Marvel's Wolverine
Se há algo que a Insomniac Games tem conseguido trazer à PlayStation de forma exemplar são experiências incríveis! Seja o lançamento do primeiro Marvel's Spider-Man, ou demonstrado o potencial da PlayStation 5 com Ratchet & Clank: Uma Dimensão à Parte, este que ainda hoje é dos jogos mais impressionantes que a consola teve. Seja pelo Marvel's Spider-Man 2, ou simplesmente pelo jogo dedicado a Miles Morales, eles sabem pegar no material de origem e honra-lo como deve ser. Não é de estranhar que, com o anúncio de Marvel's Wolverine, as expetativas seriam altas, mas estava confiante que iriam trazer algo, novamente, incrível!
Eis o novo grande lançamento PlayStation que nos leva ao fantástico mundo da banda desenhada da Marvel, explorando agora um universo que sou fã de longa data, bem mais do que Spider-Man ou qualquer outro universo, ou até mesmo comparando com muitos super-heróis que vimos receber no cinema, ao longo de décadas. X-Men foi um fenómeno cultural, das pequenas comics que encontrávamos nas tabacarias, à série de animação com o mítico "Xis Men" que soava, anunciando um novo episódio (estivesse ou não por ordem). Um universo que adoro, que tenho os meus mutantes favoritos, tal como os vilões que fico curioso com futuras adaptações.
Mas, o que nos traz agora é um universo novo, dedicado àquele que é dos mutantes mais populares, se não mesmo o mais popular. Marvel's Wolverine, à semelhança do que aconteceu com Spider-Man não é um jogo que retrata uma história de origem: estas personagens são familiares, já conhecemos as suas raízes e, mesmo se não for o caso, somos expostos a momentos que contam e desvendam um pouco mais das personagens que temos no ecrã. Esta história começa com Wolverine, Mystique e Sabertooth numa missão de resgate para salvar Nathaniel Essex, personagem essa bem familiar cujo alter-ego é bem conhecido, mas prefiro não revelar o seu nome.
Somos logo expostos à ação, uma sequência de momentos que nos coloca tudo à frente, de forma clara: os Mutantes são escassos, perseguidos, e há um nome (também ele familiar) que quer aniquilar todos eles, Bolivar Trask. Logo na primeira hora fui exposto a vários nomes conhecidos, a enredos familiares e uma temática já explorada nas comics. Em simultâneo era apresentado à jogabilidade, em minutos aprendia os principais truques e habilidades de Wolverine, e o tom que me seguiu até ao fim da aventura: sangue, muito sangue, e muitos desmembramentos à mistura! Temos logo um bem conhecido vilão no arranque da aventura, Omega Red, que sem dúvida me deixou feliz porque "oh, um novo jogo dos X-Men!" mesmo que seja dedicado apenas a um mutante.
Contrastando com o que havíamos visto em Spider-Man, que respeita a velha norma que "o aranhiço não mata ninguém", Wolverine não deixa ninguém vivo. Tudo é um alvo a abater, e equipado com um par de garras de adamantium (tal como o resto dos seus ossos), uma força descomunal e o seu poder mutante de regeneração quase instantânea, aliado à sua resistência sem igual, o nosso furioso protagonista avança de inimigo em inimigo. Seja um simples espetar das suas garras, cortar até à morte que pode, ou não, envolver belos desmembramentos ou decapitações, o jogo abraço o tom mais violento, sangrento e impiedoso que caracterizam tão bem o protagonista. Honestamente, até mais que várias das suas outras representações, que não podiam mostrar uma gota de sangue, o que é ingrato atendendo que Wolverine é uma arma de guerra.
