Tomodachi Life: Living the Dream


Se há jogo que afirmei a pés juntos dizer que "nunca na vida sai no ocidente", foi Tomodachi Life em 2014. Um jogo bizarro, que por todos os poros grita cultura japonesa, mais particularmente o estilo de coisas que podemos ver nos anúncios que passam no Japão, que já agora recomendo darem uma espreitadela, porque nunca sabem o que vai acontecer. Estava errado, o jogo lá saiu na Nintendo 3DS e, na altura, ainda foi bastante falado e bem recebido, por muito que não fosse o próximo Animal Crossing, nem era suposto.


Passou-se mais de uma década, fomos vendo coisas daquele universo, ou de algum modo relacionados com ele como Miitopia, ou tentativas falhadas como Miitomo, que tão rapidamente foi lançado como apagado da sua existência. Mas não foi tudo esquecido, de todo, aparecendo agora Tomodachi Life: Living the Dream que continua todo o bizarro legado do original, num jogo totalmente novo em muito familiar, com o simples propósito de habitar um espaço com os nossos Mii e acompanhar tudo o que são situações peculiares e… viciantes?

Somos introduzidos a um mundo vazio, uma pequena ilha completamente desabitada sem um único traço de civilização. Aqui somos convidados a criar a nossa primeira personagem, um Mii que abre as hostes do que será o bizarro pequeno mundo que aqui vamos presenciar. Mii criado, com todo um sistema de personalidade associado e uma casa que, magicamente, aparece do nada. Surge também o momento em que nos apresentamos, que podemos ser tratados como quisermos, ou seguir apenas as sugestões que nos são dadas, todas elas que têm algo em comum: todo o jogo reconhece a nossa existência, e trata-nos como se fossemos um Deus, uma figura omnipresente e capaz de tudo, até criar vida (ou seja, mais personagens Mii).


Toda a nossa representação é feita através de um par de mãos que interagem com o mundo, mãos essas  simples imagens estáticas que encaixam na perfeição no jogo, até porque todo ele vive destas imagens: das nossas mãos às estáticas imagens de fundo como simples fotografias, aos imensos itens que damos aos Mii que vão da comida a brinquedos, a pequenos objetos que lhes podemos oferecer para ganharem hobbies ou diversas atividades. É algo que encaixa na perfeição no jogo, é estranho, mas um estranho que funciona, como se fosse algo para não levar a sério. E "não levar a sério" é mesmo uma mensagem que o jogo tenta transmitir, é suposto abraçar o bizarro ou a loucura das coisas que vão surgindo no jogo, interagindo com ele como se fossemos meros observadores, com o poder de tornar a vida das personagens em algo melhor.

Mas, voltemos à ilha: no início temos apenas uma personagem, ao que rapidamente se queixa que se sente extremamente só e aqui criamos uma segunda personagem, e depois outra, respondendo aos pedidos que nos surgem nos primeiros momentos do jogo, até que ele nos dá liberdade para tomar total controlo sem nos ser indicado o que temos ou podemos fazer. Com algumas horas, a nossa pequena, desolada ilha vai aumentando, vai tendo cada vez mais habitantes e edifícios como lojas, restaurantes, locais de diversão ou lazer, transformando a nossa ilha numa verdadeira metrópole onde podemos fazer "tudo" o que quisermos. Digo tudo, mas há limites, sejam eles limitados pela nossa progressão, sejam porque também não podemos logo partir para o exagero nas primeiras horas, ou simplesmente pela construção em grelha que, embora podemos ser muito criativos, não conseguimos fugir muito aos limites da grelha de construção, que nos permite colocar simples casas, sejam elas para um ou para vários Mii em conjunto. Ainda assim temos bastante espaço para puxar pela nossa criatividade, deixando-me curioso por ver o que muitos vão criar com este jogo.


Surge aqui um pequeno grande pormenor, que diferencia Tomodachi Life de outros jogos assim tranquilos como Animal Crossing, ou recentemente Pokémon Pokopia: não há uma gestão por tempo, se desbloqueamos um restaurante, ou um edifício para nos dar as notícias, eles simplesmente aparecem do nada (após escolhermos onde os queremos construir), sem qualquer tempo de espera. É tudo, ou quase tudo instantâneo, se um Mii nos pede algo, em meros segundos o tem, se alguém está apaixonado e pretende criar uma relação, após meros dias após se conhecerem, é possível! Não há um compasso de espera, é mesmo como se estivéssemos a ver um aquário onde tudo acontece mesmo sem o nosso input, se bem que a experiência que tive com o jogo aproxima-se mais de como se estivesse a fazer zapping na TV e coisas aleatórias acontecem consecutivamente.

