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30 de agosto de 2016

A Xbox na Gamescom 2016


Um aspecto curioso da Gamescom é a abordagem que as diferentes marcas participantes dão ao evento. Enquanto algumas se focam no mercado local, tanto a nível promocional como em termos de contacto com a imprensa, outras aproveitam a dimensão da Gamescom para fazer dela uma segunda "E3", ou uma versão europeia da mesma. Felizmente este último é o caso para a maioria das participantes e a Xbox não foi exceção.

No backstage da Xbox, tive a oportunidade de assistir a apresentações dos principais jogos anunciados nesta última E3, muitos destes já com novos desenvolvimentos desde então, e também de compreender melhor a estratégia da plataforma para os próximos tempos. Já no stand da Xbox na área aberta ao público, tive a oportunidade de experimentar vários destes jogos e ainda alguns títulos indie no âmbito do programa ID@XBOX. Em geral, fiquei muito bem impressionado com o que vi, sendo que o ReCore foi um dos meus jogos favoritos do evento - vou já explicar porquê.


ReCore

Quando foi anunciado, a afirmação de que o jogo vinha dos criadores de Metroid Prime (GameCube) deixou-me intrigado. Afinal este título não pertence à Retro Studios, mas conta realmente com vários elementos que trabalharam no jogo. Com Keiji Inafune no papel de produtor, este jogo acaba por misturar diferentes conceitos que serão bastante familiares aos fãs da Nintendo e, com isso, criar algo novo e interessante. Já publicamos uma antevisão aqui no Meus Jogos, pelo que me resta recomendar uma leitura do artigo dedicado ao jogo!


Scalebound

Este jogo da Platinum Games é um dos mais interessantes entre os exclusivos apresentados para a plataforma Xbox. Embora tenha já sido anunciado há dois anos, ainda não estava jogável na Gamescom, tendo tido uma apresentação pelo criador Hideki Kamiya dedicada a algumas novas mecânicas do jogo. Para quem não conhece, Scalebound é um jogo de ação em mundo aberto onde controlamos Drew, um humano que está vinculado a um dragão, Thuban. Uma das caraterísticas do jogo é que irá suportar multiplayer cooperativo até 4 jogadores, cada um controlando a sua própria versão de Drew e Thuban – Kamiya garante que no universo da história, isto é algo que fará sentido para os jogadores.

Na apresentação foi revelada a jogabilidade do Thuban, que não será apenas um assistente controlado por Inteligência Artificial. Drew e Thuban partilham a vida e a consciência, pelo que a qualquer momento será possível controlar diretamente as ações do dragão em vez do personagem humano. A desvantagem é que, enquanto o fazemos, o humano fica completamente vulnerável, pelo que é necessário ter muita atenção ao timing e às oportunidades para trocar os controlos. Foram mostrados alguns exemplos de jogabilidade bastante impressionantes, que utilizavam esta mecânica para criar combos fantásticos. Uma situação possível e bastante simples é utilizar o Thuban para atordoar um monstro inimigo, regressar aos controlos do Drew e atacá-lo com a espada no seu ponto fraco.

Uma caraterística interessante do dragão é o facto de poder ser totalmente personalizado, alterando os seus atributos e, consequentemente, a aparência física. Em vez de escolher uma de três categorias específicas de dragão, seja o equilibrado "Rex" ou uma criatura mais forte e lenta ou ágil e forte, será possível pegar numa destas e mudá-la completamente. O objetivo será que cada jogador o vá alterando gradualmente e adaptando-o ao seu estilo de jogo. Ficou a garantia de que cada jogador só terá um Thuban, mas o sistema de matchmaking poderá ter em conta diferentes classes para que as equipas sejam diversificadas. O jogo tem o lançamento previsto para 2017 e fará parte do programa Xbox Play Anywhere, garantindo cross-play entre jogadores na Xbox One e no PC. Estará o jogo à altura do sucesso de Bayonetta 2?


Dead Rising 4

A apresentação de Dead Rising 4 foi das mais divertidas do evento. Frank West está de volta e, com ele, uma horde de zombies à espera de serem mortos das formas mais parvas de sempre. Desta vez o tema principal é o Natal, o que permitiu diversificar ainda mais o arsenal que os jogadores terão à disposição, incluindo por exemplo um novelo de iluminação de Natal que troca de música de cada vez que é usado para dar um soco a um zombie. Aliás, os criadores do jogo reforçaram bastante o quão ridículo e divertido o jogo consegue ser, através das possíveis combinações de armas e ataques que foram introduzidas – o tema natalício só torna tudo ainda mais absurdo.

