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26 de outubro de 2017

Super Mario Odyssey

O canalizador mais famoso do mundo está de regresso e estreia-se na Nintendo Switch com aquele que promete ser um dos títulos marcantes da plataforma. Chama-se Super Mario Odyssey e leva-nos a explorar o mundo além do Reino Cogumelo a que estamos habituados, acompanhado de um novo personagem que lhe confere o poder de controlar certos inimigos e objectos. Esta aventura será muito mais do que uma volta ao mundo, mas estará à altura de odisseias passadas?

Em Super Mario Odyssey regressamos ao estilo "sandbox" utilizado nos jogos Super Mario 64 e Super Mario Sunshine. Iremos explorar mais de uma dezena de reinos diferentes e, em cada um deles, dezenas de Power Moons (luas) para encontrar. Cada reino pode ser explorado livremente sem interrupções, pelo que após encontrar uma lua simplesmente continuaremos em direção à seguinte. Desta vez, não temos um mundo principal mas sim um meio de transporte entre mundos: a nave Odyssey, a partir da qual é possível marcar um destino e viajar para outro reino.

Tudo começa quando Bowser decide raptar mais uma vez a Princesa Peach, desta vez determinado a casar com a mesma. Mario tenta resgatá-la, mas sofre um ataque que o deixa KO num local desconhecido. Estamos em Bonneton, longe do Mushroom Kingdom, prestes a iniciar uma aventura diferente de qualquer outra. O reino inicial é um tutorial disfarçado, onde aprendemos os movimentos básicos do Mario e do seu novo companheiro Cappy, um chapéu fantasma que confere a habilidade de "capturar" inimigos e objetos. Aqui ficamos também a conhecer os Broodals, uma misteriosa trupe de coelhos casamenteiros que está a espalhar o caos pelo mundo, assaltando vários reinos para organizar a mais impressionante boda de sempre. A Peach não merece isto! Mario não pode ficar parado, por isso parte em perseguição a Bowser e aos seus capangas.


É garantido que ninguém joga um Super Mario para ver a história, mas em Odyssey esta tem uma presença bastante superior ao habitual, servindo de mote a avançar na aventura. Embora cada reino seja um pequeno mundo "open world" com imensas luas para encontrar, a história principal leva-nos a fazer uma sequência que é um verdadeiro parque de diversões. É importante referir que a sequência proposta é completamente opcional: em cada reino, será necessário apenas recolher um certo número de luas para dar energia à nave e poder avançar para o reino seguinte. Da mesma forma, é possível viajar entre todos os reinos desbloqueados conforme apetecer.

Não há uma fórmula ou uma maneira "certa" de jogar Super Mario Odyssey. A história consegue capturar a nossa atenção graças a um ritmo constante de surpresas e recompensas, pelo que será provável simplesmente segui-la e deixar a exploração para depois. Por outro lado, a vertente colecionista poderá também fazer os jogadores prolongar a sua estadia nos diferentes reinos antes de decidir avançar com a história. O único requisito para avançar é um número mínimo de luas por reino, o resto é conforme apetecer ao jogador. No entanto, há muito para nos prender à história, incluindo os fantásticos bosses que encontramos pelo caminho.

No meu caso particular, dediquei as primeiras 12 horas de jogo a seguir a história de objetivo em objetivo com apenas alguns desvios. De lua em lua, surpresa em surpresa, até ver os créditos finais. As 20 horas seguintes foram passadas a explorar a fundo os diferentes reinos. No momento de escrita desta análise, conto com mais de 500 luas reunidas e mais de 300 por encontrar, restando-me agora os níveis mais difíceis. É como se tivesse tido três jogos diferentes em simultâneo: uma empolgante história linear à "Super Mario Galaxy", um jogo de exploração à "Super Mario Sunshine" e um jogo de plataformas "hardcore" a guardar as luas finais. O mais surpreendente? Com mais de 30h e 500 luas, ainda não consegui sequer ver todas as transformações possíveis do Mario no sistema de capturas nem ouvir todos os temas da banda sonora (que vão sendo desbloqueados conforme são tocados no jogo).


Há imensa coisa para ver e fazer neste jogo. Cada novo local é uma revelação, com um novo conceito, estrutura e até mesmo estilo artístico. Se o Cap Kingdom remete para a imagética de Tim Burton, o Metro Kingdom é inspirado na Nova Iorque dos anos 50 e o Wooded Kingdom apresenta uma floresta verde num cenário enferrujado. Há mundos enormes e outros mais pequenos, variando também a extensão de conteúdo para descobrir no seu interior. O jogo raramente recorre duas vezes ao mesmo truque e, embora existam por vezes versões mais difíceis de desafios já vistos, estas irão obrigar também a repensar a sua abordagem. O jogo tenta surpreender constantemente o jogador, seja pelos mundos que vai encontrar, como pela variedade de coisas que terá para fazer em cada um deles.

Sendo inspirado na temática de viagens, acrescentou ainda um sistema de souvenirs que permitem personalizar a Odyssey. Estes podem ser comprados apenas com as moedas específicas de cada região, pelo que o jogador terá de as encontrar a todas se quiser completar a coleção. Por outro lado, é possível comprar luas na loja para avançar mais rapidamente na história e chegar a novos mundos. Esta compra aumenta efetivamente o número total de luas, mas não marca como encontrada nenhuma lua que esteja em falta, pelo que tal não servirá de batota para completar níveis mais difíceis.

