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3 de dezembro de 2013

Bravely Default


Vivemos uma época em que o género RPG já se afastou muito dos formatos mais tradicionais, que tem vindo a cativar novos públicos através de cinemáticas ou de sistemas bastante acessíveis para não alienar ninguém. Ao mesmo tempo tem causado alguma insatisfação nos fãs de jogos mais clássicos, que têm vindo a perder interesse no género devido à sua direção, olhando para as consolas portáteis como um bom suporte que ainda vai explorando o género.

   

Na sua íntegra Bravely Default é um jogo que poderia pertencer à série Final Fantasy muito devido à sua história: um grupo improvável de 4 heróis (e uma fada) tem como objetivo salvar o mundo da destruição, recuperando os quatro Cristais que governam o mundo e erradicar o mal. No seu percurso enfrentam o temível império de Eternia, cujo objetivo é destruir esses mesmos Cristais, opondo-se aos que os protegem como Agnès Oblige, aquela que é a personagem mais importante deste jogo, mas não a principal. 

Esse papel calha a Tiz Arrior, um jovem camponês que vê a sua pequena cidade de Norende ser engolida por um gigante abismo, levando consigo o seu irmão. É o tradicional jovem herói improvável que imediatamente conhece Agnès, a protetora do Cristal de Vento, que carrega nos seus ombros a responsabilidade do mundo todo e da situação a que chegou, sempre acompanhada por Airy — a pequena fada que embora marque pouca presença tem sempre uma opinião a dar. Em poucas horas conhecemos as restantes personagens: Ringabel, um jovem amnésico cujo nome verdadeiro é desconhecido, bastante sedutor e mulherengo, carregando consigo um diário misterioso onde tem escrito eventos futuros; e Edea Lee, do reino de Eternia, que opta por trair o seu próprio reino e seguir o seu instinto e forte sentido de justiça para proteger Agnès.

   

As personagens vão-se desenvolvendo aos poucos enquanto viajamos num mundo que se vai revelando cada vez mais rico. As sequências de história estão devidamente acompanhadas com voice-acting (podendo-se escolher entre o inglês e o japonês) sempre muito presente em todo jogo. Temos ainda o sistema Party Talk, que consiste em diálogos que servem para fortalecer os laços entre os personagens, onde comentam desde eventos do jogo a pormenores pessoais mais detalhados sobre cada um deles.

Um dos pontos fortes deste jogo é o sistema de batalha, que dá um novo toque aos tradicionais sistemas por turnos ao estilo Final Fantasy (sem o sistema Active Time Battle) ou Dragon Quest. Aqui surge o interessante sistema de Brave Points que traz algo de inovador a um sistema já bastante clássico, onde cada personagem pode atacar de 1 a 4 vezes a custo de BPs, mas a cada ponto utilizado implica o sacrifício de um turno, tendo depois de esperar que os BPs voltem a 0. Para compensar surge a opção Default que faz com que o personagem se defenda de um ataque, reduzindo assim o dano que lhe é dado, e também ganhar BPs extra.

   

Outro elemento que foram buscar a Final Fantasy é o sistema tradicional de classes, ou Jobs. Durante o jogo vamos adquirindo Asterisks que nos desbloqueiam classes tradicionais como White ou Black Mage, passando por uma re-imaginação de várias classes antigas a algumas novas, como Merchant ou Performer. Para além da classe equipada podemos usar uma segunda classe e manter os vários ataques permitidos por elas, que são desbloqueados quando subimos o nível de cada uma delas. Para além dos ataques e magias, cada classe tem ainda habilidades muito próprias que também podemos desbloquear e equipa-las noutras classes, oferecendo assim uma forte variabilidade nas equipas que podemos criar.

Ajudando o desenvolvimento das nossas personagens entra o StreetPass, um elemento bastante útil e bem explorado que também desbloqueia conteúdos. Quando nos cruzamos com um amigo da nossa lista da 3DS que tenha este jogo ativo, podemos usar o Abililink para associa-lo a um personagem e subir o nível da classe respetiva quando possível. Os restantes encontros podem ser usados como um ataque, magia ou até um item, bastante útil para batalhas mais complicadas quando precisamos de curar ou usar uma magia bastante efectiva contra o inimigo.


O StreetPass é também vital para recuperar Norende. Esta é uma mecânica paralela onde cada encontro é mais um habitante para a nossa pequena vila, para ajudar a construir desde lojas (cujos itens ou equipamentos podemos comprar através de um vendedor ambulante que vamos encontrando) a recuperar terrenos para expandir ainda mais. Podemos ainda desbloquear mais habilidades para os nossos personagens através desta vila, tornando-se um ponto bastante interessante de explorar. Temos também alguns bosses que vêm através de SpotPass para nos oferecer ainda mais desafio, estes que serão bastante familiares para os que jogaram Final Fantasy: The 4 Heroes of Light na Nintendo DS.

   

Visualmente o jogo recorda-nos de tradicionais jogos com cenários pré-renderizados, mas devidamente modelados a tirar bem partido do efeito 3D possível na 3DS. No geral os cenários estão bastante bonitos e assemelham-se a pequenos dioramas onde tudo tem volume, e geralmente parecem ilustrações tri-dimensionais que dá vontade de explorar. O ecrã de batalha lembra-nos de um pequeno teatro, onde as personagens e inimigos estão colocados frente a frente como se fosse uma peça, mas também muito ao estilo dos RPGs antigos.

Merecendo também um grande destaque está a banda sonora da autoria de Revo, agora bastante conhecido pelo seu trabalho na série de animação "Attack on Titan". As músicas são empolgantes e acompanham na perfeição o jogo, dando vontade de as ouvir várias vezes devido à sua qualidade, sejam elas músicas de batalha ou dos diversos locais que atravessamos. Uma das melhores bandas sonoras do ano, e que a 3DS teve o prazer de receber.
Este é um jogo bastante acessível pois podemos controlar a sua dificuldade sem penalizações, excelente para aqueles que não se interessam pelo género pois não gostam de perder muito tempo em grinding, mas também sem deixar de oferecer um bom desafio: quem se sentir mais confiante pode jogar em Hard (que será devidamente identificado através do StreetPass). É possível ainda ajustar o número de batalhas que encontramos, diminuindo assim os inimigos que enfrentamos para simplesmente "despachar" a masmorra, ou aumentar os mesmos para ganhar mais experiência. O jogo usa o método tradicional de Random Battles onde não vemos os inimigos no cenário, mas curiosamente "sabe bem" voltar a essa estratégia tradicional nos tempos que correm.


Bravely Default é o RPG que os fãs desejavam há muito e têm vindo a pedir à Square-Enix. Dispensa enormes cinemáticas para contar uma história e é acompanhado por um sistema de jogo onde, de facto, controlamos as ações das personagens. 2013 foi um excelente ano para a 3DS, que recebeu excelentes títulos e termina em grande em dezembro. Adiciona-se assim um jogo de um género ainda pouco presente na consola, a sucessora da Nintendo DS, esta que foi, por muitos, considerada a "Raínha dos RPGs".