Uma ferramenta indispensável para Frank West é a sua câmara fotográfica, que está de regresso com filtros de visão noturna e sensor térmico além de, obviamente, um modo selfie para capturar aqueles momentos inesquecíveis no meio de tantos zombies. Se um jogador se aproximar discretamente de um zombie e o apanhar de surpresa, poderá até mesmo tirar uma "stelfie", fazendo uma careta para a foto antes de eliminar a criatura.

O jogo terá um modo online para quatro jogadores, com missões específicas distintas do modo para um jogador, mas não fará parte do programa Xbox Play Anywhere, uma vez que é um jogo desenvolvido pela Capcom e já se encontrava numa fase avançada de desenvolvimento quando surgiu este programa. Ainda assim, haverá uma versão do jogo para PC e Xbox One, com lançamento previsto já para o mês de Dezembro.


Sea of Thieves

É um dos jogos mais falados da Xbox e recebeu várias nomeações pela sua experiência multijogador, mas Sea of Thieves ainda tem muitas provas para dar. Descrito como um jogo de aventura em mundo partilhado, o jogo não impede ninguém de se aventurar a solo mas promove a formação de equipas em torno de um capitão. Partir para alto mar, seguir um mapa do tesouro e encontrar outros jogadores - serão amigáveis ou traiçoeiros? Sea of Thieves promete uma verdadeira "sandbox" para piratas, num mundo construído à mão numa altura em que tanto se recorre à geração procedimental.

A demo que estava disponível na Gamescom consistia puramente no sistema de combate naval, com 4 filas de PCs com o jogo todos ligados em rede, onde cada fila iria formar uma equipa. Os jogadores não têm papéis predefinidos, vão mudando de acordo com as necessidades e a comunicação é fundamental. Alguém tem de ficar ao leme, alguém tem de içar a âncora, utilizar os canhões, fazer a manutenção do casco... uma grande embarcação exige uma grande equipa. Nada da experiência era linear e nada me impediu, por exemplo, de me separar fisicamente da equipa, entrar noutra embarcação e sabotar o trabalho desse grupo.

Há imenso potencial neste título, mas ainda falta mostrar muito do que é o jogo além desta componente de combate. A exploração das ilhas, a caça ao tesouro e o sistema de comércio, para além de outras possibilidades não anunciadas. A grande dificuldade do jogo estará em captar uma audiência disposta a formar grupos grandes sob o comando de um só capitão, sem que a experiência se transforme num aborrecimento para os participantes – parece um jogo bem mais divertido quando se sai fora do guião!


Forza Horizon 3

Nos dias de hoje, estamos tão habituados a grafismos extremamente detalhados e realistas que temos tendência a desvalorizar quando nos prometem isso mesmo num jogo. Forza Horizon 3, no entanto, cumpre mesmo essa promessa com uns gráficos e cenários incríveis. A equipa de desenvolvimento passou um verão inteiro na Austrália para pesquisar e capturar imagens com câmaras HDR, um trabalho de pesquisa raro no mundo dos videojogos, mas fundamental para a forma como os visuais foram trabalhados. Os criadores orgulham-se particularmente do céu hiper realista e a forma como as nuvens e a meteorologia afectam toda a iluminação. Quem me conhece, sabe que não dou a maior importância aos gráficos, mas ver o jogo a correr com o efeito HDR da Xbox One S num ecrã compatível foi mesmo de cortar a respiração.

Mas ser "o mais bonito" não era o único objetivo desta equipa. Com Forza Horizon 3, quiseram também ter o jogo de corridas mais social e dar o controlo total ao jogador. Isto quer dizer que será possível criar e partilhar corridas "evento", com objetivos e condições específicas, fazer um poster e publicá-lo no final. Será também possível jogar online, tanto com conhecidos como com desconhecidos, independentemente da plataforma, visto que o jogo fará parte do programa Xbox Play Anywhere. A data de lançamento está prevista já para dia 27 de setembro, mas pouco tempo depois será estreado o Forzathon, uma campanha de desafios semanais com prémios exclusivos para os participantes, incluindo até novas viaturas, para manter uma comunidade activa de jogadores.