A mecânica de capturas contribui imenso para o nível de criatividade empregue no jogo. Substituindo os tradicionais power-ups, agora o Mario pode tomar controlo de diversas criaturas e objetos para efetuar ações específicas. Em Super Mario Odyssey podemos ser um dinossauro, um tanque de guerra ou um koopa troopa - há dezenas de alvos diferentes para capturar e podem ser utilizados em imensas situações. Curiosamente, em momento algum perdemos a sensação de estar a "jogar Mario". É genial! O próprio protagonista está mais atlético que nunca, com imensos movimentos possíveis e ainda as habilidades do Cappy. Para ajudar, o jogo conta com um "Action Guide" que efetivamente serve de manual de instruções para se aprender desde os movimentos mais básicos até aos mais complexos. Além disso, a cada transformação são apresentados no ecrã os controlos para as diferentes acções possíveis.


O jogo suporta vários esquemas de controlo, mas os criadores recomendam jogar-se com os Joy-Con separados para tirar partido dos controlos por movimento. Que controlos são estes? Principalmente ações do Cappy mapeadas a pequenos gestos, como um "flick" do comando para o lançar em frente em vez de premir o Y, ou um "flick" lateral dos dois comandos para fazer um spin attack. Tudo coisas que se pode fazer com os botões, mas rapidamente se torna muito mais natural com ajuda dos movimentos. Ainda assim, joga-se perfeitamente bem com a consola em modo portátil ou com o Pro Controller, pelo que fica ao critério de cada um a maneira como prefere jogar.

Por falar nos Joy-Cons, porque não partilhá-los e entrar no modo para dois jogadores? Super Mario Odyssey tem um interessantíssimo modo cooperativo onde um jogador controla o Mario enquanto o outro joga com o Cappy. Isto significa que o segundo jogador pode sair da cabeça do Mario sempre que lhe apetecer e explorar o cenário em seu redor, colecionar moedas e até capturar inimigos distantes. Durante as capturas, os controlos ficam ao encargo do Mario, mas fora disso a cooperação entre jogadores é realmente interessante, especialmente quando ambos sabem o que estão a fazer.


Se a jogabilidade é infalível, em termos visuais o jogo não fica muito atrás. Com uma enorme discrepância entre mundos, cada jogador acabará por ter os seus favoritos e aqueles que gosta menos. O cenário de New Donk City será possivelmente o mais divisivo, explorando o estilo que mais se afasta daquilo que estamos habituados a ver num jogo do Super Mario. As sequências de animação são fantásticas, personagens muito bem detalhados e um Mario bastante expressivo. E se, na TV, temos o jogo mais bonito da série até hoje, em modo portátil é impressionante ver como a experiência permanece praticamente inalterada, apenas com uma menor distância de renderização de certos elementos. A fluidez, essa, nunca é sacrificada. O jogo inclui um modo de fotografia onde é possível parar a acção, manipular a câmara e capturar os momentos favoritos, podendo até aplicar-se alguns filtros para tirar screenshots e guardar como recordações.

A banda sonora é fantástica! Pela primeira vez na história da série, decidiram incluir no jogo não só música gravada de banda e orquestra, mas também cantada. O tema "Jump Up, Super Star!", amplamente divugado na campanha promocional do jogo, é um belíssimo tema musical que se enquadra perfeitamente no cenário de New Donk City, cantado pela personagem Pauline. É impossível falar neste jogo sem passar por este reino, que é simultaneamente onde a Nintendo correu maiores riscos mas também prestou melhor tributo ao seu legado desde o original Donkey Kong. Jump, man! A verdade é que esta música tornou-se sinónimo do jogo, mesmo havendo outros temas memoráveis na banda sonora. Odyssey, ya see!

 
 

Super Mario Odyssey tem de lidar com uma expetativa tremenda dos fãs. É o melhor "Super Mario" de sempre? Super Mario Bros. ainda é visto como um dos jogos mais importantes da história. Super Mario Bros. 3 é considerado por muitos o melhor dos 2D. Super Mario 64 reinventou a jogabilidade em 3D e Super Mario Galaxy deixou o mundo de queixo no chão com as suas mecânicas de gravidade e toda a originalidade. Super Mario Odyssey vem agora estabelecer um novo standard para o que esperar de um jogo de plataformas "sandbox". Um jogo à "Sunshine" com a escola do "Galaxy", que peca apenas pela omissão de localização para Português.

É um jogo extraordinário que pode ser jogado à vontade do jogador, seja para seguir a história ou explorar livremente, recheado de surpresas ao virar de cada esquina, lua após lua. É também o Mario com mais conteúdo de sempre, com mais de 800 luas para encontrar. Adicione-se à lista as moedas roxas de cada reino e teremos facilmente mais colecionáveis para angariar do que em The Legend of Zelda: Breath of the Wild! Jogos sem comparação possível, claro, mas o número serve para ter uma ideia do quão densa é esta odisseia. Sem falar na quantidade de fatos desbloqueáveis para o Mario, capturas possíveis e souvenirs...


Há uma nova referência para os jogos de plataformas. Em vez de mostrar desgaste, Mario mostra uma enorme capacidade de se reinventar e surpreender, indo a lugares e assumindo formas nunca antes vistas. Em momento algum trai a sensação de que estamos a jogar Mario, mesmo quando à nossa frente está um dinossauro com bigode. Pensava-se que, depois de Super Mario Galaxy, seria difícil aumentar a fasquia no que diz respeito a impressionar os jogadores.

Eis, então, Super Mario Odyssey!


Nota: Esta análise foi efetuada com base em código final do jogo para a Nintendo Switch, gentilmente cedido pela Nintendo.