Fe


Fé. Palavra misteriosa, esta, que independentemente de crenças e religiões está presente em cada um de nós. Fe, o título deste jogo, é uma palavra sueca que significa "fada". Mas talvez por coincidência ou pura poesia, este é também um jogo de fé.

O jogo começa praticamente sem nos dar um contexto. Vemos uma pacífica floresta ser subitamente invadida por estranhas criaturas e, logo de seguida, somos colocados na pele de Fe, uma jovem e indefesa espécie de raposa. Resta-nos, então, explorar. Rapidamente encontramos uma outra criatura da floresta, mas esta avança, como quem nos quer indicar um caminho. Pela floresta adentro, o uivar da personagem revela-se uma poderosa forma de comunicação, tanto para solicitar ajuda de outras criaturas como para interagir com diversos elementos. Uivar em uníssono. Empatia.

A relação com a floresta é o elemento central deste jogo, um mundo que se expande à medida que entramos em sintonia com outras criaturas e adquirimos novas habilidades para aceder a novos locais. Nem todas as criaturas são amigáveis e nos querem ensinar a sua canção. À medida que vamos ajudando a repor o equilíbrio da floresta, vamos também adquirindo uma maior compreensão da história e funcionamento deste mundo. Num jogo quase totalmente desprovido de palavras, seremos nós a construir a nossa interpretação daquilo que nos rodeia.


Fe não é um jogo perfeito. Podemos encará-lo como um jogo de plataformas 3D em mundo aberto, mas é precisamente nas plataformas que encontramos os maiores problemas com a jogabilidade. Acontece principalmente em locais elevados, após uma longa sequência de saltos, ao mais pequeno erro cair ao chão e ter de recomeçar. Poderá ser frustrante em certas ocasiões, pois o objetivo deste jogo está longe de ser um teste de destreza, mas é também nessas ocasiões que entendemos o quanto ele nos terá cativado. Está longe de arruinar a experiência, há que dizê-lo.

Outra "falha", bem menor, é que não conseguiram desenvolver o jogo completamente livre de texto. A certo momento, houve a necessidade de explicar textualmente como se pode chamar um passarinho que nos diz por onde seguir. Em novas interações, um ícone explica qual o botão a premir, mesmo estando a falar de um jogo com tão poucos movimentos. Num jogo como este em particular, destoa, deixa na dúvida se foi falha de design ou cedência a pressão da editora.


Esteticamente, é um jogo magnífico, com uma visão muito particular da floresta, simultaneamente mágica e sombria. Um mundo de pedras, árvores e criaturas escuras pontuadas por néons incandescentes, acompanhado de uma envolvente banda sonora que oscila entre suaves notas de fundo e temas épicos a marcar momentos marcantes desta jornada. Não é um jogo sem as suas referências como Journey, Shadow of the Colossus e até mesmo os jogos metroidvania em termos de game design, mas mesmo assim é completamente digno do seu espaço. Como os primeiros da lista, é um jogo mais sobre as emoções que transmite do que sobre o desafio que oferece.

Os gráficos tiram o máximo partido do alto contraste que marca toda a estética do jogo. Porém, há aqui um reparo a fazer, relativamente à versão para a Nintendo Switch: em certas áreas do mapa podemos observar uma perda de fluidez ou uma "draw distance" mais reduzida quando há um vasto campo de visão. O mesmo não aconteceu na PlayStation 4, onde os visuais também são um pouco mais aprimorados, apesar da ocasional perda de fluidez continuar presente. Ainda assim o jogo continua perfeitamente jogável em qualquer uma das plataformas.


Não é um jogo para todas as sensibilidades, pois incentiva à exploração em vez de uma rápida progressão, com um mundo cheio de mistérios para desvendar e colecionáveis para encontrar. Infelizmente, conta com algumas falhas de execução, especialmente a nível de jogabilidade. Mesmo assim, é provável que tenha cativado o jogador ao final da sua primeira sessão. Só é preciso um pouco de fé.
Nota: Esta análise foi efetuada com base em código final do jogo para a PlayStation 4, gentilmente cedido pela Zoink Games, além de uma cópia digital do jogo para a Nintendo Switch comprada pelo escriba.
Fe Fe Reviewed by Telmo Couto on 23 fevereiro Rating: 5

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