Christopher, o Belmont esquecido


Com a noite das bruxas tão recente, nada melhor que divagarmos um pouco acerca de uma das minhas séries favoritas e um must play pessoal para esta altura do ano. 

Castlevania, como muitos daqueles que frequentam este site devem saber, teve os seus inícios em 1986, com o lançamento do primeiro jogo da série, na altura para a Famicom Disc System. Contudo, não é desse jogo que vos venho falar ou mesmo do lançamento mais recente, o Castlevania: Belmont's Curse, mas antes de uma trilogia de jogos que muito são raramente mencionados e que têm a particularidade de terem o mesmo protagonista em todos eles.

Falo-vos de The Castlevania Adventure, o primeiro jogo da série a ser lançado para uma consola portátil, neste caso em concreto, a Game Boy. Lançado em 1989 (1990 na Europa), Adventure é a primeira vez que vemos outro Belmont, que não o Simon, em acção. Christopher Belmont é um dos antepassados de Simon e tal como o seu descendente, toma para si a missão solitária de banir o eterno senhor das trevas, o maléfico Conde Drácula. Embora consideravelmente mais lento que Simon, Christopher tem a particularidade de conseguir expelir bolas de fogo do seu Vampire Killer (o mítico chicote), o que compensa e muito qualquer lacuna que possa ter. Contudo, aquela que é a sua única arma na batalha contra o senhor dos vampiros apenas tem esta habilidade ao seu segundo upgrade. Upgrade esse que o nosso caçador pode perder se for atingido.

Nesta sua primeira aventura, Christopher não possui as armas secundárias que se tornariam numa das imagens de marca da série. Aqui não há machado, cruz ou água benta. O terço, cujo uso continua a ser imediato, ainda existe, mas com uma função muito diferente. Nos Castlevanias anteriores, ele servia como forma de limpar o ecrã de todos os adversários presentes, enquanto que aqui assume uma função similar à estrela do Super Mario, tornando Christopher invencível por um curto espaço de tempo. As famosas velas, uma vez chicoteadas, continuam a dar corações, mas estes últimos, devido à tal ausência de armas secundárias, servem como restauradores de energia vital (uma tarefa que nas aventuras de Simon estava reservada ao frango).

Tendo sido produzido para uma consola com poder mais reduzido, e tratando-se de um dos primeiros jogos a ser lançados para o aparelho, Adventure apresenta mais algumas diferenças relativamente aos jogos da NES. Uma dessas diferenças está na ausência de escadas no castelo do Drácula. Elas são substituídas por cordas. Outra mudança reside nos cast de adversários, com muitas novidades e muitos monstros que se tornariam únicos deste jogo e da sua sequela direta (da qual iremos falar mais abaixo). O saltitante Creeper, o lançador de chamas Punaguchi e o cultista esquelético que dá pelo nome de Night Stalker.

A juntar a estes temos ainda os três dos quatro bosses do jogo, que não apenas são novidades, como também não farão muito mais aparições depois desta. Temos logo no nível inicial, Gobanz, um inimigo blindado, bem ao estilo dos múltiplos Armor Knights que polvilham a série. O segundo adversário que nos irá surgir é o Under Mole, uma espécie de goblin toupeira, com o voador Death Bat, cujo design terá certamente servido de inspiração para Slogra (um dos futuros habitantes do castelo), a servir como o terceiro e último boss antes do Drácula.

The Castlevania Adventure, que foi recebido com grande entusiasmo na altura, apesar das suas limitações gráficas e a nível do gameplay, envelheceu mal e é visto por muitos jogadores como uma mera nota de rodapé e uma espécie de protótipo para uma sequela muito melhor.

Também ele lançado para a Game Boy, mas em 1991 (1992 para nós aqui na Europa), Castlevania II: Belmont's Revenge, passa-se quinze anos depois da vitória de Christopher sobre o amaldiçoado conde. O vilão resurge, tendo escapado à destruição no final do jogo anterior, e vem sedento de vingança. Ele rapta o Soleil, o filho de Christopher, transformando-o num demónio, com o intuito de usá-lo para se vingar do nosso protagonista. Desta feita, Christopher não se limita a explorar apenas um castelo, uma vez que o conde ergueu cinco! O nosso caçador deve primeiro vencer os lacaios do conde que guardam os seus quatro primeiros castelos, antes de poder confrontar o vampiro na quinta e última das suas fortalezas.

Christopher, apesar de se terem passado quinze anos, mostra-se muito mais forte que na aventura anterior. O seu chicote mantem a sua habilidade de lançar bolas de fogo (agora ao terceiro upgrade) e não perde a sua força com apenas um toque. As velas continuam a esconder corações, mas o propósito destes passa a ser o mesmo que nos jogos da NES. O de servir de munição para o uso das chamadas armas secundárias. O machado e a água benta complementam o arsenal de Christopher, dando-lhe um maior leque de possibilidades de ataque que não possuía na aventura de 1989. Mais importante do que isso é o facto deles estar mais rápido e ágil, relativamente ao jogo anterior.