Violento, algo simples, mas profundo o suficiente para tirar partido de combos e diferentes habilidades que vamos aprendendo à medida que subimos de nível. Há ataques a defletir, ou desviar, há movimentos para tirar partido do descuido dos inimigos, ou até mesmo apanhá-los desprevenidos para os matar imediatamente, para depois saltar para o próximo inimigo e repetir a dose de sangue. Wolverine não tem itens para curar, isso é feito através de alguns ataques ou até mesmo, ao perder a vida toda, se a nossa barra de fúria está cheia o suficiente temos mais uma hipótese, como se fosse uma vida extra. Esta barra de fúria também resulta num estado selvagem de Wolverine, facilmente matando tudo o que lhe aparece pela frente, algo que até está bem retratado na história do jogo, sem querer revelar muito mais. Há habilidades ocasionais, como poder aquecer as garras através de "barris" estrategicamente colocados nos locais mais bizarros, mas bem úteis, pois conseguimos derrotar os inimigos mais facilmente, durante algum tempo.
Tudo resulta numa jogabilidade divertida, viciante, talvez quase visceral e não escondo que senti muita gratificação quando via Wolverine violentamente a cortar inimigos aos pedaços, ao mesmo tempo que ele próprio ficava em carne viva! Não há tempos mortos, a ação decorre seguida tendo um bom equilíbrio entre momentos de porrada e os de narrativa, apesar de algumas falhas que já vou apontar. Há falas que surgem, que embora sejam irrelevantes para o desenrolar do jogo, parei sempre para as ouvir por interesse, e por querer saber mais dessas personagens. O mesmo digo de Wolverine, neste caso Logan, cujo passado vai sendo revelado aos poucos, embora a desculpa da amnésia irrita-me, até porque desde o início do jogo é repetido que ele não se lembra do passado.
Visualmente exemplar, todos os cenários parecem ter sido detalhados minuciosamente, transportando-me facilmente para dentro do jogo. Tudo isto numa PlayStation 5 base, priorizando a performance e não os visuais, que sinceramente estão excelentes de qualquer forma. Wolverine, esteja ou não de uniforme, fica completamente destruído, cortado, com a roupa toda rasgada e assim se mantém, sendo só estranho como magicamente tudo volta ao normal assim que houver uma cutscene (algo que é explicado no jogo, atenção, mas estranho na mesma). Temos o modo de fotografia bem presente, que não explorei a fundo admito, mas facilmente conseguimos tirar belas fotos, pois os cenários, e o detalhe das personagens, convidam-nos muito facilmente para o fazer. Sonoramente não há muito a indicar, talvez de realçar o tema de Essex que sempre que tocava, contava logo com a presença dele. Ainda sobre mecânicas, há um bom trabalho de acessibilidade presente no jogo, com dicas visuais, sonoras e até mesmo a própria vibração do DualSense a contribuir para uma perceção mais clara do que acontece no jogo.
Um jogo com um foco enorme na história, nas suas personagens, o que não choca, pois basta olhar para os Spider-Man, fundamentais para que este jogo existisse. Embora se chame Marvel's Wolverine, este é um jogo sobre Logan, e praticamente não o vemos usar o seu alter-ego: o próprio fato, icónico, que vemos em todo o lado é escasso no jogo, surgindo muito esporadicamente em toda a aventura, e algumas dessas vezes do nada. Logan surge quase sempre vestido casualmente à medida que avançamos entre locais, e honestamente gostava de ter muito mais Wolverine neste jogo. Atenção, digo isto porque deixei que o jogo escolhesse os fatos, porque a qualquer momento podemos alterar os fatos que Wolverine equipa, e aí há uma boa dose de amarelo (e não só) para equipar.
Ao lado de Logan temos outras figuras bem conhecida dos X-Men como Mystique (Raven) e o grande arqui-inimigo de Wolverine, Sabertooth (Victor), que aqui surge mais como rival com quem temos uma constante troca de socos e palavras. Mais presentes temos Jean, a famosa mutante de poderes psíquicos que, por norma, é colocada ao lado de Cyclops (Scott), mas aqui surge como principal parceira de Logan, uma personagem que se desenvolve imenso e temos sempre ao nosso lado. É ainda o grande interesse romântico, o que não é descabido: nas comics, Logan e Jean já se envolveram umas quantas vezes, e acreditem, o modo como resolveram aí o triângulo amoroso entre Logan, Jean e Scott é, minimamente, peculiar. Em parte, felizmente Cyclops não está presente neste jogo.
