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4 de fevereiro de 2015

The Legend of Zelda: Majora's Mask 3D


Quando a Nintendo 3DS foi anunciada, a revelação do remake do clássico Legend of Zelda: Ocarina of Time para a nova consola com o efeito 3D estereoscópico deixou os fãs da série em euforia. Mas logo no dia que se seguiu ao lançamento, começaram os primeiros pedidos para que se aproveitasse este trabalho para fazer também uma adaptação da sua sequela, Majora's Mask, para a nova portátil. Agora que a New Nintendo 3DS se prepara para chegar às lojas, o desejo dos fãs torna-se realidade. No entanto, desta vez a Nintendo não se limitou a atualizar os gráficos, alterando profundamente uma parte da experiência. Terá valido a pena?

   

Lançado originalmente no ano 2000 para a Nintendo 64, Majora's Mask reutilizou muitos elementos gráficos de Ocarina of Time, mas foi um jogo profundamente diferente. Todo o jogo assenta numa estrutura temporal de 3 dias que se repetem vezes e vezes sem conta: no final do último dia, se Link não completar a sua missão, a Lua irá abater-se sobre Termina e os seus habitantes. Graças à Ocarina of Time (o instrumento musical), Link tem o poder de viajar no tempo e regressar ao início do ciclo, transportando consigo alguns itens importantes que vai adquirindo e lhe permitem assim progredir na aventura. Uma característica deste sistema com uma linha do tempo é que todos os personagens do jogo vão mudando ao longo dos 3 dias, reagindo aos eventos que lhes acontecem e com o quais Link pode interagir - por exemplo, a Anju nunca se irá reencontrar com o seu amado Kafei se o herói não der um pequeno empurrão nos seus destinos.

Foi um sistema único em toda a série, que fez deste um jogo muito mais focado no enredo dos personagens, embora boa parte desse conteúdo seja opcional para quem apenas queira derrotar o boss final e ver a sequência de créditos. Majora's Mask é um jogo muito pequeno para quem procura apenas um Zelda "tradicional", contendo apenas quatro masmorras para explorar, embora algumas (especialmente as duas últimas) figurem facilmente entre as melhores já vistas na série - talvez tenha sido o facto de serem tão poucas a fazer com que acabassem por ser tão memoráveis. A maior parte do conteúdo do jogo está no exterior, na interação com os personagens, aprender as suas rotinas, perceber como se relacionam e alterar o seu destino.


Tudo isto se consegue com a ajuda do Bomber's Notebook que, em Majora's Mask 3D, foi completamente reformulado. Ao conhecer ou interagir com um personagem num momento chave da sua história, o jogo toma imediatamente nota do evento na nova "agenda" que permite acompanhar todas as sidequests do jogo. O sistema mistura o conceito de quests tradicional dos RPG com o de achievements, mostrando numa espécie de to-do list todas as demandas que estão pendentes, assim como as que já foram realizadas. Na vista de agenda, é possível ver em que momentos há interações importantes com personagens e ainda marcar o alarme para lembrar de um evento à escolha. É uma facilidade que veio com o tempo e se pode questionar se seria necessária: no título original o jogo apenas mostrava um gráfico com os personagens e horários, agora até se pode ver onde estava o personagem na altura.

Não há nada do novo Bomber's Notebook que fosse impossível de implementar há 15 anos. O jogo obrigava a observar, experimentar, falhar e voltar a tentar ajudar os personagens. Com apenas um esquema simples, muitas destas interações dependiam apenas do interesse e motivação do jogador, além da sua aprendizagem do mundo em questão. O novo sistema vem facilitar bastante as coisas e incentivar a descoberta destas quests, bastante adaptado aos tempos modernos. Embora o sistema antigo fosse mais gratificante para quem investia realmente no jogo, o novo é uma grande melhoria em termos de acessibilidade e dá também maior destaque ao que é, afinal, a principal caraterística de Majora's Mask: conhecer o mundo e os habitantes de Termina.

