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15 de novembro de 2016

Pokémon Sun / Pokémon Moon


Não são muitas as séries no mundo dos videojogos que se podem gabar de chegar aos 20 anos de vida e gozar de uma popularidade tremenda, capaz de provocar fenómenos sociais tão marcantes como nos seus primeiros anos de vida. Ao longo destas duas décadas, múltiplas iterações de jogos e remakes foram chegando às portáteis da Nintendo, naquilo a que chamamos de gerações. Pokémon Sun e Pokémon Moon são os novos títulos a chegar e marcam a sétima geração com uma lufada de ar fresco na série, ao mesmo tempo que elevam a fasquia da qualidade a um novo patamar.

Em Pokémon Sun e Pokémon Moon, a história decorre na região tropical de Alola, distante das que visitamos em jogos anteriores. O nosso personagem acaba de chegar à região com a sua mãe, para onde se mudaram da terra natal de Kanto – sim, a mesma Kanto onde há 20 anos muitos de nós conquistaram a Pokémon League na GameBoy. Por coincidência, o protagonista tem precisamente a mesma idade com que os jovens de Alola dão início ao seu desafio insular, algo a que a mãe incentiva pois será uma óptima forma de conhecer os habitantes da região e travar novas amizades. O que se segue é uma aventura como todas as outras da série, mas que é também muito distinta.


A história destes jogos é um bom exemplo de como se consegue renovar a série sem a descaracterizar. Continuamos a ter um "rival" que nos acompanha ao longo da aventura e uma equipa de mafiosos que quer fazer mal aos pokémon, embora haja agora também uma organização empenhada em preservar as pobres criaturas. Por outro lado, já não há ginásios, porque a Pokémon League não existe em Alola, mas existem 7 "trials" no desafio insular e 4 "kahunas" cujas equipas teremos de derrotar durante o desafio. Há muito tempo que um jogo de Pokémon não sabia tanto a "novo" e a vontade de inovar com a história contribuiu bastante para isso.

Na região de Alola há imensos pokémon para se encontrar ao longo da aventura, com alguns completamente novos na série e outros bastante familiares. Alguns dos pokémon da região de Kanto foram levados para as ilhas há muitas gerações e, com o passar do tempo, acabaram por se adaptar e adquirir novas formas e tipagens. A biodiversidade (se é que podemos usar a expressão) é enorme nesta região e a cada nova área explorada há um rol de novos pokémon para encontrar. As novas criaturas da sétima geração são interessantíssimas desde os parceiros iniciais até aos pokémon lendários que surgem nas capas dos jogos e não só.

Não é de espantar que a biodiversidade de pokémon seja um foco tão grande nestes jogos, não só porque se adequa à temática tropical, mas também porque este jogo grita por todo o lado "celebração dos 20 anos". Ao longo da história, todos os jogos são referidos de uma ou outra forma, desde pequenas referências até ao background de acontecimentos importantes. Nunca será necessário conhecimento prévio da saga para compreender a história, mas os fãs de longa data irão apreciar as piscadelas de olho. Mesmo assim, estes não são jogos presos ao passado: utilizam-no, sim, para abrir novos caminhos para o futuro da série.


Graficamente, estes títulos são do melhor que existe na Nintendo 3DS. Os cenários são bastante detalhados, as cores vibrantes e as animações dos pokémon são fantásticas. A única coisa que deixa a desejar é a qualidade das texturas de fundo das batalhas e as nuvens no céu, mas dá para perceber que já não daria para "espremer" mais. Não que o desempenho sofra demasiado, mas em algumas batalhas com 4 pokémon e os treinadores em campo nota-se uma quebra na fluidez. De qualquer modo, nunca um jogo de Pokémon teve visuais tão apelativos como agora. O compromisso para estes visuais foi o abandono da funcionalidade 3D da consola, que apenas está disponível em certos segmentos de jogabilidade (uma câmara fotográfica) e mesmo assim não se recomenda ligar.

