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8 de fevereiro de 2017

Nioh


Nioh é, sem muitas dúvidas, um Dark Souls feito à moda da Team Ninja, onde o ecrã de Game Over é algo que vemos vezes sem conta. Aqui o mínimo descuido resulta numa morte certa, sendo que é preciso estar (quase) sempre 100% atento tanto aos cenários como os inimigos. Nesta aventura tomamos o papel de William Adams, aquele que viria mais tarde a ser o primeiro samurai ocidental, que o Japão veio a conhecer.

É um jogo baseado na história do Japão em 1600, com figuras históricas desse período (pós Sengoku e antes de Edo), este em que os portugueses tiveram influência ao levar para lá armas de fogo. Mas a história serve apenas como base, pois em Nioh a fantasia reina, com uma história em torno de Guardian Spirits, criaturas especiais que protegem alguns personagens e ainda Amrita, um tipo de energia que se manifesta em forma de cristais. Contudo o enredo é relativamente simples, e não perde muito tempo a explorar as várias figuras históricas que vão aparecendo.

Começo com um pequeno à parte: como fã de RPGs, Dark Souls é uma série que "gostava de gostar", ou seja, sempre me interessou mas a dificuldade frustrante é algo que me afastou. Ao começar Nioh respirei fundo, e mal tive controlo de William consegui surpreender o meu primeiro inimigo, derrotando-o sem qualquer dificuldade usando apenas os punhos. "Bem, nada mau!" pensei, e em poucos minutos já estava bem equipado, confiante e prestes a enfrentar qualquer inimigo sem dificuldade. Este foi o meu primeiro erro grave, pois em pouco tempo fui atirado ao chão, e morto tão depressa que nem pestanejei.

Nioh não perdoa, e a sua dificuldade é resultado de ser impiedoso! Qualquer passo em falso ou más investidas resultaram em morte certa. Esta é a essência do jogo, o desafio está em receber qualquer luta como decisiva, ler os movimentos do adversário enquanto não nos colocamos em perigo, à mercê de mais inimigos ou até mesmo do ambiente, e para sobreviver temos de saber defender, esquivar e atacar no momento certo. Existem vários factores a ter em consideração, desde o tipo de arma que mais se adequa ao nosso estilo de jogo, ao próprio peso da armadura que equipamos, sendo que se for demasiado pesada nos torna um alvo fácil (embora resistente). O desafio é também mais focado na luta contra os imensos adversários, e não o estar sempre preocupado com armadilhas, já que estas não são muitas.

Um dos aspectos onde o jogo brilha é na jogabilidade, e quase tão importante como o HP é a stamina, neste jogo retratada como Ki, em que quase todas as ações do jogo a consomem. Outro factor fundamental são as 3 posições de combate: High, onde usamos ataques fortes a custo de bastante Ki; Mid, mais defensiva e ideal para ataques certeiros; e ainda Low, com ataques baixos, fracos mas rápidos e que consomem pouco Ki. Dominar estas Stances é tão importante para a nossa sobrevivência como saber esquivar ou defender, e saber quando trocar de posição dá-nos uma boa vantagem na luta.

Ficar sem Ki deixa-nos vulneráveis, e para evitar isto temos os Ki Pulses: ao terminar um ataque, premimos o botão e recuperamos parte do Ki. À medida que avancei no jogo fui aprendendo novos ataques, juntamente com Ninjustu e Onmyo Magic, que me davam vários utensílios para lutar, desde bombas a itens para recuperar energia. Em poucas horas de jogo já estava completamente à vontade com a jogabilidade, e sentia que o flow de ataques parecia uma dança de espadas (entre outras armas), resultando numa jogabilidade extremamente gratificante, e sempre fluída.

Contudo o jogo conta com isto e vai oferecendo novos desafios, alguns deles que pareciam impossíveis, e me deixaram várias horas a enfrentar certos bosses, deixando-me completamente frustrado. Ao mesmo tempo sentia-me empolgado, ansioso, várias vezes irritado ao perder contra bosses quando tinham apenas milímetros na barra de vida. Já agora, estes bosses são geralmente monstruosos, e há bastante detalhe no seu desenho, tornando-os memoráveis pelo seu aspecto, e não só pelas tentativas frustradas de os matar. Quando finalmente os derrotava e terminava a missão, a vitória sabia extremamente bem, dando uma motivação extra para enfrentar a missão seguinte, e por sua vez enfrentar novos desafios.

