Death Stranding


No mundo dos videojogos, não há quem não conheça Hideo Kojima, tenha ou não jogado algum dos seus títulos da saga Metal Gear. Sempre gostou de marcar uma posição no seu trabalho, fazer algo diferente dos restantes, e depois de uma infeliz separação da Konami, em 2005 veio a fundação do seu próprio estúdio, Kojima Productions.

Após um longo período de expectativa e curiosidade sobre como seria o primeiro jogo da nova empresa, eis que nos chega Death Stranding.


A grande questão que se coloca desde que este título foi pela primeira vez anunciado é simples. Afinal, de que se trata Death Stranding? Trailers não explicam, vídeos de jogabilidade ainda menos e começar o jogo... também não. A razão disto é, também ela, simples. Mais do que uma história, do que uma aventura ou alguma mecânica de jogo, esta é uma experiência maior do que a soma das suas partes e com múltiplas camadas disponíveis para a interpretação de quem joga. Afinal, o mais importante é a ligação do jogador.

Tudo começa com o protagonista Sam, interpretado por Norman Reedus, um homem de entregas habituado a transportar cargas de todos os tipos, de um lado para o outro. O mundo em que vive não é aquele que conhecemos. Depois de uma tragédia global, agora a chuva tem um misterioso efeito de fazer envelhecer aquilo com que tem o seu primeiro contacto. Pior, entidades que não são deste mundo atacarão qualquer pessoa que consigam apanhar, levando-os para o mundo dos mortos. Num mundo assim, os sobreviventes vivem em cidades subterrâneas, deixando a superfície nas mãos dos mais corajosos.

A falta de recursos é um problema, o que cria uma grande dependência de serviços de transporte, como é o caso de Sam. Uma pessoa isolada, sem ligações, acaba por não ter certos medos ou inseguranças, estando mais apta para o tipo de riscos que uma profissão destas pode apresentar. Um risco a que o jogador será rapidamente introduzido, levando-o assim ao tema principal deste título.


A América, mais propriamente Estados Unidos da América, é o "mundo" deste videojogo ao bom estilo de muitos clássicos filmes de Hollywood. Com a tragédia da Death Stranding ("Maré da Morte" em Português), deixou de existir um país, ficando os sobreviventes separados de povoação em povoação. Mas há uma nova esperança. A "rede quiral" é uma nova tecnologia de telecomunicação, que usa as portas abertas pelo mundo dos mortos, criando uma profunda ligação entre as cidades que a ela estejam ligadas. "Make America Whole Again", o mote para que todos se queiram conectar.

Muito se pode dizer sobre isto, e não é nem metade de toda a informação apresentada só na primeira hora de jogo. Fala-se num problema que afecta todo o planeta, toda a humanidade, mas o que importa a estas personagens do que se passa para além dos EUA? Death Stranding está longe de ser um jogo principalmente político, mesmo que envolva política no seu enredo, mas a sua mensagem está presente para quem a quiser encontrar.

À medida que se avança na história, as personagens divagarão por todo o tipo de temas, desde a metafísica até à "ciência" em torno de todos os fenómenos do mundo deste jogo, mas em muitos deles se encontrarão metáforas para a nossa realidade. Num mundo em que as pessoas estão cada vez mais ligadas à tecnologia, mas mais separadas entre si, aqui está Hideo Kojima para nos relembrar que o que conta nesta vida são as reais ligações entre todas as pessoas.


Não há muito que se possa falar do enredo sem, com isso, arruinar eventuais surpresas do desenvolvimento das personagens. Fica a garantia que, no final, as principais perguntas que o jogo levanta terão ficado respondidas, especialmente no que toca a todas as personagens principais, para as quais foi também escolhido um elenco de luxo.

Hideo Kojima não esconde a sua paixão pelo cinema, e por isso mesmo conta com uma fantástica seleção de atores que, mais do que a voz e a cara, dão uma excelente interpretação. Tal como seria de esperar, o ponto forte vai para Mads Mikkelsen, com uma personagem criada à altura do ator. Uma coisa é certa, cada personagem, cada momento de história irá prender a atenção do jogador como se fosse um episódio de uma série que se está a ver... e a jogar.