Trask surge como o primeiro grande inimigo a surgir do jogo, o seu ódio por mutantes e a criação dos Sentinels são fulcrais para o desenrolar da história, que pelo meio se transforma num combate entre Trask e Essex: o primeiro quer aniquilar todos os mutantes, explorando o porquê dos seus poderes à medida que os disseca. O segundo quer salvar os mutantes, e despertar os poderes dormentes daqueles que o são, mas ainda não manifestaram os seus poderes. Sem revelar muito, é extremamente previsível o decorrer da narrativa, se no primeiro Marvel's Spider-Man tínhamos Dr. Octavius a começar como alguém de respeito, revelando-se vilão, essa mesma estrutura é aqui presente. Até porque Essex não é propriamente subtil nas suas ações, nos seus diálogos, e basta conhecer a personagem em si (que até foi anunciado para o próximo filme dos X-Men) para perceber o rumo do jogo.
Há outras personagens à mistura, Deathstrike e a organização Hand têm um papel bem presente no jogo, que tal como os Reavers e Sentinelas são os nossos principais inimigos para enriquecer os combates. Se há algo que valorizo muito em Marvel's Wolverine é, não só a presença de imensas referências a muitas personagens dos X-Men, pequenas dicas feitas a pensar nos fãs, como a aposta que tiveram no jogo procurando aqueles que nem são tão conhecidos, ou populares. Temos os Murlocks, mutantes que não surgem com este nome no jogo, mas são um grupo de personagens desconhecidas, de segundo ou terceiro plano, que têm algum destaque aqui. Temos vários nomes de personagens que, muito provavelmente, será preciso procurar por quem são, e mesmo após os ver, muitos vão ser aqueles que continuam sem os conhecer. Num universo tão grande como os dos X-Men, gostei de ver este destaque naqueles que são desconhecidos. Mesmo Walter, personagem de muito destaque e fundamental para a história, é bastante desconhecido.
E, aqui, surge uma das minhas principais críticas ao jogo, se não, a maior até! Marvel's Wolverine desperdiça muito do potencial que tem. De missão em missão via um ritmo apressado, muitas vezes sem grande ligações entre momentos, ou era logo transportado para um novo local e lá continuava a estrutura do jogo. Mas, nenhum dos sítios que atravessei foi aproveitado, ficando genuinamente desconsolado porque queria explorar mais, e não ter a experiência linear que o jogo apresenta. Seja por Lowtown, seja por Tóquio, seja pelos outros locais que atravessamos, tão ricamente detalhados cheios de pormenores que convidam à sua exploração, nunca havia nada que me recompensasse a curiosidade. Fora alguns itens escondidos, que mesmo assim são muito poucos quando comparando com a lista de coisas que podíamos fazer em qualquer um dos três jogos de Spider-Man, não tinha nada que motivasse a exploração, tendo também nos locais um desperdício tremendo do que poderiam ser breves hubs, seja para andar por lá, seja para missões secundárias (que não existem, de todo), seja para conhecer melhor as personagens que nos acompanham.
Pegando ainda nos jogos do aranhiço, algo que gostava deles eram a forma como as missões secundárias davam vida a Nova Iorque, como nos levavam a conhecer melhor os protagonistas e quem está por detrás da máscara, mas realço o quão bem estavam inseridas no jogo. Em Wolverine as missões secundárias não existem, ou melhor, há pequenos desafios que surgem nos cenários, que somos guiados até lá através de raízes em nada subtis, para nos dar a conhecer um pouco melhor Logan, e a sua história. Estes momentos são, bem, estranhos: são memórias, mas colocam Logan a lutar contra ondas de inimigos, ou levam-nos para uma espécie de jogo de plataformas que, por algum motivo, é uma representação do desafio que Logan tinha de ultrapassar. Até isto é completamente desconexo, eram locais "mágicos" completamente deslocados de onde estava, que depois dava um texto narrado para descobrir o passado do herói detrás da máscara, ao concluir o desafio.