Foi algo que me agarrou e o jogo vicia imenso, pelo simples facto do desafio estar à altura do que podemos fazer com William. Das armas que fui explorando, dei por mim a ficar pela típica espada de samurai, e uma lança, compensando o alcance curto da espada. Adaptei-me ao jogo, e ele soube entregar um bom desafio, e mesmo ficando imensamente frustrado em certas ocasiões, voltava para tentar concluir a missão. Cada missão trazia ainda novos cenários, todos eles bastante belos, e esses traziam novas ratoeiras, e alguns novos demónios, isto é, Yokai. O meu estilo de combate também se adaptou: os ataques de soldados humanos eram mais fáceis de defender ou deflectir, enquanto que os demónios eram mais erráticos, imprevisíveis por vezes, e dei por mim a esquivar-me com mais frequência.

E se os desafios possíveis fossem poucos, temos ainda Bloody Graves, as campas de outros jogadores em que podemos enfrentar uma espécie de espectro deles, bastante mais difíceis que os inimigos comuns, mas não tanto como os bosses, e as recompensas são muitas. Existem ainda guerras entre clãs, a que participamos juntando-nos a um dos vários clãs à escolha, e recolhendo glória (que depois podemos usar para comprar itens especiais). Há mesmo várias coisas para fazer no jogo, grande parte delas opcionais, e que vão sendo entregues aos poucos de modo a dar-nos tempo para as explorar devidamente.

Para nos proteger dos vários perigos temos os Guardian Spirits: criaturas mágicas que vamos encontrando pelo jogo, que podemos invocar resultando numa espécie de modo quase invencível, que dura alguns segundos. Há vários para conseguir, quer através da história ou de missões secundárias, e cada um deles tem características próprias que nos permite, ainda mais, costumizar o modo como jogamos. Há várias coisas para escolher relativas à costumização, sendo acessíveis para os fãs de jogos de ação mais simples, mas com bastantes escolhas para os que procuram algo mais complexo.

Como apontei durante a análise o jogo é um bom desafio, mas a qualquer momento é possível convidar outros jogadores para se juntarem à nossa missão, tornando-a drasticamente fácil. Não escalando a dificuldade dos níveis, não só os inimigos morriam sem quaisquer problemas, como os bosses eram derrotados rapidamente. Alguma da dificuldade do jogo é também proveniente de momentos aleatórios, entre sair ou não alguns itens importantes para a sobrevivência, a alguns movimentos sem qualquer aviso prévio, por parte dos bosses.

Voltando um pouco à história, infelizmente esta é um pouco mal desenvolvida: muitas sequências in-game são literalmente despejadas entre missões, embora o jogo conte com sequências ilustradas bastante bonitas. Existe, contudo, uma representação fiel do Japão daquela época, devidamente acompanhada com cenários bastante detalhados e ainda informações adicionais, dentro de menus, sobre as figuras históricas que vão aparecendo. A banda sonora que acompanha bem o jogo, embora seja pouco memorável, e o voice-acting está bem conseguido, sendo que é algo estranho ver William a falar em inglês com os personagens, e estes responderem em japonês, algo que é "explicado", mas que ainda assim é bastante estranho.

Para os fãs de especificações técnicas (semelhantes aos que encontramos nos jogos de PC), o jogo permite escolher entre 3 modos de gráficos: fluído, a 60 frames por segundo, um cinemático com visuais mais detalhados, mas "presos" nos 30 fps, e outro com muito detalhes, mas que vai variando de fluidez, dependendo da zona. Optei sempre por jogar em 60 fps, pois a jogabilidade fluída é vital para o jogo, e mesmo que não tivesse os detalhes extra, o jogo brilha visualmente, devido ao detalhe dos cenários.


No geral, a experiência tem sido muito familiar (o que estranhei, por nunca ter jogado Dark Souls), e Nioh lembrou-me por vezes o clássico da Capcom Onimusha. Desde o absorver amrita ao derrotar inimigos, ou até mesmo lendo as "almas" dos humanos que morreram em combate, e ouvindo os seus últimos suspiros, sentia que estava a jogar um "Onimusha dos dias de hoje". Talvez seja um ótimo jogo a recomendar para os que adoraram o clássico da PlayStation 2, mas acima de tudo, um viciante jogo mais que obrigatório para os fãs de Dark Souls e da cultura oriental!

Nota: Esta análise foi efetuada com base em código final do jogo para a PlayStation 4, gentilmente cedido pela SIEE.