Mais do que os gráficos, a direção artística foi fundamental para o sucesso deste jogo. Desde a concepção das novas criaturas à própria região com praias e montanhas, muito sol e vistas desafogadas, aos pormenores de se poder ouvir na natureza o som dos pokémon que se encontram nas proximidades, há uma atenção ao detalhe impressionante. A banda sonora é uma das melhores da série e tem temas memoráveis, incluindo temas épicos como os de batalha contra os "kahuna" e os guardiões. Excelente trabalho!


Se há coisa que não mudou muito, nem seria desejável que mudasse, foi o sistema de batalhas. Com alguns ajustes nas estatísticas e mecânicas mais complexas, o principal mantém-se inalterado. A grande novidade foi a adição dos Z-Moves, ataques ao estilo "limit break" típico de outros RPGs, que podem ser utilizados apenas uma vez em toda a batalha. Outra novidade é o Pokémon Refresh, que sucede ao Pokémon Amie de X e Y e agora permite cuidar dos pokémon no final da batalha, curando até problemas como Poison ou Sleep sem ter de se gastar itens. Cuidar dos pokémon aumenta a sua afectividade, o que resulta num melhor desempenho em combate dentro do jogo, excepto nas componentes de multijogador.

Mais importante é a forma como toda a experiência de jogo foi simplificada. Os menus agora permitem ver facilmente dados que anteriormente só estava disponível fora do jogo em páginas de fãs na internet, como o potencial dos pokémon ou a eficácia dos ataques no menu de batalha, por exemplo, e o Rotom Pokédex também apresenta informação útil e bem organizada. Além disso, a remoção dos HMs (Hidden Machines) é uma pequena revolução que já deveria ter acontecido há 5 gerações – agora não temos de manter na Party um pokémon para usar o Fly ou o Surf, pois podemos invocar a qualquer momento um pokémon de transporte.

Outra novidade interessante é o Poké Pelago, onde existem ilhas com várias funcionalidades que podem ser aproveitadas pelos nossos pokémon que estão guardados na Box. O "Day Care" foi praticamente substituído por uma ilha onde será possível deixar até 18 pokémon de uma só vez a subir de nível enquanto tratamos da nossa vida, mesmo no mundo real. Outra ilha permite chocar vários ovos numas termas em vez de se andar para trás e para a frente durante horas a fio. Só não mudou a forma de obter os ovos, mas todo o processo ficou bastante melhor. Já a Festival Plaza é uma espécie de hub social para os avatares dos jogadores e é a porta de entrada para as funcionalidades multijogador de batalhas e trocas locais e online.


"It all comes together", dizia o primeiro vídeo de apresentação de Pokémon Sun e Pokémon Moon. Seis gerações de experiência que permitiram a estes novos títulos absorver o que de melhor há na série para criar uma nova experiência. Não há volta a dar, estes jogos proporcionam uma aventura muito mais natural do que a fórmula gasta de chegar a uma cidade, derrotar o ginásio e partir para a cidade seguinte. Continua a haver linearidade na progressão do desafio, mas a forma como a história conduz o jogador é bastante agradável e deixa ir explorando calmamente a região, semelhante ao que poderíamos esperar de um RPG mais tradicional. Aos poucos, vai sendo doseada a dificuldade e a tensão do jogo para nos oferecer uma aventura épica e um final climático, mesmo que o enredo se torne rapidamente previsível.

Combinando uma boa dose de nostalgia com uma muito ansiada modernidade, Pokémon Sun e Pokémon Moon facilmente se destacam entre os melhores do catálogo da Nintendo 3DS, tirando ainda o máximo partido das capacidades da consola. Percebe-se uma grande atenção ao detalhe e à qualidade do jogo, e o ambiente fictício de Alola absorve o jogador naquilo que é a melhor aventura de Pokémon até hoje, deixando um novo standard para a série. Um jogo obrigatório!
Nota: esta análise foi efectuada com base numa cópia de Pokémon Moon para a Nintendo 3DS, gentilmente cedida pela Nintendo.