobrenaturais. No centro desta amálgama narrativa está Kliff, líder de um grupo de mercenários que luta não apenas pela sobrevivência, mas também pela reconstrução da sua companhia. Esta premissa serve como ponto de partida para uma aventura que combina exploração, combate e uma série de atividades paralelas, desde a caça e a pesca até diferentes (muitos!) sistemas de progressão, numa tentativa de criar um mundo que pareça sempre vivo e dinâmico.
Sendo assim, a narrativa principal é apenas funcional, nada coesa e oferece-nos muito pouca ligação emocional com os eventos e personagens. Está pejada de maneirismos típicos de MMOs, onde as fetch quests e tarefas similares mascaram-se de narrativa e adicionam artificialmente tempo de jogo, nada mais do que isso. Isso cria uma alternância entre momentos épicos e enfado rotineiro que dilui uma narrativa que avança no espaço e no tempo, mas que pouco evolui além da sua tarefa principal: dar a mão ao jogador e passeá-lo pelo mapa gigante que tem à sua disposição.
Igualmente desenxabidas são as personagens; quer Kliff, quer a maior parte das personagens secundárias ou NPCs em geral têm personalidades muito monocromáticas, com poucas dimensões e ainda menos interesse. Cumprem com distinção a plenitude das suas funções e ficam por aí. É quase impossível nutrir sentimentos ou sensações por alguma personagem em específico, pois nada é dado ao jogador para existir reciprocidade.
Torna-se claro que o tempo dispensado em todas as outras rodas dentadas desta engrenagem chamada Crimson Desert foi muito maior. Este mecanismo narrativo ficou pouco oleado.
Crimson Desert apresenta-se como uma das propostas mais ambiciosas no género de mundo aberto de que me lembro até à data, mas aqui o que interessa ver é se o deslumbramento inicial se transforma ou não em algo mais concreto e substancial. Este mundo impressiona à primeira vista pela sua escala e variedade, pois existe um claro investimento na construção de biomas distintos que vão desde regiões montanhosas, passam por planícies e terminam nas zonas costeiras mais distantes, todas com uma identidade visual marcada, diferentes fações e costumes próprios.
Essa diversidade estética existe e não fica por aí, a exploração é a cola que junta toda uma panóplia de sistemas e mecânicas que foram implementados e espalhados pelo mapa como se fossem sementes atiradas ao acaso num terreno de cultivo. Para todo o lado para onde olhamos, a qualquer momento, existe algum ponto de interesse que nos desperta a curiosidade. A última vez que tive essa sensação (não tão levada ao exagero como aqui) foi em The Legend of Zelda: Breath of the Wild e isso é logo um bom sinal daquilo que podemos esperar de Crimson Desert. Existe sempre uma sensação de liberdade de escolha no que fazer do primeiro ao último minuto e isso é algo que é incentivado pelo estúdio.
Quando um sistema tão dinâmico como este exige tanta interação por parte do jogador, torna-se mais difícil garantir consistência na jogabilidade principalmente no que toca ao fazer o próprio dominar a jogabilidade. A juntar a todo um contar de história ambiental e orgânico temos várias mecânicas que temos de dar conta, muitas delas desde o primeiro momento em que pisamos as terras de Pywel; várias vertentes de combate com vários danos ambientais e um leque imenso de armas e armaduras para descobrir e conjugar, "skill trees", crafting, pesca, caça, animais de estimação, mini jogos sociais, corridas de cavalos, construção de base, sobrevivência, puzzles para resolver e muito, muito mais. Certo que lá para meio do jogo (e com muita hora de jogo em cima) tudo já acontece sem pensar, mas essa luta nas primeiras horas do jogo é real e isso enfraquece a experiência inicial.
Na verdade, o que interessa sempre é a qualidade do tempo que passamos com um jogo e neste caso a satisfação e o divertimento é algo que não se pode ignorar. Sempre que entro para mais uma sessão de Crimson Desert, seja ela de uma, duas ou de três horas, o tempo passa a voar e isso é um feito em si. O efeito de transportar o jogador para outro sítio mágico longe das agruras da vida real, fazê-lo sonhar e libertar a criatividade é uma das maiores conquistas deste jogo e é por isso mesmo que está a ser o sucesso que estamos a ver e quando é assim tudo se perdoa e aquilo que noutros jogos são objetos de fúria e descontentamento tornam-se pequenas irritações que facilmente se perdoam.
Gostava de escrever aqui que o tempo que tive com Crimson Desert foi imaculado a nível técnico, mas a verdade é que foi um pouco longe disso. Certo que ao nível de performance nunca tive problemas, o jogo correu com uma resolução de 1440p com gráficos em ultra e tudo ligado ao máximo e sem qualquer tipo de upscaler a dar uma média de 75-85 fps, sempre. O jogo está bem otimizado para um título AAA moderno e o motor gráfico proprietário (BlackSpace Engine) faz um uso eficiente de CPU/GPU... Não se pode dizer isso de muitos deles hoje em dia.
Verdade seja dita, a Pearl Abyss atalhou algum caminho para garantir essa fluidez num mundo aparentemente belo e detalhado. Embora a distância de renderização seja muito boa, os pop-ins são um verdadeiro terror para quem é sensível a esse problema (como é o meu caso), o ghosting também se faz notar com alguma frequência e o input lag, mesmo após atualizações, continua bastante evidente, prejudicando a jogabilidade em momentos que exigem maior precisão.
Mas a verdade é que nem sequer era a nível gráfico que o maior problema estava para acontecer. Existe um bug que nem é assim tão raro que corrompe o savegame e isso aconteceu-me já com o capítulo 4 bem encaminhado. É um problema grave que assola muito boa gente e que à data de lançamento desta analise ainda não foi solucionado a 100%.
Ou seja, Crimson Desert no PC apresenta uma base competente, mas a precisar de limar algumas arestas. O jogo tem problemas típicos de um lançamento bastante ambicioso que depende de patches contínuos para atingir estabilidade total e nisso a Pearl Abyss até tem sido bastante espevita.
Com uma história que não dá grande contexto, mas muitos pretextos para explorar, e um combate que demora a ganhar fluidez, mas que é quase sempre divertido, Crimson Desert assume-se como uma nova “caixa de areia” onde os jogadores vão querer brincar. Faz até com que a expressão “o mundo é a tua ostra”, de Shakespeare, encontre aqui uma nova interpretação em forma de videojogo. Não atingindo ainda o nível de detalhe de jogos como Red Dead Redemption 2, este mundo aberto oferece muitas e boas razões para ser explorado e é genuinamente prazeroso fazê-lo por auto-recriação, mesmo ignorando as indicações da narrativa.
Pena que esteja pejado de vícios dos MMO's, repleto de fetch quests simplórias que revelam pouca ambição e só servem para encher chouriços numa narrativa que claramente é o elo mais fraco no meio disto tudo e serve apenas de linha orientadora na travessia de um continente gigantesco, que, problemas com "savegames" à parte, está bastante otimizado e é amigo dos PCs mais modestos.
Crimson Desert é, no fundo, aquele prato de sobremesa que construímos num casamento; juntamos tudo o que mais gostamos, mesmo sabendo que não combina e no fim pode dar dor de barriga. É delicioso, é indulgente, mas faz pouco sentido.
No fim de contas, o que interessa saber é se diverte apesar dos seus contratempos, feitios e manias. A resposta é simples: SIM!










