Mortal Shell II

Mortal Shell II (Playstack)

A minha relação com videojogos vem desde os meus talvez cinco ou seis anos, a jogar Sonic the Hedgehog 3 & Knuckles e, quando estava aborrecido, também “jogava” Paint no magnífico Windows 98 do computador da casa. Nesses tempos não havia internet para ninguém e, mais tarde, quando passámos a ter, era por modem e, às 20:00, a net ia sempre abaixo porque vinha sempre a chamada dos avós para o telefone fixo.

Ao longo destes quase 30 anos da minha vida passei por várias fases, mas uma delas nunca ficou para trás: quando estava eu na minha adolescência, lembro-me de ver vídeos de Amnesia: The Dark Descent, entre compilações de terror (que também sou mega fã, já agora!). A certo ponto vi um videojogo que, na altura, era mais nicho do que hoje em dia, ou pelo menos, era essa a impressão que eu tinha. Jogo esse que hoje é de culto para muitos e foi um dos pais do género que apelidamos hoje de “soulslike”. Estou, obviamente, a falar de Dark Souls. E, desde então, fiquei, tanto eu como o resto do mundo, fascinado com estes mundos frios, solitários e absolutamente implacáveis.

Mortal Shell II (Playstack, Meus Jogos) — PlayStation 5

Recentemente, adicionei mais um deles ao meu portfólio de god gamer Mortal Shell II, a sequela ao cult classic Mortal Shell, de 2020, desenvolvido pela Cold Symmetry e publicado pela Playstack. Vou ser 100% honesto. Apesar de conhecer o primeiro jogo e ter visto algum gameplay, nunca o joguei. Isto porque, sempre que via jogabilidade, nunca me captou.

Talvez porque tenha saído numa altura em que toda a gente queria ser a próxima FromSoftware e lançar o próximo grande souls. Sinceramente, foi uma altura em que o mercado estava a ficar saturado, no entanto, o trailer de revelação de Mortal Shell II foi amor à primeira vista e à primeira escuta. Tanto que, ao meu lado, enquanto escrevo este texto, tenho aqui a Revered Edition, que inclui um belo steelbook e um excelente livro de arte!


Mortal Shell II (Playstack, Meus Jogos) — PlayStation 5

Mortal Shell II segue os (quase) pré-requisitos do género. Abre com uma pequena contextualização do mundo, chamado Fallgrim. Neste caso, os restos de um ser (aparentemente) lovecraftiano, conhecido como Undermether, desceram ao mundo, restos esses louvados por toda uma civilização. Templos foram construídos a partir dos seus ossos, o seu útero foi saqueado (nunca pensei dizer esta frase num artigo, mas aqui estamos nós!), mas, numa parte deste ser, é-nos explicado haver algo a apodrecer até que se libertou e, em resumo, gerou caos em Fallgrim, culminando nos óvulos da Undermether a serem perdidos, roubados, profanados, etc. Exceto um que, leva-nos a crer, somos nós: o Harbinger. Pronto, contextualizados? Lore entendida? Não? Ainda bem, é isso que se quer de um souls!

Acordamos numa espécie de festival de solstício, um Midsommar, por assim dizer. Ao chegar ao ponto fulcral deste festival, somos convidados por Ruk, um corvo gigante com uma caveira humana no bico, a reivindicar o que é nosso, e habitamos assim a nossa primeira shell. Acordamos de um transe e somos confrontados com a tarefa de procurar todos os óvulos da Undermether, sendo esse o objetivo principal e inicial.

Mortal Shell II (Playstack, Meus Jogos) — PlayStation 5

Em Mortal Shell II, jogamos com um ser que claramente não é humano e que tem a capacidade de habitar os corpos de certos indivíduos. Heróis ou personalidades antigas que agora são apenas carcaças, cascas vazias a serem ocupadas: Shells. Espalhadas e escondidas por Fallgrim, cada uma destas shells tem a sua própria classe, chamemos-lhe assim, com as suas próprias habilidades e especialidades. Desde guerreiros normais a assassinos com autênticas metralhadoras vindas diretamente de Killzone, passando por outros de uma classe mais furtiva.

Apesar das suas próprias características individuais, não significa que somos obrigados a usar uma certa arma principal e/ou secundária com cada uma das shells. Elas apenas têm as suas próprias habilidades ativas e passivas específicas, podendo usar qualquer combinação de armas e shell que queiramos. Cabe então experimentar e ver com o que nos identificamos melhor!

