Mixtape

Mixtape veio com uma proposta bastante clara: recriar a sensação nostálgica da adolescência através da música, das memórias e das amizades.

O estúdio australiano Beethoven & Dinosaur é o responsável pelo seu desenvolvimento, depois do sucesso de The Artful Escape este estúdio atirou-se de cabeça para este projeto que, por detrás da cortina, acabou por beneficiar não só dos milhões da Annapurna Interactive, fundada por Megan Ellison, filha do cofundador da gigantesca Oracle mas também do branding prestigiante que esta editora tem, pelo menos até à data. Certo que nada disto interessa no que toca a avaliar o jogo, já a categoriza-lo, tenho a certeza que o rótulo de indie vai ser colado descaradamente neste jogo lá para o final do ano e tendo em conta o orçamento e o número de pessoas que trabalharam neste projeto, indie não é de certeza!

Já libertei este demónio! Siga...

A história é sem dúvida a melhor componente de Mixtape. O jogo acompanha três amigos adolescentes na sua última noite juntos antes de seguirem caminhos diferentes na vida adulta. A narrativa funciona como uma coleção de memórias jogáveis, em que cada momento representa uma experiência típica da juventude: as festas, as primeiras paixões, a rebeldia inerente à idade, as amizades intensas e aquele sentimento constante de que o tempo está a escapar pelas mãos.

O grande mérito do jogo está na forma como consegue transmitir emoções genuínas sem cair demasiado no exagero. Existe uma naturalidade nos diálogos e nas interações que torna as personagens bastante humanas e credíveis. A narrativa também beneficia imenso da estrutura em formato de “mixtape”, onde cada sequência é associada a uma música específica. Isso cria momentos muito cinematográficos e muito fortes emocionalmente. É um jogo que vive da nostalgia com uma escrita que é simples, mas eficaz, e consegue capturar perfeitamente aquela sensação agridoce do final da adolescência.

O calcanhar de Aquiles de Mixtape está nas suas mecânicas de jogo. Ou melhor, na falta delas. Como seria de esperar num jogo onde a narrativa toma de assalto todo o protagonismo e se releva como o maior ativo de um jogo, a jogabilidade acaba por ficar para trás. Não há muito que fazer cineticamente em Mixtape e até existem oportunidades de o fazermos, mas fica sempre algo curto ou é preterido para que algo mais cinematográfico apareça no seu lugar. Além dos poucos momentos onde são apresentadas mecânicas, o jogo também nos dá, não só uma, mas sim as duas mãos de forma para que conseguirmos sempre ultrapassar aquilo que já é bastante fácil. Aqui o estúdio não quis que ninguém ficasse para trás, MESMO!

Visualmente o jogo é excelente. Muito colorido e com uma paleta de cores muito viva, onde a aposta no contraste de cores é também bastante evidente. O estúdio optou por uma estética estilizada, muito inspirada em animação moderna onde as cores vibrantes, os efeitos de iluminação e as texturas dão ao jogo um aspeto muito "sui generis", mas sem deixar de abraçar o traço mais tradicional deste tipo de animação. Tenho, no entanto, algo pessoal a declarar que poderá ou não fazer diferença a outras pessoas que possam ler esta análise; as animações das personagens são a "30fps" por decisão criativa e causam-me algum (por vezes muito) desconforto visual. Já o mesmo se tinha passado no jogo South of Midnight mas felizmente nesse jogo havia opção para desligar essa "feature", aqui não vislumbrei nada sequer parecido nas opções do jogo. Uma pena.

A banda sonora, no entanto, é absolutamente fantástica e, juntamente com a história, representa o ponto mais alto da experiência. O jogo inclui músicas de bandas e artistas icónicos como Portishead, The Cure, Joy Division ou The Smashing Pumpkins. Mais do que simples música de fundo, cada faixa é utilizada para construir emoção e ritmo narrativo e existem mesmo momentos em que a música quase que conta toda a história. Os próprios criadores afirmaram que as músicas são “a alma do jogo”, ao ponto de recusarem incluir um modo streamer sem copyright.

É raro encontrar um jogo onde a integração sonora seja tão importante para a identidade da experiência. 

Mixtape é um jogo que vale muito mais pela viagem emocional que proporciona do que pela jogabilidade que apresenta. A história toca fundo da alma de quem passou pelos anos 80 e 90, as personagens são memoráveis e a banda sonora eleva quase todas as cenas ao Olimpo.

Consegue destacar-se graças à sua forte identidade artística e ao modo como utiliza a nostalgia como uma ferramenta. Não é um jogo para quem procura desafio ou ação intensa, é sim uma experiência marcante para quem valoriza narrativa, música e atmosfera. 

Mixtape não deve ser o "indie darling" de 2026 porque não é nenhum indie (possivelmente vai ser considerado um de qualquer maneira!), mas a forma como apresenta a sua narrativa poderá ser o novo benchmark neste tipo de videojogos, tal como os jogos da Telltale, no passado recente também o foram.



Mixtape saiu no dia 7 de maio de 2026 para Nintendo Switch 2, PlayStation 5, Xbox Series X|S e PC.


Nota: Análise efetuada com base no código final do jogo para PC, adquirido pelo autor do artigo.



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