Mas sendo este um videojogo, tão importante como uma boa história é a experiência de jogo em si. Death Stranding está dividido em Episódios, mas não se espere uma estrutura convencional, pois a sua duração pode variar entre coisas como 20 minutos e as dezenas de horas de jogo, conforme o ponto em que se estiver. Para quem tiver apenas "pressa" de ver como acabará a história, deverá contar com cerca de 45 horas ao todo, mas há aqui conteúdo para muito, muito mais.


Death Stranding pode não ser só uma coisa, mas é maioritariamente um jogo de exploração para se fazer um serviço de entregas. De cidade a cidade, explorar o ambiente, subir montanhas e apreciar as fantásticas paisagens, será este o principal conteúdo do jogo. Se a região oriental da América, onde tudo começa, parece uma imensa área de exploração, na realidade não é nada em comparação com a região central, na qual se passará a maior parte deste jogo.

Incontáveis horas de exploração estarão aqui disponíveis, muito mais do que a história principal poderá deixar entender. Mais do que ligar todas as cidades e acampamentos, está-se a ligar as pessoas e, com elas, toda uma série de pedidos. Quanto mais se reforça essa ligação, melhores serão as recompensas, tanto a nível de equipamento útil como em termos de personalização do protagonista.

Mas não se pense que explorar será fácil. Há uma profunda solidão em cada nova região que se encontra, por vezes com terrenos agrestes e difíceis condições, que exigirão assim o investimento em bom equipamento e ferramentas como escadas e cordas para ajudar a avançar. Irá facilitar com a utilização de viaturas, mas para isso será necessário obtê-las, recolhendo materiais para construir em locais conectados. A ligação à rede quiral fará toda a diferença, não só juntando a cidade ou acampamento, mas também juntando os outros jogadores.


Não sendo um jogo "multiplayer", há toda uma ligação entre os jogadores que envolve diretamente o mundo em que se está a jogar. Criar um posto de correio, por exemplo, dará jeito para armazenar coisas secundárias que se tem para entregar, mas simplesmente não ficam a caminho de onde se pretende ir. E se a caixa dará jeito a um jogador, porque não há-de dar a outros também?

Da mesma forma, é possível confiar carga a terceiros. O posto de correio irá surgir no mundo de outros jogadores, que poderão aceder ao cacifo partilhado e encontrar algo que, por acaso, lhes fica em caminho. O mesmo acontece com cargas que fiquem perdidas no mundo devido a um acidente ou qualquer outra razão. Algures no mundo, alguém poderá passar por esse local e ajudar a encomenda a chegar ao seu destino. Passe pelo número de jogadores que tenha de passar até lá chegar, todos serão recompensados.

Isto aplica-se a todas, todas as criações. Desde deixar uma escada num local de passagem, a criar um gerador de eletricidade para carregar as baterias, ou um posto de abrigo da chuva (não esquecer que ela faz envelhecer)... se é útil para um jogador, também será para outros. Não há, porém, o risco de ficar com o mundo "entupido" de criações dos outros jogadores. Uma criação não vai surgir em todos os jogos, apenas alguns, mas o resultado é simplesmente fantástico. São incontáveis as vezes em que algo feito por outros se revela mesmo muito útil. "Like" atrás de "like", a reação enviada aos jogadores cujas construções deram jeito, a mesma recebida quando usam algo feito por nós. Todos estão ligados.


Se o grosso do conteúdo está em explorar e fazer entregas de um lado para o outro, melhorar a ligação entre as pessoas e, com isso, o mundo em seu redor, há também toda uma vertente de combate a ter em conta. As mulas, por exemplo, são grupos de pessoas obcecadas em roubar encomendas. Muitas vezes, será necessário atravessar os seus acampamentos, o que tanto pode ser feito de forma subtil para não se ser detectado, como de força bruta à porrada com todos eles. Tirando algumas missões concretas da história, caberá ao jogador decidir a abordagem com que os pretende atravessar, ou se prefere simplesmente fazer um grande desvio no caminho para os evitar.

Já as criaturas do outro mundo, as criaturas da praia, serão algo bem mais complexo. Voltando à mitologia deste mundo, a praia é uma espécie de mundo intermédio, algo entre a vida e a morte. A chuva do tempo torna essas barreiras instáveis, permitindo que as criaturas surjam no mundo dos vivos e arrastem consigo tudo o que encontram. É também aqui que entra a importância de BB, aquele estranho bebé que Sam leva sempre consigo, pois caso seja arrastado para a praia, poderá através dele voltar ao mundo dos vivos, em vez de haver um "game over". O regresso, porém, deixará uma cratera nesse local.

