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28 de dezembro de 2017

Persona 5


Ao aproximar-se o final do ano lembro-me dos jogos que mais me marcaram, entre eles alguns que fui adiando a sua análise, mas que não podia deixar passar, e num ano com títulos de peso um dos que mais me marcaram foi Persona 5, um jogo com um impacto a nível pessoal maior do que pensava! Após longos anos à espera ele chega finalmente a tempo do 20.º aniversário da série Persona, série spin-off de Shin Megami Tensei (SMT ou Megaten como é conhecido entre os fãs), que com o passar dos anos se tornou numa série com tanta importância como a principal.

É difícil nunca ter ouvido o nome Persona, um RPG onde adolescentes são capazes de invocar demónios enquanto vivem o seu dia-a-dia normalmente indo às aulas, fazendo exames e lidar com todo um leque de dramas pessoais e dos que os rodeiam. Foi com Persona 3 na PS2 que a série recebeu um bom boost de popularidade, principalmente por cá, e agora conta com uma boa legião de fãs que aguardam o próximo capítulo, enquanto vão recebendo jogos de dança, luta, séries de animação e até mesmo RPGs alternativos, como Persona Q.


Pela primeira vez na série vamos para Tóquio, algo novo pois os jogos anteriores eram passados em localidades fictícias. A grandiosidade da cidade é explorada em pequenos bairros onde nunca senti falta de atividades, mesmo tendo uma liberdade muitas vezes limitada principalmente à noite, onde um gato falante me obrigava a ir dormir. O protagonista é enviado para Tóquio após ter sido acusado de um crime e fica ao encargo de Sojiro, dono do café onde vai habitar durante um ano, e terá de prosseguir os seus estudos numa escola local. Mas a história não começa assim: começamos o jogo a assaltar um casino, vestido a rigor, mas somos capturados e depois o enredo é contado em flashbacks através do protagonista, enquanto vai sendo interrogado.

A primeira reação ao jogo são os visuais, que para um jogo de PS3 (com melhorias na PS4) está incrível! Há imenso detalhe desde os personagens aos cenários, criando uma grande imersão no jogo que é ajudada pela banda sonora, que troca o pop de Persona 4 por jazz e funk, enquanto passeamos pela cidade. Todo, mas todo o jogo grita estilo, com um design excelente desde os simples huds às transições entre menus que são todos animados, juntamente com transições fluídas entre ecrãs. Durante as mais de 120 horas que tive de jogo não contei com um único momento parado, aborrecido ou estático, em que até mesmo os loadings (rápidos) são animados e demonstram bem o quotidiano em Tóquio, tal como vão dando breves dicas sobre o desenrolar da história.


Sendo um RPG old-school este mostra bem as suas raízes, onde convém tirar partido das fraquezas dos inimigos de modo a ganhar turnos extra. O jogo demonstra muito bem como fazer um grande RPG com batalhas por turnos, através de menus rápido e acessíveis, resultando num excelente ritmo. Deu-me um enorme gozo ter batalhas, nem que fosse pelas músicas que tocavam, mas também pela sua dificuldade: o jogo não é difícil, mas se assim desejar há modos de dificuldade superior onde a mínima distração resulta em Game Over. As armas de fogo estão de regresso das origens de Persona, tal como os demónios de SMT e o seu modo de recrutamento, fiel à série original resultando num excelente throwback, e embora não enfrentemos os Shadows de Persona 3 e 4 esses não são esquecidos pois têm algum papel neste jogo.

Tal como nos restantes capítulos há um grande hábito de criar e explorar mitos urbanos, o que me agarra imenso, e tal é devidamente explorado numa cidade habitada por milhões de habitantes! Encontrei-me no meio de dois acontecimentos: um em que algumas pessoas ficavam estranhas, apáticas, levando até mesmo à sua morte, e outro dos misteriosos Phantom Thieves, o grupo composto pelos protagonistas, que são o tema central do jogo. Eles aparecem como uma espécie de justiceiros, capazes de roubar corações no sentido que conseguem mudar qualquer pessoa de modo a expor os seus crimes ou segredos mais obscuros. A sua popularidade tem muita importância no jogo, e estes Phantom Thieves são capazes de entrar em Palaces, representações do subconsciente dos seus alvos, habitados por inúmeros demónios. A exploração destas masmorras é bastante boa, com alguns puzzles simples mas interessantes, e salvo raras ocasiões não era repetitivas.


