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26 de julho de 2016

Pokémon GO


A quase três semanas do seu lançamento nos Estados Unidos da América, Pokémon GO já se tornou um fenómeno a nível mundial sem precedentes. Bateu todos os recordes de downloads e levou milhões de pessoas à rua, criando um fenómeno viral sobre o qual já correu muita tinta e ainda mais há de correr. O ciclo já é conhecido: primeiro as histórias surpreendentes de como o jogo faz as pessoas sair de casa e promove a socialização, depois as histórias bombásticas sobre loucuras que alguns indivíduos cometem enquanto jogam, seguida da reunião em massa de "haters" que não compreendem o fenómeno. Pokémon GO foi muito além do espectro habitual dos jogadores - até aqueles que dizem não jogar sabem de que é que se trata, ou pelo menos têm uma opinião (bem ou mal formada) sobre o jogo. Nos próximos capítulos, os primeiros testemunhos de pessoas que já se cansaram do jogo e as estatísticas de utilização a baixar à medida que o público ocasional descobre outras diversões esporádicas. Ficam os fãs e os jogadores. Ou será que não ficam?

Não é fácil analisar objetivamente um jogo cujo sucesso está tão dependente do que acontece em seu redor como é o caso do Pokémon GO. Quando se olha para o software em si, na versão atual, parece algo básico e superficial – afinal, qual é o objetivo do jogo? No entanto, utilizá-lo implica sair de casa, explorar o meio em redor e procurar uma criatura que esteja por perto ou abastecer itens num poké stop. Pelo caminho, encontra-se outros jogadores na rua. Amigos, vizinhos, desconhecidos... "Viste o Seadra?", pergunta alguém. De repente, numa cidade onde ninguém se conhece, há desconhecidos que agora se cumprimentam, trocam experiências e comparam as suas coleções.
      
Ao iniciar o jogo, vemos a nossa localização no mapa quando nos surgem 3 pokémon iniciais. Como temos algumas pokébolas à disposição, basta escolher um deles para o ver aparecer mesmo à nossa frente, com a magia da Realidade Aumentada. Mais tarde, perceberemos que esta escolha foi irrelevante, mas no momento é uma pequena experiência que só por si já fez valer o download gratuito. O verdadeiro esforço é o passo seguinte: ficar a olhar para o mapa e perceber que há alguns pokémon perto, mas só irão aparecer se nos deslocarmos no mundo real à sua procura. Além dos pokémon escondidos, o mapa contém ainda as poké stops e os ginásios, pontos georreferenciados que normalmente assinalam algum local de interesse no mundo real.

Os poké stops servem principalmente como locais de abastecimento, onde os jogadores podem ganhar experiência e recolher gratuitamente alguns itens de bónus, incluindo pokébolas e poções adicionais. A experiência permite subir o nível de treinador, que por sua vez irá permitir encontrar criaturas mais fortes e também receber melhores bónus. Estes locais têm ainda uma funcionalidade que permite instalar módulos. Atualmente, o único tipo de módulo que existe é o Lure Module, um isco que durante 30 minutos atrai um grande número de pokémon para esse local. O efeito destes módulos é público, pelo que todos os jogadores verão a "lure" no mapa – resultando numa concentração de jogadores em torno de um poké stop.

Quando se chega ao nível 5, passa a poder-se utilizar os ginásios. Nesse momento, o jogador tem de optar pela uma equipa azul (Mystic), vermelha (Valor) ou amarela (Instinct), que não tem impacto na jogabilidade a não ser na decisão de quem serão os seus aliados e rivais. Um ginásio vazio (branco) pode ser conquistado simplesmente ao colocar um pokémon, passando assim a ser um ginásio da cor do jogador. Outros jogadores da mesma equipa poderão ir "treinar" no ginásio para subir a reputação do mesmo até subir de nível e um elemento da equipa poder acrescentar um dos seus pokémon. Já os membros das equipas rivais têm de enfrentar os pokémon do ginásio em batalha, para lhe baixar a reputação. Se vários elementos da mesma equipa lutarem em simultâneo, irão partilhar o dano causado ao adversário, tornando a conquista muito mais fácil. O ganho de experiência em treinar um ginásio é inferior ao de o derrotar, o que não incentiva os jogadores a lutar para defender um posto estabelecido mas sim a tentar reconquistá-lo depois.

O maior incentivo a conquistar os ginásios está na recompensa diária que os jogadores podem obter. A cada 21 horas, pode-se ir à loja do jogo e pedir uma recompensa pelos ginásios que se está a defender nesse momento. Assim, quando a contagem decrescente chega ao fim, o jogador é motivado a conquistar o maior número de ginásios que conseguir e em seguida pedir a recompensa pelo feito. Ao ritmo de 10 moedas por ginásio a cada dia que passa, os jogadores mais poupados podem assim acumular para depois gastar em itens e upgrades no jogo sem gastar dinheiro real.

      
Olhando novamente para estas funcionalidades, é fácil perceber que o jogo tem um esquema de interação bastante básico, ocultando mecânicas mais complexas do seu funcionamento. O mapa simplificado destaca os pontos de interesse e a utilização da câmara proporciona situações divertidas que, por sua vez, incentivam à partilha nas redes sociais. Curiosamente, é mais fácil capturar os pokémon com a câmara desligada (além de gastar menos bateria), mas ainda assim há algumas situações onde os jogadores não resistem a uma foto do pokémon no local onde foi encontrado. No futuro, estão previstas as trocas de pokémon entre jogadores e outras funcionalidades que a equipa de desenvolvimento não quer para já revelar. O que faz este jogo tão diferente dos restantes é a forma como apela ao espírito da “caça ao tesouro” que desde sempre fascinou crianças e adultos. O “geocaching” tem uma grande comunidade de fãs mas uma grande barreira à entrada, enquanto que este jogo permite qualquer pessoa que instale a aplicação entenda rapidamente como funciona.

A combinação de várias tecnologias que toda a gente já trazia no bolso com a interface simples e a poderosíssima marca Pokémon permitiu que este se tornasse um fenómeno de popularidade como nunca antes vimos num videojogo. Mais do que isso, marcou um ponto de viragem nas aplicações georreferenciadas e de Realidade Aumentada, funcionalidades que iremos ter cada vez mais presentes nas aplicações e jogos do futuro.


O efeito de novidade deste jogo poderá passar rapidamente. Mas, enquanto dura, está a formar uma das comunidades mais positivas que já se viu nos videojogos. Sim, existem jogadores idiotas e também há pessoas sem educação cívica a experimentar o jogo. Quando a "moda" passar, ficarão os fãs em busca de completar a sua coleção ou conquistar o maior número de ginásios. A diferença, é que em vez de o fazerem sentados no sofá, irão estar na rua acompanhados dos seus novos companheiros.
Nota: Esta análise foi efetuada com base na versão mais da aplicação para o Android, atualizada à data da publicação.