Isto é incentivado pelo sistema de leveling, sendo simples e straight forward. Não há que escolher stats específicos, basta usar Gloom (o equivalente a souls) para subir de nível, o que podemos fazer é utilizar outra currency para melhorar as habilidades passivas de cada shell. No entanto, para o podermos fazer, é necessário aprofundarmos a história que está por detrás de cada uma delas. Existe um NPC no hub do jogo que nos permite fazer isto: vislumbrar momentos passados da vida de cada uma das shells. Uma forma bastante interessante de dar mais algum contexto ao mundo e a cada uma das personagens que habitamos, e o porquê da forma de cada personagem no mundo reagir a cada uma delas.

Mortal Shell II (Playstack, Meus Jogos) — PlayStation 5

Relativamente à seleção de equipamento existente, podemos escolher uma arma principal e uma arma secundária ranged. Podemos apanhar itens consumíveis que, de uma forma que nunca vi antes, podem ser equipados como itens ativos ou passivos, com efeitos similares, mas, como é óbvio, efeitos que podem ser ativados com um clique de um botão, ou então alguma forma de ajuda passiva. Existem ainda itens de suporte, Tarstones, que podem ser equipados de forma mais restrita a certas armas. Entre eles, por exemplo, incendiar a nossa arma principal ou as balas da arma secundária, ou então uma que, com cada inimigo morto, até um limite, aumenta a nossa vida máxima, e perdemos o efeito quando morremos.

Por falar em morte, temos quase sempre duas vidas. Isto é, quando estamos a habitar uma shell, temos a nossa barra de vida. Quando ela é totalmente drenada, somos expulsos da shell, perdendo os buffs e habilidades dela, e temos de lutar com a nossa forma básica. No entanto, se forem bons videojogadores, com cada ataque físico bem-sucedido, conseguem preencher uma barra. Quando atinge 100%, conseguem recuperar a vossa shell de novo, mas não com a vida toda. E assim, ganham outra vez uma segunda vida, caso morram de novo, e isto pode repetir-se, desde que não morram na forma básica.

Mortal Shell II (Playstack, Meus Jogos) — PlayStation 5

O combate é extremamente divertido. Tem uma sensação extremamente pesada, o que é ótimo para a estética hardcore e dark fantasy que vemos aqui. As armas principais têm os seus ataques leves e pesados, running attacks leves e pesados, um plunging attack, que é basicamente um super hero landing que dá dano em área, e arma secundária à distância. Existe ainda um sistema muito Sekiro, que é a postura.

Podemos defletir a maior parte dos ataques e, se calcularmos bem o momento, provocamos dano de postura ao inimigo e, se preenchermos a barra toda dele, podemos fazer um riposte attack, que é basicamente um grab ao estilo de God of War (2018), para dar imenso dano, com animações únicas para quase todo o tipo de inimigos. E animações incríveis, de referir! Já, se formos maus a calcular o momento de defletir, sofremos nós o dano de postura e, como devem calcular, se chegar a 100%, é mau. Ficamos vulneráveis, sem qualquer controlo da nossa personagem.

O combate é muito satisfatório quando conseguimos derrotar um inimigo sem levar dano nenhum e defletir os ataques todos.

Mortal Shell II (Playstack, Meus Jogos) — PlayStation 5

Mortal Shell II adota um estilo de jogo em mundo aberto não-linear. Apenas o início do jogo é linear, de forma a contextualizar o mundo e os nossos objetivos. Após derrotarmos o primeiro major boss, então o mundo abre-se e podemos abordar o progresso como quisermos. Provavelmente existem áreas mais difíceis do que outras, mas isso nunca foi entrave para quem é fã hardcore.

Pelo mundo existem Beacons que servem como checkpoints na nossa viagem, onde podemos subir de nível, trocar de shell, etc. Também podemos, maioritariamente nos Beacons principais, selecionar a opção de “Cleanse”, entrar numa dungeon ou mini-dungeon para recompensas adicionais e purificar o mundo à volta. Isto significa eliminar pedaços de corrupção que escondem caminhos ou itens. Dungeons essas que também estão espalhadas pelo mundo aberto, cuja dificuldade e tamanho são variáveis, e recompensas que vão desde dinheiro — que podemos usar para comprar itens mapas, ou melhorar equipamento — até armas novas, ou até mesmo shells novas.

