Tingus Goose
Afirmo que, sim, isto é um videojogo. Tem objetivos traçados, tem mecânicas bem definidas, tem até mesmo uma narrativa coesa, por muito bizarra ou inspirada pelos efeitos mais fantásticos de estupefacientes, ela faz todo o sentido no caos que se está ali a passar. Tingus Goose fala da vida, do crescimento de todos nós, mas em vez de tudo começar com um simples parto natural, por alma de alguma coisa um ganso tomou conta do útero e sai de lá um bom combustível para os pesadelos de qualquer um. Embora com uma ilustração fofa.
E é este o principal destaque do jogo, é uma obra de Master Tingus, conhecido pelas suas ilustrações e animações, com um traço quase que simples, embora bem trabalhado. O seu trabalho é transposto na íntegra para este jogo, como se todo o jogo fosse mesmo uma das suas animações, com mecânicas de puzzle, onde o objetivo é (na prática) construir uma torre para fazer crescer o nosso recém-nascido ganso e chegar a outro que está no céu. Como o fazemos? Através de pontos, que se convertem em dinheiro. Como fazemos pontos? Bebés.
Sim, bebés humanamente normais que nascem projetados da cabeça de ganso, que surge da barriga de um humano, entre outras coisas, quando a regamos. Confusos? Ótimo, não pensem muito no assunto. O truque para ganhar mais pontos é fazendo com que os bebés vão passando por "construções" que criamos do pescoço do ganso que estamos a regar, como se fossem diversas maquinetas com funções diferentes. Há ganso com vários bicos para deslizar, cestos de basquetebol, unicórnios, coisas para fazer com que o nosso bebé cresça e se torne mais valioso, tudo isto à medida que vai caindo, até chegar a um porco mealheiro que converte os bebés em mais dinheiro.
Não, a sério, não pensem muito no assunto. As várias "máquinas" que vamos desbloqueando são o principal motor para ganhar dinheiro facilmente, juntamente com um skill tree (na realidade, uma skill root) para desbloquear ainda mais coisas. Há efetivamente um jogo, um puzzle para criar ali uma construção que tem tanto de bizarro como eficiente, embora não haja propriamente uma penalização se demoramos muito tempo na nossa demanda. O desafio acaba por não ter destaque, mas é interessante ver que maneira fazemos mais pontos, enquanto admiramos o bizarro do que estamos a construir.
Em parte, o jogo lembrou-me de algum modo Elektroplankton, um curioso "jogo" para Nintendo DS que, na prática, era um instrumento musical eletrónico, mas aqui com bebés a nascer de ganso, e não pequenos girinos que interagiam com o cenário, para criar autênticas músicas. Há quase um efeito de estar simplesmente a ver algo a acontecer, sem pensar muito no assunto, se bem que temos de estar atento para que a nossa construção seja o mais eficiente possível.
Além do jogo em si, são várias as sequências de animação de Master Tingus, que nos vão contando uma história, ou eventos que vão acontecendo. Imprevisto é a palavra que impera, nunca estamos verdadeiramente à espera do que vemos, acreditem. Tanto nestas sequências de animação como em todo o jogo em si, o estilo artístico bem reconhecido do ilustrador está bem presente, onde tudo é desenhado à mão (em formato digital), ou assim parece. Sendo um jogo com vários capítulos, que até se estende um bom número de horas até ficarmos sem níveis para concluir, é relativamente fácil terminar um desafio e ir logo para o seguinte. O que mais me puxou nem foi a complexidade dos níveis, que nem tinha assim tanto, mas sim o bizarro do que podia acontecer não só nas coisas que desbloqueava, como nas pequenas histórias que tinham para contar.
Se querem uma boa dose de… coisas estranhas, ou um jogo onde parecem estar a ver algo sob o efeito de alguma substância, recomendo mesmo muito Tingus Goose. É um jogo simples, bizarro, sem grandes desafios e bem interessante, que não faz mais do que promete: ser uma experência única no mundo criado por Master Tingus!
Nota: Análise efetuada com base em código final do jogo para PC, gentilmente cedido pela Jesus Fabre.







