Despelote
Despelote é um jogo de exploração, passado na primeira pessoa, que explora as aventuras e desventuras do pequeno Julián Cordero pelas ruas de Quito, a capital do Equador, durante a azáfama da qualificação sul-americana para o Mundial de 2002.
Desenvolvido por Sebastián Valbuena e Julián Cordero, ambos equatorianos, o jogo explora as experiências de uma pequena criança durante um período de mudanças impactantes desportivas, económicas e culturas no seu país. Essa criança, como já devem ter percebido, tem o mesmo nome que um dos criadores. Isto não é por acaso. O Julián do jogo representa o seu criador durante a sua infância, a forma como ele via o mundo e as pessoas à sua volta. Numa aventura intimista e singular, vamos guiando Julián enquanto este vai às aulas, brinca com os colegas no recreio, é repreendido pela sua mãe ou interagem com os muitos outros habitantes de Quito.
O gameplay de Despelote encontra-se dividido em duas partes. A primeira, a mais longa, é aquela na qual assumimos controlo direto de Julián. Com a criança vamos explorando as diferentes zonas da cidade de Quito, desde a casa do infante e a escola do mesmo, até ao parque, ruas do bairro e lojas de comércio. Uma vez nessas zonas, e sempre acompanhados da nossa fiel bola de futebol, podemos deambular livremente pelo cenário, interagindo com outras pessoas, animais e objetos. Dessa maneira, será nos revelada mais acerca daquilo que se passa no Equador no início do novo milénio. Da crise económica que assolou o país em 2000, até à première do filme "Ratas, Ratones, Rateros" no prestigiado Festival Cinematográfico de Veneza, em 1999, o jogo faz-nos mergulhar na cultura e história equatorianas, como se de um jogo educativo se tratasse.
Tudo isto é feito tendo como pano de fundo a já referida fase de apuramento da seleção nacional para o Mundial. Um apuramento bem sucedido, o primeiro do país, no qual ficaria em segundo na fase de qualificação, acima de seleções mais cotadas como o Brasil, Uruguai ou Colômbia. No meio de toda esta euforia, vamos crescendo (literalmente) com o protagonista e experienciando também a sua vida familar, desde comer refeições com eles, pintar com a nossa irmã mais nova ou brincar ao balão durante o casamento daquela tia sem grande paciência para crianças.
O jogo tem a particularidade da reação dos NPCs depender bastante da forma como interagimos com eles. Por exemplo, se usarmos a nossa bola para interromper um piquenique romântico, o duo lembra-se-à de nós de forma bastante negativa. Por outro lado, e até porque não começámos sempre com a bola nos pés, se roubarmos o esférico a uns adolescentes, teremos os mesmos, irados, a perseguir-nos pela cidade. Despelote tem muitas pequenas histórias a serem contadas, no meio da história que vamos construindo. Duas dessas histórias, que mais me chamaram à atenção foram a da cadela que dá à luz no parque ou a do gato Melcocha, cujo poster de desaparecido se encontra nas muitas paredes do bairro. Cheguei a dar por mim a tentar adotar um dos canídeos recém-nascidos e a procurar por pistas do felino que nunca apareceria.
No entanto, o jogo não se fica por aqui, uma vez que existe um segundo modo, bastante menor e um pouco inconsequente, de se jogar Despelote. Fora do espectro da aventura na primeira pessoa, temos um simulador de futebol, o Tino Tini's Soccer 99', que nos vê assumir controlo de uma versão digital da seleção equatoriana, enquanto fazemos um percurso paralelo com o da seleção real na fase que qualificação. Tino apresenta-se em cores monocromáticas e com um gameplay que em muito lembra o de Sensible Soccer. Ainda assim, e embora seja curioso, este modo é como referi, inconsequente, não sendo realmente importante para o desenrolar da história se vencemos ou não. É só algo que nos é disponibilizado para fazer durante aquilo que de facto é o jogo principal.
Em suma, Despelote é uma experiência singular. Um jogo que é bem mais do que isso, tratando-se de uma verdadeira e criativa imersão num período transformativo da sociedade equatoriana.
Nota: Análise efetuada com base em código final do jogo para a Nintendo Switch, gentilmente cedido pela Panic, via popagenda.







