Mina the Hollower


Quando em 2014 Shovel Knight era lançado, muita coisa mudou! Um jogo desafiante, que abraçava o aspeto retro dos jogos ao estilo 8-bit que viria a criar todo um trend de muitos outros que se seguiram, havia interesse por parte do público em jogos do género. Mas, o aspeto era apenas um dos pontos que me agarrou ao jogo, sendo que foi o desafio oferecido quem me levava a jogar nível após nível, juntamente com um leque de personagens interessantes, mesmo que simples bosses, estava sempre curioso com o que se seguia.

Foi o jogo que catapultou a Yacht Club Games para o estrelado, tornando-se num estúdio indie de renome, que ao longo dos anos foi relançando Shovel Knight, juntamente com conteúdos adicionais para o jogo, entre uns quantos jogos do universo. Um estúdio que acompanhei desde então, e que com o anúncio de Mina the Hollower há uns bons anos, esse passou a ser um dos jogos que mais aguardei desde então!


"Finalmente um novo jogo", pensava, até porque por muitos spin-offs que fossem, traziam sempre Shovel Knight associado: pelo meio distribuíram Cyber Shadow, mas não era um jogo feito pelo estúdio. Mina the Hollower segue os passos de apostar em algo retro, abraçando agora o estilo visual e sonoro mais próximo de uma Game Boy Color, mas com a resolução, entre muitos outros toques que o tornam num jogo moderno, capaz de apelar tal como Shovel Knight o fez. Pelas palavras do próprio estúdio, se o primeiro jogo era uma espécie de Super Mario, este seria um The Legend of Zelda, mas dos clássicos. Apesar da palete de cores reduzida, a direção artística brilha e apresenta muito detalhe em todos os momentos do jogo, quer nos cenários, quer nas ilustrações pixelizadas que surgem recorrentemente, bem mais animadas e imersivas do que aquilo que podemos encontrar na clássica consola portátil da Nintendo.

Mina é uma jovem aventureira, uma Hollower, que se encontra numa missão para salvar uma tenebrosa ilha, assombrada por tudo o que há de mau. Lá encontra rostos familiares, a sua fama precede-a e não é preciso muito para ficar o plano traçado para avançar pelo mapa a enfrentar tudo o que é inimigo, abraçar o desafio e salvar a região. É um jogo ao bom estilo clássico, afinal, não precisa de grandes enredos, embora conte com uma história com diferentes personagens e bastante diálogo, nos escassos momentos que fazem avançar a história. Na prática, é mesmo um The Legend of Zelda e por muitas vezes sentia estar novamente agarrado à minha Game Boy Color em Link's Awakening DX.


A exploração é convidada pelo sentido de descoberta, sem grandes auxílios em que, simplesmente, avançava ilha fora sem grandes instruções. Por vezes perdia-me, que com por vezes era mais frequente do que quero admitir, acontecendo recorrentemente não ter a certeza para onde é que tinha de ir, com masmorras (algumas delas disfarçadas) a aparecerem porque lá havia seguido o caminho certo. O jogo tem um mapa bem extenso, com zonas bem distintas entre si o que me ajudou imenso a criar um mapa mental, lembrando-me bem de sítios que não havia conseguido chegar, por não ter aberto caminho ou por me faltar a habilidade, ou o item que me permitia explorar mais.

Mas, há algo que não contava nada quando arranquei nesta aventura: este é um soulslike. É desafiante, por vezes muito, com uma bela quantidade de bosses com alguns deles a tirar-me do sério. Também tal como em Shovel Knight, ou à semelhança dos souls, ao perder ficavam os pontos de experiência no local da morte, ou no inimigo que me havia derrotado, precisando de os recuperar. Pontos de experiência estes que também usamos para adquirir novos itens, melhorias, chaves para abrir caminho, entre outras coisas. Há anos que pedimos um novo Bloodborne e Mina the Hollower até oferece algo do género, com o belo toque vitoriano e soturno que o jogo da FromSoftware nos deu. Mesmo o modo como recuperamos vida não é convencional, temos umas poções sim, mas temos de dar dano nos inimigos (ou apanhar flores) para que esse item efetivamente cure, e levar dano reduz o efeito dessas mesmas poções.


É mesmo, mesmo um jogo viciante pelo desafio que é apresentado, sendo que podem ajustar a dificuldade, convidando a todos os jogadores poderem explorar sem grandes problemas. Tal como em Shovel Knight, irritei-me umas quantas vezes por morrer, e rapidamente voltava à ação, mesmo quando o sítio onde regressava era bem longe do local da minha morte. Apontando um problema, senti algum desequilíbrio um bom par de vezes enquanto jogava, tendo cenários em que os inimigos me destruíam com dois ou três ataques, para em seguida explorar outra região onde era eu a derrotar tudo com um ataque. O mapa é praticamente sempre livre, definimos nós para onde queremos ir, e acredito que haja uma certa ordem para seguir, pela menos na primeira vez que o jogamos.