Mas, é estranho: por um lado quero mais, mas por outro houve momentos em que esticaram demasiado, como a presença da organização Hand tomar conta de grande parte do jogo. Incoerente? Provável, mas o que queria era ver mais personagens a serem exploradas, mais momentos que desenvolvessem o jogo, e não mais sequências de perseguição ou luta porque sim, contra ninjas. Há partes do jogo em que não desculpo, cenas que surgem do nada sem preparação, como se a história fosse contada aos tropeções sem o build-up devido. Ou, depois, há partes em que prolongam o óbvio demasiado tempo, ao ponto que no momento em que há uma revelação, só exclamava "porra, aleluia!". É mesmo o sentimento geral que tenho com o jogo, que havia muito a explorar que não foi feito.
Com isto não quero dizer que preferia um open-world à Marvel's Spider-Man, lido bem e honestamente até prefiro experiências mais lineares, mas gostava muito que houvesse algum sumo nos locais que atravessamos, que tirassem partido dos cenários e das suas personagens, que cada local não fosse um resumo de momentos de luta, história e perseguição (algumas delas numa moto), repetindo a mesma fórmula do início ao fim. Mesmo os bosses são escassos, e dentro do que temos no jogo podíamos ter bem mais, desperdiçando ali uma ou outra oportunidade de combates memoráveis. Pois, muitos destes combates são épicos, a luta contra o protótipo de Sentinela está incrível, e quero mais disto! Tive mesmo um sentimento de potencial desperdiçado do início ao fim, num jogo que merecia bem mais, mesmo que ainda dure umas boas horas até à sua conclusão, dentro daquilo que esperava.
Cada personagem está bem retratada no jogo, construidas ao bom toque do que a Insomniac Games sabe dar, com personalidades bem definidas e fieis ao material de origem. Não, não são uma réplica das personagens que encontramos nas comics, mas até essas já tiveram imensas variações. Mesmo as histórias não seguem à regra tudo o que possa conhecer delas, mas ainda assim, tentaram respeitar o melhor possível as origens. Há umas quantas surpresas pelo meio, momentos marcantes que definem a história e levavam-me a querer saber o que aconteceia a seguir, e ver uma ou outra personagem motivava-me!
Os atores que deram a voz (e vida) às personagens estão de parabéns, principalmente Liam McIntyre que retratou tão bem Wolverine, que inicialmente tinha algumas reservas, mas estou bem satisfeito com o resultado final, embora tenha ficado algo saturado de ver Essex ser, literalmente, Troy Baker a ser... Troy Baker. Quanto às vozes em português, do que joguei estão muito bem conseguidas, num trabalho que já é habitual nos jogos da PlayStation, que embora não tenha jogado com as vozes de cá o tempo todo (e deixo à surpresa os atores escolhidos) é um excelente trabalho de localização de forma geral.
Marvel's Wolverine foi uma aventura, uma longa espera que termina agora, que me deixa agora a querer mais daquele universo, em que ter algum conteúdo adicional lançado a expandir a história era muito bem-vindo! Há muito que quero ver explorado aqui, é jogo que o mais certo é jogar e desfrutar dele novamente no futuro, mesmo que tenha ficado com algum sentimento de desconsolo. Há mais história que merece ser desvendada aqui, muitas dicas que ao longo do jogo nos são dadas, numa espécie de promessa que iremos ver mais Wolverine e Logan, com o regresso de certas personagens e, muito provavelmente, a adição de muitas mais!.