Belmont's Revenge repete muito dos assets de Adventure, inclusive os seus inimigos (se bem que com a adição do esquelético e acrobático Cheeta), embora curiosamente não repita nenhum dos bosses (tirando o Drácula), apresentando um novo conjunto destes. O primeiro deles tem uma certa semelhança física com o Gobanz, mas serve-se de uma espada para atacar e eventualmente perde a armadura. Seguem-se os bosses Kumulo/Nimbler e a Angel Mummy, adversários que atacam aos pares, embora não sejam particularmente difíceis de vencer. O último boss original tem a particularidade de ser a primeira vez que temos de enfrentar um Belmont, na figura do demonificado Soleil.

Uma aventura bem maior do que a anterior, com seis níveis em vez dos quatro, e com a possibilidade de escolher por qual dos primeiros quatro castelos começar, Belmont's Revenge termina, como não podia deixar de ser com a vitória de Christopher sobre o conde. O Belmont não apenas o derrota, destruindo os cinco castelos demoníacos, como também liberta o seu filho da influência do dito conde. Passariam anos até que o nome de Christopher fosse ouvido novamente. O Belmont, ou pelo menos uma versão dele, surgiria curiosamente noutra forma de entretenimento que não os jogos de vídeo.

Em 2005, publicado pela editora IDW, e surgindo pelas mãos da dupla artística Mark Andreyko e E. J. Su, uma versão alternativa dos eventos de The Castlevania Adventure surgiria. Uma minisérie de banda-desenhada de cinco números, chamada Castlevania: The Belmont Legacy começaria com uma visão profética de Christopher que não apenas avisava acerca do regresso triunfal do Conde Drácula, como também mostrava o mesmo a corromper o futuro filho do caçador de vampiros, transformando-o num dos seus servos vampirescos. Embora não seja apelidado de Soleil, deduz-se que seja a mesma personagem. Christopher acorda deste seu pesadelo, desconfortável, mas ciente de que não tem nada a temer, uma vez que os seus antepassados há muito baniram o senhor das trevas.

A sua preocupação vai para o seu casamento com Illyana Riktor, contudo, sem saber que forças se reúnem para ressuscitar Drácula. Um culto, liderado pelos aristocratas Bartleys, consegue, via um sacrifício de sangue, isso mesmo. O senhor das trevas regressa sedento de sangue e vingança, pelo que a sua primeira ordem de trabalhos passa pela profanação do túmulo dos Belmont, numa ação que não passa despercebida a Christopher. Auxiliado pelo seu fiel mordomo, Deimos, e por membros do clã Totoyan, que salvaguardavam o chicote Vampire Killer e que o trouxeram para Christopher o poder usar, o nosso protagonista vai tentar levar a luta ao conde.

Pelo caminho vai derrotar muitos dos zombies enviados pelo Conde para os deter, mas não irá conseguir evitar que a sua amada Illyana seja raptada pelo malfadado vampiro, que a vai levar com o intuito de fazer dela a sua noiva. Como se esta tragédia não bastasse, Viktor e Gaspar, dois elementos do clã Totoyan, vão ser mordidos e convertidos em vampiros, tornando-se perigosos inimigos. Felizmente, e apesar de todos estes contratempos, Christopher irá usar o poder flamejante do seu Vampire Killer para banir o Conde. A minisérie termina num cliffhanger, com o filho ainda por nascer de Christopher a mostra estar possuído pela essência maléfica do senhor das trevas, num claro nod a Belmont's Revenge.

Esta seria a última aparição de Christopher. Pelo menos até ao remake da sua aventura original que seria feito para a WiiWare entre 2009 e 2010. Chamado de Castlevania: The Adventure ReBirth, este jogo é bem mais do que um remake do original do Game Boy, surgindo verdadeiramente como uma nova aventura. Mantendo a narrativa de 1989, ReBirth traz consigo todos os elementos familiares da série. Para trás fica a ausência de armas secundárias ou as cordas, em troca do regresso das tradicionais escadas e um quinteto de sub-weapons, nomeadamente, o machado, o crucifixo, a agua benta, o relógio e a faca.

Muitos dos elementos presentes na sequela encontram-se presentes aqui, desde certos inimigos até à existência de seis níveis. A diferença vai residir não apenas no facto de toda a aventura ter lugar no castelo do Drácula, mas também no facto de termos chaves para abrir portas, que por sua vez permitem-nos seguir por caminhos diferentes. Cada nível conta com a presença de um mini-boss e de um boss final, com a particularidade de muitos deles serem novidades na série Adventure, mas serem velhos conhecidos dos apreciadores dos outros Castlevanias, como por exemplo, a Morte ou a Criatura. E 2010 seria a última vez que ouviríamos falar de Christopher (tirando a sua participação no jogo Vampire Survivors de 2022, como personagem jogável).

O homem que derrotou o conde por duas vezes e que teve a sua própria banda-desenhada, seria deixado de lado, ofuscado pelos Belmonts mais populares. É tempo de o trazer de volta ou pelo menos de trazer o ReBirth de volta. 

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