E, esta aleatoriedade é algo que o jogo faz tão bem, o que não surpreende, pois era exatamente o que acontecia com Tomodachi Life na Nintendo 3DS. Das atividades que os Mii vão tendo em plena ilha, às bizarras interações que ignoram por completo a lógica ou tudo o que é real, os muitos sonhos bizarros onde podemos espreitar o que se passa na cabeça dos nossos habitantes, aos minijogos que vão surgindo como adivinhar silhuetas, reconhecer figuras estranhas ou simplesmente aliviar a cabeça dos Mii, "clicando" nas imagens estáticas que estão por lá. Todas estas atividades dão recompensas, que depois podemos oferecer aos nossos Mii, subindo-lhes o nível para desbloquear ainda mais coisas.


Tal como eles, a nossa ilha tem um nível associado, que vai subindo através da felicidade e bem estar das personagens, onde a cada level up desbloqueamos algo novo, roupas ou decorações para os interiores das casas, pequenos maneirismos que depois podemos dar às personagens (quando elas sobem de nível), para definir como elas comem, andam ou simplesmente ficam em pé. Há um sentimento constante de progressão com coisas constantemente a desbloquear, transformando este Tomodachi Life num jogo mais "a sério" quando comparado com o primeiro! Praticamente todos os dias fui visitando o jogo, nem que fosse apenas para ver a nova comida e aumentar o catálogo de itens disponíveis para compra, de modo a ver as mais variadas reações dos Mii, e todas vezes perdia-me a ver o que as (então) dezenas de personagens estavam para ali a fazer, assistindo às suas vidas a progredirem mesmo quando eu não tinha qualquer opinião. Quanto a opiniões, os Mii têm sempre algo a dizer, mesmo face a novidades que acontecem, ou até mesmo coisas aleatórias, as notícias (constantes) que acontecem no jogo entrevistam tudo e todos regularmente, com mini entrevistas, geralmente, com uma boa dose de humor.

Há também um muito maior sentimento de liberdade neste Tomodachi Life, que começa logo quando criamos os Mii e definimos mesmo tudo, do seu género à sua orientação, dos traços de personalidade à sua voz onde conseguimos diferentes vozes, apesar do efeito "robótico" sempre presente. Temos também total liberdade e uma ausência de filtros no que os Mii podem falar, que nos leva a não conseguir partilhar facilmente as fotos que vamos retirando do jogo (mas há sempre métodos de as colocar online), onde as personagens podem usar palavras menos próprias, levando a caricatas conversas e um espalhar da palavra que atingia dimensões que eu não estava nada à espera. E, tal como os nomes, podemos mudar a entoação das palavras que vamos ensinando para dizerem o nosso nome tal como é suposto. Tudo, ou quase tudo fica à nossa mercê, até mesmo a comida, roupa ou o aspeto das casas, que podemos desenhar como bem nos apetecer. Também as caras dos Mii podem ser desenhadas, embora senti que o Miitopia na Nintendo Switch tinha um melhor criador, que este, apesar de Tomodachi Life ter umas customizações muito boas, como uma melhor personalização do cabelo das personagens, por exemplo.


Mas, apesar da (mesmo) muita liberdade existente no jogo para fazer o que nos der na real gana, que resulta em todo um conjunto de coisas que vão alimentando a identidade do nosso jogo e das diferentes personalidades dos nossos Mii, muitas foram as vezes que sentia que o jogo se repetia demasiado. As conversas que surgem quando duas personagens se conhecem, embora podemos colocar lá a palavra que quisermos, o rumo da conversa segue frases em muito parecidas, se não a mesma, mudando o significado devido à palavra que havíamos escolhido para a interação. O mesmo acontece em várias situações, em que via as mesmas cenas acontecerem com diferentes personagens, embora aqui houvesse uma maior diversidade de eventos, e não sentia aqui ser tão repetitivo. Num jogo que vive das interações entre personagens, como se fosse uma telenovela onde tudo pode acontecer, é pena que tenha visto tantas coisas repetidas, onde o mais engraçado era quando palavras ou expressões passadas, que já não via há muito, ressurgiam no meio de conversas e davam novos significados... peculiares, a palavras que estava a ensinar.