Mais uma vez, na maior parte do jogo, as criaturas da praia serão evitáveis, mas encontrando-as o desafio está em fugir sem ser arrastado para o alcatrão. Outros encontros, especialmente nos que são "impostos", já exigem algum foco no combate, que no modo de dificuldade "normal" é relativamente acessível. Ainda assim, o jogo deixa ajustar livremente a dificuldade, quer seja para a reduzir, como para a aumentar e assim fazer deste um jogo mais intenso na vertente de ação.


Jogo de exploração, de aventura, de ação, sequências de história de longa duração... e mais. Com uma mudança de episódio ao avançar no jogo, tudo pode mudar, até mesmo o estilo de jogabilidade. A experiência central, aquilo que preenche a quase totalidade do tempo de jogo, engloba tudo o que aqui já foi referido... mas há mais. Death Stranding não se prende a um género de jogo ou dois. É um título capaz de mudar radicalmente a sua experiência para marcar um momento, um acontecimento, surpreendente e envolvente até ao fim.

Afinal, é um jogo de Hideo Kojima. Mais do que a própria história, com múltiplas camadas de interpretação, e mais do que a jogabilidade e as várias experiências de jogo dentro do jogo, é a forma como tudo se liga que faz dele mais do que a soma das suas partes.

Quer isso dizer que é perfeito? Longe disso. Não há um fluxo regular entre narrativa e exploração, com momentos das missões principais a fazer claramente uma extensão da longevidade com o tipo de conteúdos que habitualmente estão nas missões secundárias. A gigantesca montanha coberta de neve será claramente um teste à paciência, ou simplesmente ao gosto do jogador. Passar horas a caminhar e ver as fantásticas vistas do jogo, com belíssimas músicas a aparecer ocasionalmente durante a exploração, irá apaixonar tantos, quanto os que poderão detestar.


Um ponto bastante controverso será toda a inclusão de referências ao mundo real, claramente publicitárias. No mundo de Death Stranding, apesar de toda a catástrofe, a bebida Monster é claramente líder de mercado, algo que o protagonista não passa sem beber. Pessoas que gostam de "action figures"? Só da marca Nendoroid. E naquilo que é uma homenagem ao ator Norman Reedus, que representa o protagonista, a América foi destruída mas ainda pode ver a série RIDE no canal da AMC. Até mesmo quando entra uma bela música a meio do jogo, não fica esquecida a "cortesia" da empresa que cedeu o tema. Para algumas empresas do mundo real, esta "maré da morte" não foi assim tão má. Algo que, certamente, também irá dar que pensar.

Inquestionável, porém, será a beleza do grafismo deste título. Testado numa PlayStation 4 Pro, o jogo bem que deixa a consola a "bufar", mas como resultado oferece uma experiência realmente impressionante. As paisagens são de cortar a respiração, desde as cores aos efeitos de luz e do tempo, as personagens bastante expressivas... não há um único defeito a apontar.

O mesmo pode ser dito da banda sonora, com uma excelente seleção de temas para ocasionalmente acompanhar a exploração, principalmente composta por músicas da banda Low Roar mas não só. Além disso, todos os temas compostos para o jogo, acompanhando as cutscenes e certos momentos de ação, têm sempre a tonalidade perfeita para o que está a acontecer.

O jogo conta ainda com a opção de ser jogado com áudio em Português, substituindo o trabalho de todos os actores do jogo com vozes dobradas para quem não gostar de ler as legendas, mas tal como no cinema, nada como ouvir o trabalho original.


Muito mais haveria para dizer acerca deste jogo, assim como depois do lançamento não faltará discussão em torno de todos os temas abordados ao longo da história. Honestamente, para quem ainda esteja curioso, fica o conselho de que não vejam mais trailers e se deixem simplesmente ligar a este misterioso novo mundo.

Com a assinatura de Hideo Kojima, Death Stranding é uma experiência artística que vai para além dos géneros e estilos de videojogos, criando o seu próprio espaço e as suas próprias ligações. Certamente, não será para todos, mas que tipo de obra de arte disruptiva o poderia ser?


Nota: Esta análise foi efetuada com base em código final do jogo testado numa PlayStation 4 Pro, gentilmente cedido pela SIEE.

Death Stranding Death Stranding Reviewed by Telmo Couto on 01 novembro Rating: 5

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