Gears of War 4

Também em destaque estava Gears of War 4, com novos inimigos e novas armas, mas a mesma fórmula de sempre. Embora o jogo tivesse suporte para 4K em PC, com um detalhe impressionante, o conteúdo do modo de campanha não podia ser mais genérico no que diz respeito a shooters. As sequências de acção, explosões, corredores e mais acção intercalavam-se sem supresa, no que aparentava ser uma fase inicial do jogo. Um pormenor interessante, no entanto, foi a criação de novos monstros que simulam o comportamento de jogadores no modo multijogador online – dizem os criadores que o objetivo é preparar os que costumam jogar a solo para o tipo de encontros que podem ter online, para que não se sintam em grande desvantagem para com os mais experientes.


Plataforma Xbox

Finalmente, um olhar para a plataforma da Microsoft, que atualmente se posiciona como mais do que uma consola. Com o programa Xbox Play Anywhere, jogar Xbox deixa de ter de ser uma coisa que se faz numa consola, podendo ser também algo que se faz no PC. Não é apenas uma questão de ter os jogos disponíveis em duas plataformas, mas tratá-las como uma só, permitindo manter a progressão de jogo e até jogar online com utilizadores tanto de consola como PC. De facto, a maioria dos jogos estavam a ser demonstrados nas duas máquinas com o mesmo comando e a oferecer exatamente a mesma experiência. Ao mesmo tempo que traz os jogos de consola para o mundo dos PCs com Windows 10, também a consola se vai tornando num PC de ter na sala ligado à TV.

A estratégia parece ser a de convencer os developers a aderir à plataforma Xbox no Windows, oferecendo-lhes a vantagem de alcançar também o segmento das consolas e utilizar funcionalidades como o cross-play, algo que não terão, por exemplo, no Steam. É também uma tentativa de tomar conta de um mercado onde, tecnicamente, já estão presentes – faria sentido que o líder do gaming no Windows fosse o detentor da plataforma, certo? Nesse sentido, têm desenvolvido bastante a aplicação Xbox para Windows 10, acrescentando um "Games Hub" igual ao da consola mas compatível até com jogos antigos como League of Legends, oferecendo um cliente de chat e comunidades Xbox mesmo que os títulos não tenham sido criados com isso em mente. A aplicação Xbox já chegou também ao Android e iOS, permitindo aceder no smartphone aos mesmos conteúdos.

Para breve, estão previstas novas funcionalidades para a Xbox (consola), como a possibilidade de ouvir música enquanto se joga, substituindo a do jogo, e novos métodos de interagir com os jogadores. A opção "looking for group" será uma forma de definir um estilo de jogo muito específico e assim preparar um jogo para aquele momento ou para mais tarde. Já os "clubs" serão comunidades com um propósito semelhante, mas de cariz mais permanente - por exemplo, um clube local de jogadores de Gears of War 4 que queiram jogar online contra os seus vizinhos. Finalmente, a "arena" será a infraestrutura da plataforma para os eSports e permitirá aos jogadores participar em torneios oficiais.

Três anos depois da consola ter sido apresentada, a mensagem da Xbox hoje em dia não poderia ser mais diferente. De máquina que queria ser tudo em um, o nome Xbox quer agora ser um em tudo, marcando presença na sala de estar, no PC e até de certa forma no telemóvel. O mais impressionante é a maneira como parece ser tão fácil agora, com o programa Xbox Play Anywhere, começar a levar jogos de consola para o PC e jogos de PC para a sala de estar, sendo este último algo que efectivamente a plataforma Steam tentou fazer sem um grande sucesso. Como sempre, quem dita as regras são os consumidores e só estes dirão se esta foi uma aposta acertada.

Para terminar, devo dizer que fiquei muito bem impressionado com a presença da Xbox na Gamescom e que me permitiu ter uma visão mais clara do que estão a fazer, depois das mensagens confusas na E3 com duas consolas anunciadas mais o programa Play Anywhere. Deixo por fim um agradecimento à equipa da Xbox em Portugal pela oportunidade de assistir às várias apresentações.