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20 de outubro de 2017

SteamWorld Dig 2


Análise por Diogo Ribeiro

Simples. Belo. Altamente viciante. Em quatro palavras está descrito SteamWorld Dig 2, provavelmente um dos melhores jogos indie disponíveis para a Nintendo Switch. Como o nome indica, Dig 2 é uma sequela directa do antigo SteamWorld Dig, o qual tive o prazer de jogar na minha Nintendo 3DS, já há alguns anos. E como sequela, em tudo melhora quando relacionado ao anterior jogo: uma direcção artística absolutamente brilhante, uma atmosfera espacial e musical envolvente, mecânicas de jogo simples que se desenvolvem ao longo do tempo, alguns desafios extra para quem gosta realmente de completar os jogos a fundo, e uma história mais consistente, com diálogos cheios de humor e personalidade.

Sempre acreditei, especialmente de a alguns anos para cá, que menos é mais. Muitos podem ver nisso um lugar comum, mas a simplicidade e clareza, numa sociedade que cresce em complexidade a olhos vistos, é cada vez mais rara. Esta indústria de videojogos que se agigantou nos últimos anos não tem ficado à parte, e hoje em dia há uma grande tentação por parte das companhias de fazer mais, melhor, maior! Mas… é isso sinónimo de qualidade? O que faz então um bom jogo?


Primeiro: uma boa direcção artística. Não chegam simplesmente gráficos exuberantes, que qualquer dia mal se irão distinguir da realidade. Todo o design, toda a ligação que o mundo tem com as suas personagens, a importância de um mundo que se sente vivo, dentro da sua história e temática. Já se diz na culinária que “os olhos também comem”, e em SteamWorld Dig 2 os nossos ficam bastante saciados. Tal como no primeiro, o “motif” é a escavação, numa temática “steampunk” americana, em que os humanos passaram para plano secundário e são as máquinas, mais especificamente os robôs movidos a vapor, que vivem à superfície do planeta. Artisticamente, os criadores acertaram na “mouche”: simples, sem ser pobre e/ou enfadonho, e as várias secções subterrâneas possuem uma variedade que tornam o jogo visualmente muito dinâmico e vivo.

Variedade presente não apenas visualmente mas em todas as categorias do jogo e que, por serem tão ricas, nos dão uma sensação de progresso muito forte. Faz-nos sentir que andamos constantemente à procura de tesouros e a ultrapassar os mais loucos desafios e que queremos cada vez mais e mais, cavando mais fundo e procurando todos os segredos que o jogo tem para nos dar. Esta constante “ganância” por ter cada vez mais ouro, para continuar a evoluir as nossas ferramentas e a explorar mais e mais, é algo extremamente viciante, e que neste jogo em específico, me fez sentir realmente como Indiana Jones, o clássico do cinema do explorador de masmorras e cavernas. Além disso, é um jogo não linear, no sentido literal da palavra até, já que não exploramos apenas na vertical, como seria de esperar e o que acontecia mais no primeiro jogo. Temos inúmeras partes do mapa em que é necessário atravessar horizontalmente os vários obstáculos, e as inúmeras cavernas (pequenos desafios contidos em secções secundárias do mapa) tornam a travessia no jogo muito mais interessante.


Dig 2 é acompanhado de uma banda sonora espectacular em que os temas casam na perfeição com as várias secções do mapa. Isto acontece pois a melodias (ou até a quase ausência delas) reproduzem na perfeição o ambiente: ao longe, um deserto árido, cheio de vento e poeira, acompanhado pelo som de uma guitarra eléctrica com acordes soltos e secção rítmica pouco presente; uma cidade toda feita em metal, “O Lar”, onde uma melodia descontraída e mecânica, com um “swing” lento, nos permite descontrair; uma zona húmida subterrânea, repleta de plantas e vida selvagem, representada por acordes arpejados, sons titilantes e ruídos ambiente; entre tantos outros. A música não tem temas que se possam dizer ultra memoráveis, mas complementam sem falhar toda a atmosfera do jogo.

Estas várias ambiências que encontramos vão acompanhando ao longo da história Dorothy, a exploradora que procura Rusty, o protagonista do primeiro Steamworld Dig, que se encontra desaparecido. Cavando cada vez mais fundo, Dorothy vai encontrando minerais que quando vendidos a ajudam a melhorar a sua picareta, bem como a obter outras ferramentas mais evoluídas, já que maiores e piores vão sendo os perigos encontrados. E que perigos esses, alguns a lembrar secções de terror, imaginem só! No geral, o jogo apresenta uma fórmula que, apesar de ser na maioria de plataformas 2D, somos nós que cavamos o nosso próprio caminho, não sendo uma descida de todo elementar e linear, e de cada vez que jogamos, o caminho acaba sendo sempre diferente. Há inúmeros segredos escondidos que, apenas mais tarde com a evolução do nosso arsenal, podemos encontrar, redescobrindo áreas antigas pela qual já passámos. Alguns desses segredos, como rodas dentadas especiais (“cogs”), permitem melhorar e modificar as nossas várias ferramentas e até activar modos de dificuldade especiais, e somos nós que escolhemos essas actualizações à nossa medida, através da customização apresentada.


Há no exercício de categorizar os jogos, especialmente no caso dos chamados “indie”, a tentação de pensar que estes jogos, por definição, são jogos “alternativos”, feitos por companhias com poucos recursos e que por isso, possam ser jogos mais fracos que outros, de grandes empresas, com muitos recursos ao dispor. A verdade é que uma boa ideia e uma boa execução é o que faz realmente um bom jogo, independentemente da tecnologia ser de ponta ou não. E se SteamWorld Dig era um óptimo jogo, Dig 2 é ainda melhor em todos os aspectos. Um carisma impressionante inunda este jogo, em toda a sua estética e jogabilidade, e o seu único defeito é sem dúvida que termina mais cedo do que esperamos. Gostava, tal não foi o vício, que este durasse tantas mais horas e tivesse um pouco mais de conteúdo (que por si já é bastante). Mas uma coisa é certa, e para empregar mais um “cliché” se me permitem: qualidade, e não quantidade.

Nota: Esta análise foi efetuada com base numa cópia digital para a Nintendo Switch, adquirida pelo autor do artigo na eShop.