Little Nightmares


Todos temos os nossos medos sem compreensão, os nossos pesadelos que, de vez em quando, lá nos acompanham durante a noite. É com uma premissa ligada a este tipo de terror que surge Little Nightmares, um jogo indie da Tarsier Studios, equipa essa envolvida em jogos como Little Big Planet ou Tearaway Unfolded, que nos convidam a entrar num universo bizarro em que a lógica é questionável. Afinal, que lógica existe por detrás dos sonhos?


Este é um jogo que teve um ótimo início de vida, recebendo o prémio de melhor jogo Indie da Gamescom em 2016 [link], e embora tenha sido um jogo pouco falado, foi puxando o interesse aos curiosos que queriam entrar no The Maw, o local grotesco desta aventura. Lá acompanhamos a fuga de Six, a pequena mas corajosa protagonista que terá de escapar, fugindo de sítios que facilmente podemos encontrar nos pesadelos de muitos de nós.

Tendo estado entre esses curiosos, fiz o possível para evitar spoilers ou até mesmo ver o mínimo possível de vídeos e imagens do jogo. Estava bastante curioso, e queria que todos os pontos da aventura fossem uma surpresa! Lancei-me assim para este mundo desconhecido, e nessa escuridão caí, sem qualquer introdução ou sequer saber o que se passava, para além de uma misteriosa figura esguia que aparece numa breve sequência. De imediato o jogo conseguiu cativar toda a atenção, lançar todo um conjunto de questões que iam desde o simples "onde estou" aos constantes "que criaturas são estas?"


Os primeiros momentos do jogo serviram-me para aprender as mecânicas do jogo, e sem quaisquer tutoriais ou mensagens pop-up a explicar os botões (que existem, aparecendo apenas quando estamos presos), respeitando bem aquela que é uma aventura sem quaisquer textos, sequências ou até mesmo história a contar, afinal, o que se passa. É uma aventura em que a descoberta é constante, ao atravessar os cenários que temos de escapar, repletos de perigos e monstros que nos querem capturar (sabe-se lá para fazer o quê, mas possivelmente o pior).

A aventura em si é bastante linear, levando-nos a percorrer os vários cenários sem quaisquer problemas em saber por onde ir. O principal desafio é atravessar as salas sem que os inimigos dessem por nós, e à disposição existem vários sítios onde Six se consegue esconder: caixas, debaixo de mesas, atrás do armário, etc. Infelizmente a nível de puzzles o jogo deixa muito a desejar, já que eles praticamente não existem ou são extremamente óbvios. Estava à espera de encontrar vários enigmas, algo que o estilo de jogo proporciona, mas tal não aconteceu.


Já os cenários em si? Incríveis! Passei grande parte do jogo a observar os pequenos detalhes, desde papéis de parede, os quadros que embelezam as várias divisões, as inúmeras prateleiras e livros que várias vezes serviam de escadas, a comida com aspecto duvidoso, entre mais. Sente-se que houve uma especial atenção ao desenhar os níveis, principalmente pela parte estética que é o ponto mais forte do jogo. O bom uso de bloom lightning, causando um efeito mais analógico, até mesmo etério, e ainda a câmara que baloiça suavemente, fazendo vários elementos do cenário mover de acordo (existindo um motivo para tal), dão uma sensação de "sonho" ao jogo, que funciona na perfeição. Mesmo a música, ou melhor, os vários efeitos sonoros que acompanham Six na sua aventura, embelezam bastante.

Mas a admiração pelos cenários agravou apenas um outro problema do jogo, a sua longevidade. Este é um jogo curto, talvez demasiado curto, e fiquei a querer bastante mais. Mais níveis, mais desafios, mais personagens bizarras de quem fugir, mais cenários fantásticos para observar detalhadamente. O jogo também não é muito desafiante, sendo que existe uma ou outra morte frustrante fácil de ultrapassar à segunda vez, e não existe muita penalização por morrer. Existem também pequenas coisas a encontrar nos cenários, como os pequenos Nomes, criaturas com cabeça em forma de cone (que me lembra do icónico monstro de Silent Hill), lamparinas e velas para acender, e até bonecas de porcelana para destruir e libertar uma espécie de essência espiritual delas.


Algo que acompanha todo o jogo é um certo misticismo e imensas coisas que não têm explicação, o que me agradou imenso pois deixou-me a pensar sobre o que estava a suceder. Passei o tempo todo a fazer várias interpretações sobre as personagens, fossem elas crianças (tal como a Six), os pequenos Nomes e até mesmo os monstros. Não há explicações para nada ou sequências, só mesmo os curtos eventos pré-definidos em que Six, constantemente cheia de fome, come o que tem à disposição. Sei que é algo que pode frustrar muitos, e para os interessados o website oficial [link] tem informações sobre a história, personagens e o The Maw, mas fiquei extremamente satisfeito por não ter respostas a tudo.


É impossível não recomendar o jogo, principalmente aos que gostam particularmente de visuais mais fantásticos e experiências algo diferentes do normal, mas infelizmente a aventura fica a saber "a pouco", quer pela longevidade e até mesmo conteúdo no jogo. Talvez tenha ficado algo desiludido, por ter jogado Tearaway que conta também com visuais incríveis, e com mecânicas únicas que me deixaram bastante satisfeito. Fora esses problemas, Little Nightmares é um jogo onde a fantasia reina, que me prendeu e mergulhei por completo em The Maw, principalmente ao jogar às escuras e com os headphones ligados!


Nota: Esta análise foi efetuada com base em código final do jogo para PC, gentilmente cedido pela Bandai Namco Entertainment Europe
Little Nightmares Little Nightmares Reviewed by Nuno Mendes on 12 maio Rating: 5

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