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30 de janeiro de 2018

Shadow of the Colossus


Quem ousa tocar em terreno sagrado? Shadow of the Colossus, lançado originalmente em 2005 para a PlayStation 2, é uma das obras-primas dos videojogos. Em 2011, teve direito a uma remasterização com gráficos HD para a PlayStation 3, em conjunto com Ico, o jogo lançado anteriormente pela mesma equipa. Uma remasterização que ficou ao encargo da Bluepoint Games, empresa atualmente especializada neste tipo de adaptações. Talvez tenham considerado que uma simples melhoria gráfica não fizesse justiça ao jogo, um clássico digno de algo muito superior. Mas seria este um clássico que não deveria ser tocado?

A Bluepoint Games ousou pegar numa obra que muitos ainda hoje guardam como um dos seus jogos favoritos e recriá-la a partir do zero. O mesmo jogo, a mesma obra, com um grafismo moderno e capaz de aproveitar as capacidades da PlayStation 4 e da sua versão Pro. Não vale a pena estar com rodeios: esta nova versão é magnífica. Quem tiver jogado o original, tenha sido há uma ou duas gerações de consolas atrás, escusa de continuar a ler: este é o jogo de que vocês se lembram, mas com os gráficos que vocês imaginavam.


Wander é um jovem guerreiro que parte para uma terra proibida com o corpo de Mono, uma donzela que terá sido injustamente sacrificada. Procura a sua ressurreição, mesmo que para tal tenha de pagar um preço elevado. Dormin, o espírito que o recebe, avisa-o disso mesmo, explicando que para a salvar ele terá de defrontar uma série de colossos espalhados por aquela região. Um local ermo, onde não se encontra vivalma. Não há pessoas nem monstros, apenas alguma fauna pequena. Não há muito para fazer neste mundo, sequer. Shadow of the Colossus é um jogo solitário.

Guiado por uma luz refletida pela sua espada, Wander tem de atravessar o mundo até encontrar os colossos e defrontá-los, um a um. Não será tarefa fácil: estas criaturas gigantescas não podem ser combatidas com um mero duelo de espadas. Cada colosso é um puzzle que teremos de analisar para descobrir uma forma de o escalar e encontrar o ponto fraco, que brilhará intensamente. O jogo é um misto de puzzle e acção, envolto num cenário épico de aventura que facilmente prende qualquer jogador.

Apesar da paleta de cores reduzida do estilo artístico escolhido, o mundo oferece uma grande variedade de cenários por onde vaguear. Geralmente é fácil encontrar o caminho a seguir, com a orientação da luz. Um percurso sereno que permite sentir a escalada de tensão até ao inevitável encontro com um colosso. Criaturas majestosas, divinas, que imediatamente impõem uma sensação de respeito. Matá-las é o preço a pagar pela vida de uma donzela acerca da qual nós, jogadores, nada sabemos. Um peso a carregar no corpo e na alma, muito diferente da sensação gratificante de matar um boss em qualquer outro jogo.


A acompanhar tudo isto temos uma banda sonora excelente, perfeitamente adequada ao avanço no jogo. Calma e misteriosa enquanto procuramos o colosso, densa quando o abordamos e absolutamente épica quando o combatemos. O som de vitória, esse, carrega o peso e a amargura acima descritos.

Não admira que este jogo seja uma referência em termos de game design. Cada colosso é um desafio que requer planeamento e capacidade de execução, dificilmente será derrotado à primeira sem alguns erros pelo meio. Por isso mesmo, o jogo inclui uma espécie de "time trial", bastando visitar os seus escombros e oferecer uma oração para reviver a batalha. Uma boa desculpa para repetir os momentos favoritos do jogo.

Neste remake, podemos contar com um grafismo impecável, extremamente detalhado e a pedir uma PS4 Pro ligada a um televisor 4K, que simultaneamente é bastante fiel à visão oferecida pelo original. Tons de sépia, uma certa neblina... o ambiente é perfeito. O jogo oferece ainda um modo de fotografia, com bastantes filtros de cor e efeitos possíveis, que irá sem dúvida dar origem a incontáveis wallpapers por esse mundo fora. Numa PS4 normal, corre a 30fps sem quaisquer quebras, mas na versão Pro será possível optar por jogar em modo Cinematic (1440p a 30fps) ou Performance (1080p a 60fps), conforme a preferência do jogador.


Shadow of the Colossus é um dos grandes clássicos dos videojogos. A visão agora oferecida pela Bluepoint Games apenas o enaltece com um grafismo impecável para o que já era uma direção artística extraordinária. Um jogo magnífico, deslumbrante e solitário, agridoce. Obrigatório.

Nota: Esta análise foi efetuada com base em código final do jogo para a PlayStation 4, gentilmente cedido pela SIEE.