Confesso que inicialmente a quantidade de Beacons no mundo aberto era demasiado reduzida para a quantidade de terreno que tínhamos de percorrer. Felizmente, o jogo levou recentemente uma atualização que, entre outros aspetos QOL (qualidade de vida), aumentou drasticamente a quantidade de Beacons secundários, algo que é bem-vindo. Sendo que o importante é manter a escassez em dungeons principais.

Mortal Shell II (Playstack, Meus Jogos) — PlayStation 5

Adorei a diversidade de mecânicas utilizadas em cada dungeon, fazendo com que quase não exista a sensação de “copy paste”. Numas existem puzzles em que temos de andar de costas para atravessar paredes, outras trocam os controlos… até dungeons que começam a desmoronar connosco lá dentro e temos de fugir o mais rápido possível! Acho que até hoje não me recordo de um jogo que tenha executado esta diversidade de mecânicas em conteúdo principal e opcional.

Uma das minhas mecânicas favoritas são uma espécie de portadas que podemos atravessar para entrar numa outra realidade, onde certos objetos, paredes e caminhos são revelados ou desaparecem. É uma espécie de design espacial de inspiração não-euclidiana, onde a própria perceção do espaço está constantemente a ser posta em causa. Simplesmente, incrível! As dungeons principais são classificadas como Gate. Cada Gate possui um Beacon em frente, que temos de purificar para podermos aceder à dungeon.

Já dentro, estamos então numa progressão linear onde, no final, temos de matar um boss que roubou dezenas de óvulos ao longo do tempo. É assim que progredimos na narrativa, e é basicamente este o gameplay loop de Mortal Shell II: simples e direto, mas com liberdade e diversidade opcional.

Mortal Shell II (Playstack, Meus Jogos) — PlayStation 5

O design dos inimigos é diverso e original, desde inimigos humanos/humanoides, a cabeças ambulantes com perninhas pequenas, passando por uma espécie de alforreca flutuante que usa eletricidade. E, como já disse anteriormente, todas elas com animações de riposte praticamente únicas. Adorei! Como em qualquer souls bom, existem imensos segredos por descobrir e aqui não é diferente. Desde áreas opcionais escondidas enormes, endings secretos (eu descobri um sem querer!), ou simplesmente recursos adicionais escondidos por detrás de paredes ilusórias, para aqueles que estiverem atentos. Aconselho-vos a perder tempo e a explorar todos os cantos de Fallgrim.

O jogo tem uma banda sonora simplesmente fenomenal, mas sou capaz de ser um pouco biased para guitarras pesadas. Mas as transições entre as adaptações orquestrais e os elementos metal são dinâmicas e bem estruturadas. Quando terminamos o tutorial e somos colocados num caminho on-rails para o hub do jogo, há uma parte em que isto acontece pela primeira vez e foi aí que fiquei completamente vendido! E, se quiserem saber, existe uma arma secundária que é um alaúde e vocês podem andar pelo mundo simplesmente a tocar umas malhas!

Mortal Shell II (Playstack, Meus Jogos) — PlayStation 5

O jogo está incrivelmente bem otimizado, com apenas ligeiros hiccups de longe a longe, nada de extremamente grave, mas notório. Eu completei o jogo na PlayStation 5 base, mas já a demo no PC corria sem qualquer problema. E na consola também não tenho nenhuma razão de queixa.

Existem alguns glitches e bugs que têm vindo a ser reparados. O jogo tem recebido updates periódicos desde o seu lançamento, tendo em conta o feedback dos jogadores, e a Cold Symmetry tem feito um excelente trabalho a consertar os problemas que vão sendo encontrados. Mas não pensem que isto significa que existem problemas que impedem o vosso progresso, nada disso, de longe. Apenas alguns problemas visuais, maioritariamente.


Mortal Shell II é um souls construído de forma excecional e que ficará na memória de muitos, eu inclusive. Fico à espera das futuras atualizações e, quiçá, expansões e DLC.



Nota: Análise efetuada com base no jogo para PlayStation 5, adquirido pelo autor do artigo.

Mortal Shell II (Playstack, Meus Jogos) — PlayStation 5

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