Dito isto, as aventuras de Mina não são fixas, abrindo-se um convite a jogar o jogo várias vezes e usufruir do New Game +, sendo que o jogo até só se pode considerar efetivamente completo após o terminar uma boa quantidade de vezes. Um convite que ainda não explorei, ainda ando divertido a explorar o mapa e, apesar de já ter conhecido muita coisa, há sempre surpresas à minha espera! Joga-lo uma segunda, terceira ou enésima vez muda o jogo, tornando-o efetivamente num jogo diferente, com um cenário familiar, mas com "tudo fora do sítio", entre outros fatores. São vários os achievements no jogo que nos convidam para tal, para acabar o jogo em tempo recorde, para jogá-lo noutros modos ainda mais desafiantes. E, aqui, sei que o vou fazer: afinal foi essa a minha experiência com Shovel Knight e este novo jogo ainda me atrai mais, principalmente por ser de um género que prefiro.


Apesar disso há um ou outro elemento que senti que voltaram atrás. O leque de personagens que rodeiam Mina é bastante diverso, dos aldeões a outras personagens com bastante importância, mas mesmo estas principais estão muito aquém dos inimigos em Shovel Knight, que me marcaram, que foram tão importantes que alguns tiveram ainda direito a histórias dedicadas. Há um ou outro inimigo, ou personagens que se destacam, mas mereciam um melhor desenvolvimento, para serem mais marcantes, até porque sendo um jogo de aventura, tinha bastante abertura para tal. Mesmo muitos diálogos entre personagens tornam-se ruído, são irrelevantes, e em nada contribuem para o desenvolvimento de uma história que está lá, embora muitas vezes seja apenas pretexto para avançar. Coisas que em nada afetaram a minha experiência com o jogo, ainda assim.

Porque de resto? A exploração é incrível, as dungeons ao estilo clássico como nos The Legend of Zelda onde temos um boss no seu final, e recebemos um valioso "coração" para ter mais pontos de vida, e aqui ao concluir a masmorra éramos recompensados com cenas bastante empolgantes, por vezes mais pareciam um jogo frenético de plataformas! Em parte este jogo é uma carta de amor aos títulos mais clássicos da série da Nintendo, com bosses ou momentos que nos fazem pensar "espera, isto aconteceu em Link to the Past", ou em Ocarina of Time, ou Link's Awakening. Digo mais: este é um jogo obrigatório para os fãs dos Zelda clássicos, pois nota-se um certo carinho por esses jogos que a equipa quis transpor, dos visuais aos sons que nos recordam dos jogos da Game Boy Color, do mapa com um estilo de exploração e estrutura à Link to the Past, com a liberdade do primeiro título da série!


E há tanto, mas tanto a descobrir, segredos em praticamente todos os ecrãs, dezenas de itens que são habilidades que podemos equipar, diferentes armas para diferentes gostos, sendo que aqui a minha de eleição foi quase sempre a Nightstar, uma morningstar (ou maça de armas em português) com uma correia que permitia atacar a alguma distância. Embora simples, pela natureza retro do jogo, há várias coisas que podemos fazer. Ao invés de um metroidvania, onde aguardamos por desbloquear uma habilidade para avançar em certas partes do jogo, aqui somos convidados a pensar como usamos o nosso total armamento para conseguir ultrapassar várias barreiras. Por vários momentos usava combinações da minha arma, com os efeitos criados pelos Trinkets que tinha equipado, itens estes que são umas boas dezenas deles!

Facilmente é o jogo perfeito para jogar num hardware portátil, e embora o tenha jogado principalmente no PC, é perfeito para um Steam Deck, ROG Ally ou o Legion da Lenovo, até porque é um jogo que não exige absolutamente nada do sistema. Honestamente, anseio pelo lançamento para o poder jogar na Nintendo Switch 2, porque é o jogo perfeito para a consola, tal como Shovel Knight o foi na Nintendo 3DS na altura! O que também é um perigo, conheço-me bem e sei que vou depositar uma boa dezena de horas, talvez centenas, a joga-lo vezes sem conta num formato bem mais acessível, como é o portátil. Regra geral, tentei não apressar o jogo, fui explorando a bom ritmo e fui devidamente recompensado por isso, e é algo que pretendo fazer novamente do início, a seu tempo.


Mina the Hollower foi um dos meus jogos mais aguardados dos últimos anos, e agora poder finalmente atirar-me a fundo ao jogo tornou-se numa experiência tão gratificante, que fico curioso o que terá a Yacht Club Games em mente para expandir o seu universo. Duvido que seja ao nível de Shovel Knight com uma grande quantidade de spin-offs e DLCs, mas quero ver mais deste universo, explorarem melhor algumas personagens vitais que surgem na aventura, introduzirem novas armas e modos de jogar. Até lá? Tenho uns quantos New Game + a repetir, desafios a abraçar e uma extensa ilha a explorar a pente fino, até descobrir tudo o que o jogo tem para oferecer. E, de momento, o meu jogo favorito do ano!


Nota: Análise efetuada com base em código final do jogo para a PC via Steam, gentilmente cedido pela Yacht Club Games.

Latest in Sports