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28 de outubro de 2010

Dragon Quest IX: Sentinels of the Starry Skies

O género RPG é, sem dúvida, um dos pontos fortes da Nintendo DS, com uma vasta oferta de jogos de qualidade criados para transportar os jogadores para os mais diversos mundos de fantasia que se possam imaginar. Ao mesmo tempo, nos últimos anos, os fãs de algumas séries do género têm sofrido com a constante necessidade destas em inovar "à força" a cada jogo que passa. E é neste enquadramento que surge Dragon Quest IX, com a coragem de saltar para o universo portátil e trazer à Nintendo DS um estilo de RPG considerado por muitos developers como estando "ultrapassado". Mas nada de ultrapassado existe neste jogo.

Dragon Quest IX é um jogo brilhante. Um RPG extremamente clássico mas, ao mesmo tempo, suficiente moderno para agradar a todos os públicos. Aliás, para uma série conhecida por se manter fiel às suas tradições, este jogo inova muito além do que seria esperado. Que não restem dúvidas: mantêm-se os tradicionais monstrinhos sorridentes e adoráveis, os sotaques regionais que distinguem cada localidade e até os divertidos trocadilhos em quase tudo o que são nomes de lugares ou personagens. Mantêm-se as batalhas por turnos, mas acabam-se os encontros aleatórios: uma batalha só terá início se o jogador abordar o inimigo em batalha. O resultado é um jogo acessível a todos os que achavam os RPGs complicados e suficientemente complexo para os veteranos do género mas, acima de tudo, fiel às suas origens.
Graficamente, será difícil encontrar melhor na consola. As capacidades da DS são exploradas ao máximo para recriar este fantástico mundo e os seus personagens, desenhados pelo inconfundível Akira Toriyama. O protagonista do jogo é um Celestrian, o equivalente a um anjo da guarda, que tem como missão proteger os habitantes de Angel Falls. O herói serve como primeiro ponto de ligação entre o jogador e este novo universo – cada pessoa irá escolher o nome, género e aspecto do seu personagem no jogo, decidir qual o equipamento a dar-lhe com base nos próprios critérios e, mais tarde, decidir qual será a sua vocação. O estilo artístico utilizado aproveita-se das limitações da consola para dar vida não só a estes personagens, como a todo o mundo criado no jogo. Os cenários bucólicos, as cidades e aldeias completamente distintas e cheias de vida criam um charme difícil de igualar, mesmo em jogos da própria série. Pelo meio, algumas sequências de animação tradicional irão deliciar os jogadores, deixando-os apenas com pena que não houvesse espaço no cartucho para mais.
Enquanto RPG, é essencialmente um jogo clássico, em que o herói viaja pelo mundo, de aldeia em aldeia, interage com os seus habitantes e resolve os seus problemas. Como "anjo da guarda", é natural para o herói tomar estas acções de boa vontade, mas é a gratidão das pessoas ajudadas que acaba por recompensar e motivar o próprio jogador. Cada cidade tem a sua própria história, aparentemente independente, como que cada parte do mundo fosse um pequeno episódio de uma série. No entanto, há um fio condutor que faz desta uma aventura bastante sólida até depois do rolar dos créditos. O jogo não termina com o fim da história principal – graças a um conjunto de quests recebidas através da ligação do jogo à internet, será possível aprofundar os mistérios sobre o passado deste mundo e os seus habitantes. Além disso, a adição dos mapas de tesouro onde é possível encontrar monstros e tesouros muito raros (alguns até exclusivos) acabou por revelar-se um grande vício, muitas vezes até funcionando como uma produtiva pausa na aventura principal. Estas funcionalidades trazem um valor acrescentado que mantém o interesse dos jogadores muito além do que seria de esperar de um jogo do género.

A componente multijogadores é outro dos pontes fortes de Dragon Quest IX. Ao fim de pouco tempo no jogo, abre-se a possibilidade de viajar para outros mundos e jogar cooperativamente numa equipa de até 4 jogadores independentes. O jogo que recebe os convidados determina em que ponto se encontram na história, como que se tivesse recrutado até 3 amigos para prosseguir na aventura. Do ponto de vista de um visitante, existe liberdade total para explorar o mundo, independentemente do que o jogador anfitrião esteja a fazer. A experiência de jogo, no entanto, é algo único dentro do género. Discutir tácticas pessoalmente com os restantes membros da equipa, é algo que se sobrepõe à experiência de qualquer outro jogo que ofereça possibilidades semelhantes à distância. Não é o primeiro RPG cooperativo a nível local (nem mesmo na Nintendo DS), mas algo na forma como foi construído faz dele o melhor, e provavelmente devido ao ritmo introduzido pelo sistema de batalhas por turnos.

Dragon Quest IX é um marco incontornável na história da Nintendo DS e do género de jogo em que se insere. A sua funcionalidade de interagir com outros jogos enquanto a consola se encontra em sleep mode fez do jogo um fenómeno sem precedentes no Japão e acabou por influenciar o próprio desenho da consola sucessora. Pode dizer-se que a história do jogo não seja tão profunda ou envolvente como a de jogos anteriores na série (especialmente Dragon Quest V), mas é sem dúvida o melhor Dragon Quest alguma vez feito. Um dos jogos com maior longevidade na consola, mas sem alguma vez se tornar aborrecido.
Embora não seja um jogo sem algumas falhas menores, todas as suas qualidades superam o que se possa criticar. Acima de tudo, destaca-se um charme incomparável, um je ne sais quoi deste incrível jogo que ninguém saberá explicar, mesmo sendo capaz de o sentir. Este é, sem dúvida, o melhor RPG clássico para Nintendo DS, um dos melhores alguma vez feitos e ainda a melhor introdução a quem nunca tenha jogado algo do género.