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8 de agosto de 2018

Narcosis


São poucos os jogos de "terror" que nos últimos anos me envolveram verdadeiramente. Tirando Outlast e pouco mais, os que tenho jogado já não me conseguem assustar. Não querendo dizer com isto que Narcosis é o jogo mais aterrorizante que alguma vez joguei, mas é uma experiência a ter em conta porque o seu ambiente é tão claustrofóbico e obscuro que consegue criar uma tensão enorme aos jogadores que gostam deste género.

Verdade seja dita, Narcosis foca-se mais numa narrativa de terror psicológico que propriamente em monstros ou sangue como acontece em Resident Evil. A questão aqui é sobreviver no fundo do oceano, combatendo a solidão e pressão existentes num ambiente sombrio e medonho, num território desconhecido sem qualquer direção, como se fosse levado pelas correntes da água.


Existem os famosos jump scares, não há dúvidas, e fui surpreendido por alguns. Nada que me deixasse a tremer como é evidente, mas coisas inesperadas aconteceram mais que uma vez, é algo que me agrada imenso. O isolamento é o prato principal deste jogo. O sentimento claustrofóbico é espantoso, faz com que o jogador sempre esteja atento com o que o rodeia pois tudo é alheio a ele e a escuridão não ajuda.

Mas para facilitar e bem, o jogador tem na sua posse um número de flares, embora limitado até 10, que deve usar em certos momentos do jogo pois nem a luz que ele carrega é capaz de iluminar tudo aquilo que o rodeia. Não que o jogo tenha caminhos alternativos, mas ainda assim é preciso tomar atenção a todos os cantos e portas existentes pois o jogador pode perder-se e andar um pouco às voltas quando dentro de estabelecimentos. Se cair no abismo por exemplo, morrerá devido à pressão existente e aparecerá o ecrã de game over. Os checkpoints estão bem situados por isso não será tão frustrante quanto possa parecer.

É possível perder a vida de várias formas, tais como ficar sem oxigénio, ser atacado por lulas ou até por aracnídeos existentes nas profundezas. Para tal, durante o progresso estão disponíveis vários tanques de oxigénio para reabastecer. O oxigénio é um pouco escasso, o que cria sempre alguma preocupação, até porque por cada susto que o protagonista apanha, o nível de stress aumenta e o consumo de oxigénio aumenta consideravelmente. Para fugir de várias situações, o melhor é usar os propulsores que o fato contém, que servem para esquivar de ameaças e até para subir certas plataformas.


A melhor experiência possível com Narcosis seria jogar com o VR, coisa que não tive qualquer hipótese de experimentar infelizmente. O que fiz foi jogar com as luzes bem apagadas e os headphones num tom alto. É aqui que Narcosis brilha e é poderoso, porque não há nada à volta que possa interferir na experiência. O protagonista também vai narrando lentamente a história e os acontecimentos, uma voz grave e solitária que preenche o espaço vazio do som do oceano sombrio.

Os cenários são realmente qualquer coisa, sem exageros, muito realistas, principalmente quando se joga dentro de edifícios desmoronados, com tectos a cair, pequenos objetos a flutuar e cadáveres por todos os lados. Com tudo isto, a mente do protagonista começa a ser alvo de paranóias, quartos virados do avesso, cadáveres a falar e muito mais a acontecer que vão sempre criar um ambiente que se vive em poucos jogos. A sensação do que é real e ilusório começa a pairar e já não recordava ter uma sensação assim desde que tinha jogado Dead Space, embora em Dead Space haja mais ação, o que neste caso torna o jogo ainda mais realista.

As side quests são muito poucas, mas acrescentam sempre conteúdo narrativo. Colecionando cartões de identificação de pessoas com que o protagonista trabalhou, construindo assim uma base de dados daqueles que perderam a sua vida e o seu sofrimento. Para além destas bases de dados é possível colecionar pertences dos falecidos, para que entregar no final do jogo aos familiares.


O jogo não é muito longo, isto se for jogado com muita atenção, mesmo que se perca tempo a observar os caminhos/portas possíveis de seguir. Mas é de facto memorável, muito mais do que esperava quando o recebi para analisar, e o final é soberbo, sem palavras, parece um autêntico filme, mesmo quando pela conversa começava a desconfiar do seu fim.

É verdadeiramente um jogo que arrepia a pele do jogador, faz sentir um medo e isolamento terríveis, um sentimento que só em Narcosis pude sentir pela primeira vez e eu tenho mesmo muitos anos a jogar videojogos. Para finalizar, com apenas uma faca e uma dúzia de flares ao dispôr, Narcosis é uma experiência única que me marcou bastante. Apenas posso referir que, debaixo do oceano, ninguém nos consegue ouvir.
Nota: Esta análise foi efetuada com base em código final do jogo para a Xbox One, gentilmente cedido pela Evolve PR.