Cada um dos heróis tem um despertar, um awakening em que fazem um contrato com um persona, um demónio que representa personalidade de cada um. O jogo brinca aos super-heróis e cada personagem encara velhos ícones, desde heróis a ladrões ou anti-heróis, juntamente como o seu persona. O personagem principal é Joker, que leva à letra o tema de wild-card, o jack-of-all-trades habitual do protagonista, que juntamente com o seu persona Arsene encaram o ladrão cavalheiro da literatura francesa Arsène Lupin. Outros personagens usam personas baseados em figuras icónicas como o famoso Zorro, o navegante e pirata escocês Capitão Kidd, a femme fatale Carmen entre outros. Todos os personagens vestem-se também a rigor, encarando à letra a temática, e o uso de uma máscara é algo bastante vincado no jogo.

As habilidades dos personagens são vitais nos combates e Persona 5 mostra bem as suas raízes da série SMT, onde temos de criar vantagem sobre os inimigos tirando partido das suas fraquezas, de modo a ganhar turnos extra. O jogo demonstra na perfeição como fazer um bom RPG à antiga por turnos com um sistema de menus acessível e extremamente rápido de usar, o que faz com que as batalhas tenham um excelente ritmo e fluidez, sem um único momento lento. Dá um prazer enorme enfrentar inimigos quer pela velocidade das batalhas, e também devido às excelentes músicas. Algumas batalhas,  principalmente os bosses, foram as mais memoráveis dos meus últimos anos dentro do género!

Tal como os outros main characters, Joker é capaz de invocar e usar vários personas durante o combate e fazer fusões entre eles, mas para tirar partido disto tudo convém estabelecer fortes laços sociais com os vários personagens que vamos conhecendo ao longo do jogo, sejam jogáveis ou não. Estes já tradicionais Social Links conseguiram-me cativar imenso no jogo, tendo gostado de praticamente todos ao contrário do que aconteceu com os 2 jogos anteriores! Desta vez também não perdemos afinidade caso ignoremos um ou outro personagem, o que para mim foi um alívio pois com tantas atividades por onde escolher acabava por não ter tempo para tudo. Até porque convinha aumentar os parâmetros do personagem através de estudos ou comer hamburgers gigantes, de modo a ser devidamente respeitado e desbloquear ainda mais Social Links, entre outras coisas.


Estas atividades vão desde ir a cafés, restaurantes, ginásios, ver filmes, jogar video-jogos, entre muitas outras coisas. Desapareceram os clubes da escola, algo que senti falta no início mas que rapidamente me esqueci que tal coisa tinha existido em jogos anteriores. Volta a possibilidade de nos envolver emocionalmente com outras personagens, embora isso não seja muito significativo, mas atingir o máximo de relação com o máximo de Social Links dá recompensas bastante boas, levando-nos a controlar bem a nossa agenda para tirar o melhor partido de tudo. A agenda é bastante apertada, pois não só temos um prazo para concluir os palácios, como há exames e outras coisas que temos de concluir. Existe ainda uma masmorra endless que não só serve para lidar com alguns pontos da história, como é um ótimo local para fazer grind de níveis e dinheiro.

Mas algo que tenho vindo a referir durante a análise é a banda sonora, sem dúvida a minha favorita do ano! Desde os vários temas enquanto andamos a explorar a cidade ou masmorras, mas principalmente as músicas das batalhas, são todas memoráveis e encaixam perfeitamente no espírito do jogo. É daquelas bandas sonoras que dá vontade de ter e ouvir casualmente durante o nosso dia-a-dia, deixando alguma vontade de voltar ao jogo! A série habituou-nos a um bom voice acting e assim continua, desta vez com a opção de poder jogar em inglês ou japonês, e dei por mim a jogar com as vozes em japonês pois senti que se enquadrava melhor, embora não percebesse o que estava a ser dito em algumas situações (vozes de fundo, algumas frases nas batalhas) por não ter legendas.


Não podia haver melhor celebração dos 20 anos da série, e Persona 5 é um jogo obrigatório para os fãs do género, e também um ótimo título para os que habitualmente não jogam RPGs (principalmente japoneses) e querem experimentar algo dentro do género. Um jogo que nos chega numa altura em que os RPGs mais tradicionais parecem estar fora de moda, e que demonstra que ainda é possível fazer grandes jogos dentro do género com um aspecto muito moderno, sem um único ponto enfadonho nas imensas horas de jogo pela frente. A sensação que tive ao concluir o jogo (que me parece ser o consenso geral entre os fãs) é a de saudade e despedida de um bom grupo de amigos, ficando uma grande vontade de voltar ao jogo, aproveitar o New Game Plus e explorar ao máximo tudo o que deixei passar no jogo.


Nota: Esta análise foi efetuada com base numa cópia adquirida pelo autor do artigo, para a PlayStation 4.