   

Num jogo a quatro dimensões, é necessário um bom sistema para explorar a dimensão do tempo, que aqui consiste na Song of Time que pode ser tocado na ocarina. A versão original da música leva Link de volta ao início do ciclo de 3 dias (perto de 1 hora na vida real), mas a Inverted Song of Time permite desacelerar a passagem do tempo para o dobro, ideal para explorar tranquilamente, ou trazê-lo de volta ao normal. Já a Song of Double Time, que na Nintendo 64 permitia saltar para o amanhecer ou anoitecer mais próximo, permite avançar no tempo para qualquer ponto da timeline. Isto é particularmente útil para quando se está a seguir alguma demanda do Bomber's Notebook e se pretende saltar diretamente para a hora de um dado evento.

A estrutura do jogo está feita de forma a que estes ciclos de 3 dias permitam avançar progressivamente sem ter de repetir muitas ações feitas no anterior, pelo menos no que diz respeito à história principal. Normalmente, chegando a uma nova área, será tempo suficiente para descobrir uma forma de aceder à masmorra que lá se encontra, incluindo um atalho para que Link se possa teleportar. Voltando ao início da timeline, há agora tempo suficiente para explorar a masmorra e ver como o mundo em redor se altera após derrotar o boss. No entanto, caso se queira repetir o ciclo novamente e visitar a mesma área, bastará entrar na masmorra para poder aceder diretamente ao boss e, assim, visitar essa região livre do mal que a estava a assolar. Nesta nova versão de Majora's Mask, as batalhas contra os bosses foram alteradas para oferecer uma experiência mais desafiante em relação ao original, introduzindo até novas mecânicas em alguns casos - mais um ponto positivo desta adaptação.

   

Ao nível mais básico, a jogabilidade de Majora's Mask permanece inalterada, assente na utilização de máscaras e das diferentes transformações de Link, que pode assumir a forma de um Deku Scrub, Goron ou Zora. Alguns movimentos destas formas foram alterados, embora não de forma significativa. Já o uso do inventário foi completamente modificado para tirar partido do ecrã tátil da Nintendo 3DS, como já tinha acontecido com Ocarina of Time 3D, para além do giroscópio ser utilizado opcionalmente para controlar os itens na perspetiva da primeira pessoa, como o arco e flecha, por exemplo. A grande novidade neste campo está reservada para os detentores de uma New Nintendo 3DS ou de um acessório Circle Pad Pro para a 3DS e 3DS XL originais, podendo agora controlar livremente o ângulo de câmara do jogo.

A nível gráfico, o jogo sofreu uma grande melhoria em relação ao original, embora permaneça muito fiel ao seu estilo artístico. O resultado é um jogo com um aspecto semelhante ao que os jogadores da Nintendo 64 se irão recordar, embora bastante diferente na prática. Foram ainda acrescentados novos efeitos e detalhes, mas que se enquadram perfeitamente naquele mundo. Infelizmente, ao jogar em 3D surgem alguns "fantasmas" quando se joga em locais mais escuros, um problema que já ocorria em Ocarina of Time 3D e agora foi atenuado, mas continua presente. É também uma pena que não tenham puxado pela fluidez do jogo, depois de já se ter visto tantos títulos na 3DS a correr a 60fps mesmo com a consola em 3D - nem o facto da New Nintendo 3DS ter um processador melhorado foi aproveitado nesta versão para uma maior fluidez. Ainda assim, é um jogo visualmente impecável, mesmo que em 2015 não vá deixar ninguém de boca aberta.


Majora's Mask apresenta uma história sombria que se conta muito nas entrelinhas. Não é uma aventura épica, mas uma jornada pessoal inglória que acaba por se transformar em algo profundamente altruísta: nunca o nome do herói fez tanto sentido como nesta nuvem de personagens desencontrados. É o jogo mais diferente da série em estrutura, história e tonalidade e, também por isso mesmo, uma aventura a não perder - sejam fãs do jogo original ou o descubram agora pela primeira vez.