Denshattack!
Num futuro distópico onde o mundo exterior (ou pelo menos, o Japão) é perigoso, com as pessoas mais privilegiadas a habitarem as principais cidades sob a proteção de uma gigante cúpula, isolados do que há lá fora onde habitam os mais pobres, resultando numa disparidade de classe social. Isto é relevante? Não, o próprio jogo mal começa ignora por completo este worldbuilding porque, afirmam, "ninguém quer saber disso", embora nos atire com nomes aleatórios como a megacorporação Miraido, que criou a rede de transporte hipersónica VACTRAIN. E assim o cumprem: tão rapidamente começava o jogo como já era atirado aos tutoriais desta vida, com tudo à minha volta destruído sem razão aparente, e sem qualquer contexto! E nem precisamos, este é um jogo para ser puramente divertido e sem grandes focos numa narrativa pesada, ou assim o afirmam.
Um jogo pelas mãos do estúdio indie Undercoders, com o suporte da Fireshine Games para nos trazer algo de especial e diferente, divertido, com um espírito muito arcade que muitos associam até mesmo a consolas como a SEGA Dreamcast, que tentou trazer este estilo de jogos a uma consola doméstica. Não é uma referência do nada, até porque é impossível dissociar este jogo de Jet Set Radio, e caso houvessem dúvidas há um par de músicas, além da direção artística recheadíssima de pormenores que gritam "Japão". dos caracteres japoneses constantemente presentes no ecrã, às cores vivas e efeitos cromáticos que nos transportam às salas de jogos em Tóquio repletas de luzes néon, entre outras coisas que me levaram logo para esse clássico da SEGA, cujo regresso peca pela demora, mesmo que tenha preenchido agora um pouco o vazio deixado por ele, agora com Denshattack!
Tudo resulta numa espécie de mistura de várias coisas, com essa direção artística e banda sonora ao bom estilo Jet Set Radio, que teve um encontro com um estilo de jogo à Tony Hawk's Pro Skater, com truques a serem executados como se estivesse a jogar um Street Fighter. Injeta-se uma história que mais parece o plot de Scott Pilgrim ou até mesmo Hi-Fi Rush, acompanha-se de muita cultura japonesa e um certo de loucura e aleatoriedade que mais depressa encontramos em Katamari Damacy, e ficamos com o belo resultado que é este jogo! Uma aventura que começa com Emi, uma simples estafeta que andava a entregar ramen em distâncias um pouco exageradas, mas isso também é meio que irrelevante para a história.
Denshattack! não é uma mixórdia de conceitos, muito pelo contrário: o jogo apresenta-se com a ação frenética de um jogo de truques, em muito semelhante a qualquer Tony Hawk's Pro Skater ou SSX, com liberdade reduzida e muito on-rails. No bom sentido da palavra, pois grande parte do jogo (não toda) é feita sobre carris de comboio, e nisto até me lembra do icónico Hugo (o da televisão)! É absurdo aquilo que conseguimos fazer com a nossa carruagem de comboio, dos saltos constantes aos desvios de eminentes perigos como fim de linha, paredes ou qualquer bloqueio, um simples saltar inicia uma cadeia de combos que podemos livremente fazer no ar, de forma a pontuar o melhor possível.
Denshattack! não é uma mixórdia de conceitos, muito pelo contrário: o jogo apresenta-se com a ação frenética de um jogo de truques, em muito semelhante a qualquer Tony Hawk's Pro Skater ou SSX, com liberdade reduzida e muito on-rails. No bom sentido da palavra, pois grande parte do jogo (não toda) é feita sobre carris de comboio, e nisto até me lembra do icónico Hugo (o da televisão)! É absurdo aquilo que conseguimos fazer com a nossa carruagem de comboio, dos saltos constantes aos desvios de eminentes perigos como fim de linha, paredes ou qualquer bloqueio, um simples saltar inicia uma cadeia de combos que podemos livremente fazer no ar, de forma a pontuar o melhor possível.
Não é um jogo difícil, muito pelo contrário, o jogo é fácil, talvez até mesmo demais, pois não temos como perder. Todos os nossos erros levam-nos a voltar um pouco atrás, em que por norma podemos demorar o tempo que quisermos para acabar cada um dos níveis, mesmo que estejamos constantemente a "morrer". Dito isto, em todo o jogo estava constantemente a ser penalizado pelos meus erros, nem tanto pelas falas das personagens que acompanham Emi na sua demanda por ser a melhor, e mais incrível, Denshattacker. A dificuldade está em pontuar da melhor maneira possível, com um encadeamento de diferentes truques quase sem falhas, ao mesmo tempo que apanhamos tudo o que é colecionável, e é aqui onde entramos verdadeiramente no jogo.
É que se há coisa que não falta em Denshattack! é desafio, não para concluir o nível, mas sim para não passar vergonha em ver uma horrível medalha de bronze que nos é apresentada no ecrã quase como desprezo. Não, aqui procurava ter boas pontuações, senti-me na obrigação (autoimposta) de ter um bom score, fruto do meu esforço e perícia em ter conseguido uma prova bem sucedida, com uma boa dose de truques em vacilar, no menor tempo possível, pois tudo se resume a pontuar o máximo possível, no menor tempo gasto para concluir o nível. Repito: não é necessário, mas o jogo incentivou-me a ter uma boa pontuação, para não passar vergonhas.