Sei também que ainda não atingi o potencial para a minha ilha, a minha vontade é reformular por completo a sua organização, construir do zero, por assim dizer, agora que já conheço tudo, ou praticamente tudo que podemos ter disponível. Há mesmo liberdade para tal, criei ruas completas tal como avenidas, complexos junto à praia habitados por personagens que se odeiam, apesar de tentar várias vezes que fizessem as pazes, e faziam, até à mínima coisa os chatear. Não há um exagero de edifícios diferentes, além das habituações que são umas boas dezenas, mas todos os locais tinham utilidade, deixando os meus Mii felizes por irem andar numa roda gigante, ou por organizarem jantares no restaurante junto à praça principal, que havia colocado. Por várias vezes os Mii diziam como querer melhorar a ilha, do adicionar bancos do jardim a colocar a postes de iluminação, dos mais variados canteiros a outros objetos, que estavam sempre a dizer "gostava de ter isto aqui", só porque sim. Lá fazia-lhes a vontade toda, contribuindo para a sua felicidade.


Em muito semelhante ao primeiro Tomodachi Life, tal como Animal Crossing e, por extensão, Pokémon Pokopia, é um jogo para ir acompanhando sem pensar num fim à vista, sem pensar no cumprir de objetivos, pois ia naturalmente subindo o nível dos Mii e da ilha simplesmente ao jogar. Apesar do propósito principal ser seguir e dar uma vida de sonho aos habitantes, não há propriamente uma consequência grave se ignorarmos alguém, até porque nem conseguimos: temos sempre alertas dos Mii que precisam da nossa atenção, e uma prática lista de todos eles sempre disponível, onde quer que estejamos. Também é muito prático responder aos seus pedidos, se porventura pedirem um item específico, rapidamente abrimos o menu da loja relativa e voltamos à conversa com ele. O jogo é muito simpático no modo como navegamos entre sítios, entre Miis, tornando toda a experiência mais rápida. Também comparando com o jogo na Nintendo 3DS, aqui temos muita mais liberdade, a ilha é a nossa ostra, e não estamos limitados a um complexo habitacional único onde os Mii iam habitando cada apartamento com as suas vidas, quer isoladas, quer em conjunto com o amor das suas vidas, e o fruto dessa relação. E, sim, peca pela ausência de português no jogo, embora saiba perfeitamente que o jogo foi pensado tanto para o inglês como o japonês.

Ainda assim, o que podia tornar a experiência com o jogo seria algo bem simples: estar devidamente preparado para a Nintendo Switch 2. Sim, há um "boost" relativo que usa uma melhor resolução quando jogado em modo portátil, que acabou por ser o meu modo de jogar preferido, até porque o ecrã tátil dá imenso jeito! Mas, embora não afete o jogo em si, estar na nova consola da Nintendo a jogar algo acabadinho de sair, mas a 30 frames por segundo, e atendendo que o jogo não é propriamente a coisa mais detalhada do mundo, é estranho. O pior é mesmo o jogo nem sequer suportar o modo de rato, e já que estamos constantemente a pegar em coisas no jogo era um sistema mais que obrigatório. Já tivemos uns quantos jogos lançados para ambas as consolas, que tiravam partido das funcionalidades da Nintendo Switch 2, e este ser um título não incluído nisso é uma oportunidade perdida. Quem sabe se não teremos uma "Nintendo Switch 2 Edition" no futuro com ainda mais coisas, mas tal pecava pela tardia.


Apesar disto, a minha experiência ao longo de vários dias com o jogo foi extremamente positiva! Quando lançava as minhas primeiras impressões do jogo há umas semanas, tinha apenas tocado na superfície daquilo que era o bizarro, e viciante, mundo de Tomodachi Life, onde as estranhas interações entre Mii rapidamente viralizaram mal saiu a versão de demonstração, que podem já experimentar em preparação para o lançamento do jogo em si. E o jogo é mesmo isto, um conjunto de interações entre personagens, momentos dignos de telenovelas que mudam abruptamente ao trocar de Mii que estamos a ver, ou a interagir com, ao nível daquilo que costumamos encontrar em anúncios japoneses. É tudo aleatório, mas controlado, e todo o jogo tem um toque muito próprio.


Tomodachi Life: Living the Dream não é um novo life simulator, não é um novo Animal Crossing ou Pokémon Pokopia, como apontei algumas vezes, embora seja um jogo em que acompanhamos diariamente (ou quase) a vida de um bom leque de personagens. É um jogo diferente, com um propósito bem distinto dos outros dois, em que não temos de esperar pelo dia seguinte para acontecer alguma coisa, e os eventos ocorrem uns atrás dos outros, com muito foco em interagir com os Mii, da comida que lhes damos à roupa que podem vestir, aos maneirismos que vão aprendendo. Acima de tudo é viciante, nem que seja para alimentar a minha curiosidade por ver o que ia surgir no momento a seguir, ou ver até que ponto certas palavras pegavam entre personagens, sem o meu input.

Nota: Análise efetuada com base em código final do jogo para a Nintendo Switch, gentilmente cedido pela Nintendo.

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