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20 de fevereiro de 2015

Pokémon Shuffle


As consolas portáteis sempre foram uma boa morada para o género de jogos de puzzle, desde a imensa popularidade que a GameBoy conseguiu nos anos 90 com o incontornável Tetris. É um género com uma infindável quantidade de variantes, muitas em torno do conceito de juntar 3 ou mais peças do mesmo tipo dentro de uma grelha. Com a popularização dos smartphones nos últimos anos e as suas aplicações gratuitas ou de muito baixo custo, a percepção do que vale um jogo de puzzle foi profundamente alterada na mente dos jogadores. Jogos como "Candy Crush" no Ocidente ou "Puzzle and Dragons" no Japão tornaram-se verdadeiros fenómenos de popularidade que podem ser descarregados a custo zero, embora venham recheados com formas de aliciar o jogador a pagar por conteúdos extra ou até mesmo para que possam continuar a jogar ao fim de algum tempo.


A última entrada de Pokémon no mundo dos puzzles foi com Pokémon Link: Battle!, que terá servido como base ou pretexto para este novo Pokémon Shuffle. A mecânica de jogo é semelhante e consiste em trocar duas peças da grelha de forma a juntar 3 ou mais semelhantes e fazê-las desaparecer, desencadeando uma reação em cadeia e provocando um ataque ao pokémon que se encontra no ecrã superior, baixando a sua energia. Neste novo jogo não existe barra de energia do jogador, mas sim um número de movimentos em que se deve terminar o tabuleiro, sob pena de se perder uma vida e ter de recomeçar. O puzzle fica completo quando o pokémon adversário fica sem energia, seguindo-se uma fase rápida de captura que depende um pouco da sorte e do desempenho do jogador.

Todo este sistema é bastante interessante, mas infelizmente está minado com tentativas de convencer o jogador a gastar dinheiro em pequenas transações. Quando se inicia, o jogo oferece ao todo 5 corações (as "vidas" em questão). Para jogar um tabuleiro, é preciso gastar um coração, significando que 5 puzzles seguidos bem sucedidos são o suficiente para esgotar as vidas e ter-se de esperar que os corações sejam recuperados com o passar do tempo. Ou então, adquirir mais corações usando jóias, umas pedras muito raras que podem ser encontradas dentro do jogo, ou compradas na Nintendo eShop por €0,99 cada uma. Assim se gasta um Euro para comprar uma jóia que depois pode ser trocada por 5 corações, ou seja, 5 tentativas para jogar. Não esquecer que, em caso de derrota, essa vida foi gasta em vão e, no caso de se falhar a captura do pokémon no final do nível, há uma grande tentação de voltar a tentar.

   

A captura dos pokémon permite definir a equipa de jogo, ou seja, as peças que irão surgir no ecrã. Respeitando as regras da série, os elementos de cada pokémon afectam o seu desempenho, sendo mais forte um ataque de erva se for utilizado contra um pokémon de água do que contra um de fogo, por exemplo. Além disso, conforme vão sendo utilizados em batalha, as criaturas irão também subir de nível, causando ataques mais fortes. A existência de um limite de movimentos faz com que seja tão importante a optimização da equipa como a escolha cautelosa dos movimentos com o objetivo de provocar a maior reação em cadeia possível.

Há ainda um conjunto de itens que podem ser utilizados no início de um puzzle, para facilitar a vida ao jogador. Estes podem ser adquiridos através de moedas, que vão sendo lentamente acumuladas conforme se vai jogando e passando puzzles, mas podem também ser adquiridas com as mesmas jóias que estão disponíveis na eShop. Uma jóia, neste caso, permite obter 3000 moedas, sendo que um item simples como aumentar o número possível de movimentos no puzzle (+5 movimentos) irá custar 800 dessas moedas. Outros, como diminuir a dificuldade do pokémon adversário, ja podem chegar às 9000 moedas. Outra oportunidade de gastar dinheiro ocorre no final, caso a captura falhe com uma pokébola normal, com a possibilidade de adquirir uma bola mais potente em troca de mais moedas.


Este não é o único jogo do género construído à volta deste modelo de negócio e até está longe de ser o pior exemplo de como a implementação de microtransacções pode arruinar uma experiência, mas também não é o melhor. O jogo Puzzle And Dragons mostra-se uma fortíssima inspiração para este Pokémon Shuffle, incluindo a questão da stamina (corações) e das jóias que permitem comprar melhorias, mas também um sistema de "check in" e puzzles especiais disponíveis durante um certo período de tempo. É uma referência importante porque implementa de forma bastante melhor todas as problemáticas referidas, incluindo um bom equilíbrio de tempo de jogo gratuito. O maior problema de Pokémon Shuffle é tão simples como a velocidade com que se gastam os 5 corações a que se tem direito gratuitamente, e que depois levam bastante tempo a recuperar.

Pokémon Shuffle tinha tudo para ser um óptimo jogo com uma mecânica viciante, se desse a oportunidade do jogador se viciar. Depois de um tutorial mais extenso do que é habitual neste género que devia ser auto-explicativo, resolvem-se alguns puzzles e acabam os corações. Volta-se no dia seguinte, ou então gasta-se dinheiro para poder continuar a jogar, mas não por muito tempo. Houvesse uma opção para adquirir o jogo de uma só vez e eliminar a questão do número de vidas, até se compreenderia a tentativa de vender os restantes itens que facilitam o jogo, embora não se recomendasse a sua aquisição. Da forma que foi criado, é um jogo onde se esbarra mais vezes com limitações à diversão do que aquelas em que se torna uma experiência realmente divertida. Recomenda-se o download da aplicação, mas que não se gaste um único tostão. Boa altura para rever os controlos parentais na consola.