O problema é que o Denshattack! consegue ser mais complexo do que devido, ou assim tenta com a panóplia de diferentes combinações possíveis para efetuar com o analógico para tudo o que é truque. Nem tanto por serem difíceis de memorizar porque são, mesmo com a lista de movimentos sempre à mão, mas é muito fácil não acertar num truque, pois era demasiado semelhante a outro, e na pressão do momento várias eram as vezes em que simplesmente não saía algo em condições. Entre quartos de círculos, mudanças de direção instantâneas, voltas inteiras com o polegar, tudo o que podem imaginar de movimentos que mais parecem retirados de um Street Fighter. O pior é que isto tem de ser feito em cadeia, para uma boa dose de truques, no curto espaço de tempo que a nossa carruagem estava no ar, para depois aterrar direito. Decorar tudo, ou tentar decorar os diferentes truques resulta numa tarefa ingrata, e honestamente limitei-me a usar uns cinco truques e manter-me com eles, do que estar num microssegundo a pensar "qual o melhor truque para usar neste salto?".
Claro que é uma questão de prática, mas não há propriamente muito que o jogo ofereça para conseguirmos usar mais e melhores truques, pois eles estão lá desde o início e temos de nos habituar. Isto, enquanto temos de movimentar-nos das mais diferentes maneiras dependendo do carril (ou a falta do mesmo) onde estamos, e com umas buzinadelas de vez em quando. É gratificante quando conseguimos ver a nossa pontuação atingir valores altos, mas o processo até lá, ou até me habituar efetivamente aos controlos do jogo, era como aquele velho desafio de sincronismo em que coçamos a cabeça, ao mesmo tempo que esfregamos a barriga em círculo, com mãos diferentes.
Porque se há coisa que não falta são, efetivamente, truques e habilidades, coisas que me prenderam no sofá com olhos bem atentos a tudo o que se passava, deixando-me extremamente focado no jogo: entre o andar nos carris, o desvio do perigo, os saltos constantes e até correr parede fora, o aproveitar de áreas imagináveis em pleno ar, os drifts em tudo o que é curva para um satisfatório boost quando a curva é feita na perfeição, o equilibrar a carruagem em tudo o que é canalização. Tudo no jogo é o nosso parque de skate, por assim dizer, e tudo nos dá pontos se não fizermos asneiras, e aqui Denshattack! é um autêntico fogo de artifício de coisas a acontecer!
Entre as muitas e várias dezenas de níveis, à medida que avançava Japão fora e enfrentei gangues que me queriam destruir (porque sim, porque nós nos metemos com eles nos seus territórios), há imensa variedade das coisas que acontecem no jogo todo. Mesmo os níveis mais normais surpreendem muito, como logo no início tanto num segundo estava normalmente em carris como era rapidamente colocado numa roda gigante, a andar água fora, e isto é só mesmo uma breve amostra da loucura que me esperava no resto do jogo! Creio que o combate contra um robô gigante, resultado de uma união de comboios à Power Rangers, não precisa de quaisquer apresentações: o que não contava era o quão incrível foi todo esse momento, deixando-me não só a querer mais daquilo, como curioso com o que raio esperava-me no futuro.
E quem diz este boss diz muitos outros, para um jogo que podia simplesmente ser um novo Jet Set Radio ou SSX Tricky, mas com comboios, quiseram mesmo trazer algo especial e dar all in no bizarro e loucura possível, captando muito da essência de jogos loucos que o Japão muitas vezes nos trouxe ao longo de gerações, mesmo que este seja um jogo feito aqui no país vizinho, em Barcelona. Do voice acting que podia ser em maior quantidade, admito, aos visuais que me levou de novo aos inícios dos anos 2000 quando o cel shading era a moda mais recente, passando ainda pela banda sonora composta por David Jaumandreu, que conta ainda com a participação do português Tee Lopes, a apresentação resulta num trabalho incrível, que me deixa curioso por ver o próximo projeto que sairá deste estúdio!
O resultado nem é um jogo longo, embora tenha sido bem mais longo do que esperava, e isto sem contar com a replayability que Denshattack! convida a explorar, entre apanhar os imensos colecionáveis, obter boas pontuações e comprar imensas opções de personalização para a nossa carruagem de comboio. Temos ainda de desbloquear mais informações sobre o passado e história das várias personagens que existem e nos acompanham, num gangue que Emi vai ganhando membros, entre o respeito de todos com quem se cruza, e incluo aqui personagens memoráveis que surgem em determinados capítulos, mas por lá ficam.
Denshattack! atirou-me assim para as viagens de comboio no Japão, é pura adrenalina sobre carris, que apresar de ir buscar referências e jogabilidade a variados jogos e séries, acaba por resultar num título com uma identidade bem própria! Cumpriu bem as minhas expetativas, é um jogo extremamente divertido e longo o suficiente, com imenso replay value se quisermos dedicar o nosso tempo a conseguir as melhores pontuações, e apanhar tudo o que é colecionável, com um bom sentimento de arcade dos inícios dos anos 2000, como aconteceu com vários jogos que joguei no verão em que tive a minha SEGA Dreamcast. Coisas que fazem com que não o consiga largar tão cedo, seja pelos scores, seja pelo que tenho ainda por apanhar!
Jogo este que entra também check naquilo que é a minha lista pessoal de jogos diferentes, bizarros, por muitos considerado até mesmo estranhos, colocando-o ao lado de jogos da série Katamari Damacy, outros mais recentes como Rhythm Paradise Groove, ou até mesmo aqueles há muito esquecidos, como Let's Tap ou Muscle March, ambos que devem ficar presos na biblioteca da Nintendo Wii, para muita pena minha. Se foram (ou são) fãs de alguns destes jogos, abracem o aleatório fascinante que é Denshattack!, que não se vão arrepender!
Nota: Análise efetuada com base em código final do jogo para a PlayStation 5, gentilmente cedido pela Jesus Fabre.












