Notícias

Análises

14 de junho de 2018

Vampyr


Quero contar uma história, quando vi o Drácula de Bram Stoker pela primeira vez, estava tão assustado que tinha o dedo no comando para mudar para o Benfica. Havia uma certa segurança no futebol, nos anos 90, mas nem cheguei a mudar. Lembro-me de adorar o filme: a história, as personagens, os visuais. Se na altura metia medo, hoje rio-me do sotaque do Keanu e o Drácula tem mamas na cabeça. E a Monica Bellucci... Agora que já desabafei, vamos começar.

A primeira impressão que tive quando o coloquei na consola foi: por favor, que a história seja boa... Admito que tenho um fraco pelos jogos da Dontnod: Life is Strange roubou-me o coração e o Remember Me era fixolas. O Vampyr deixou-me curioso, cauteloso, mas não me impressionou. Esqueci-me dele e foi uma surpresa quando me caiu na mesa para analisar. Abusei da minha boa sorte com jogos de qualidade e lancei-me à jugular, sugando tudo o que podia para vos dar uma grande análise!, mesmo que a minha primeira reacção tenha sido a de um vampiro a descobrir alho. Cuidado, vou abusar dos trocadilhos vampíricos neste texto.


Vou optar por uma abordagem diferente e quero despachar os pontos "menos bons". Quando despacharmos o elefante no quarto, ficamos à vontade para falar como deve ser, boa? O aviso antes de jogar fez-me rir: dizia para não seguirmos as práticas médicas do jogo para curarmos problemas de saúde reais. Esperem lá, se os jogos podem incitar à violência não podem incitar à medicina? Mesmo que haja um toquezinho de vampirismo? Desde a mensagem até ao jogo começar, temos de avançar por vários menus e alguns loadings demorados até, finalmente, começarmos. Os loadings deste Vampyr são ridículos! Não vivesse uma eternidade, um vampiro morria à espera que o jogo arrancasse. Demora em alguns cenários, quando morremos, em alguns diálogos e, às vezes, faz loading do nada - só pelo puro prazer de me irritar. Os visuais parecem ter vindo de um período estranho da era PS3 e não me interessa que tipo de pilhas é que almejam ser, se AA ou AAA, mas parece que não houve controlo de qualidade. Crashou quatro vezes e tive de reiniciar uma missão porque não dava para avançar. Quando saio do menu, a personagem não responde ou anda na direcção oposta. O som chegou-me a desaparecer em algumas situações e usei uma arma tão épica num boss que o som ficou estragado. Lá tive de reiniciar outra vez.

Fora isto, o resto são implicações minhas: não há fast travel entre esconderijos, não há mini-mapa, as pessoas não estão identificadas no mapa. Tudo isto serve para eu perder tempo a andar de um lado para o outro, abrir o mapa do menu, ir na direcção oposta e andar em modo vampiro à procura da personagem certa. Para um jogo com bastantes viagens para cá e para lá, é uma falta grosseira. Dito e não dito, Vampyr precisava de mais tempo no caixão.

O combate é tosco e bem podem dizer que se inspirou no The Witcher... só que não. Demorei a habituar-me à microgestão de HP, Estamina e Sangue e até lá morri mais vezes do que vou admitir. O HP está relacionado com a saúde, a estamina permite atacar e desviar e o sangue é para usar os poderes de vampiro. O bom disto é que podemos moldar a personagem como quisermos, a árvore de habilidades e estatísticas é vasta e podem escolher um estilo de jogo que vos agrade. Optei por habilidades que imobilizam o inimigo e tenho-me safado muito bem. Além disto podem optar por várias armas desde facas, bisturis, estacas, paus e armas de fogo – podem combinar. Como é que ando? Com um combo de sabre/pistola e pau com arame farpado. Esta última arma, além do dano deixa o inimigo atordoado e à vontade para ser mordido. Não só recuperam sangue e estamina, mas também causam dano extra. Quando se habituarem ao combate, ao lock on e à câmara torna-se mais fácil e intuitivo.

Os esconderijos servem para melhorar as armas, evoluir a personagem e criar medicamentos. Quando se deitam na cama, a noite passa e o mundo avança lá fora.



Ainda assim, mesmo com pontos negativos passei um bom bocado, nay, vários bons bocados e mal podia esperar para chegar a casa e jogar mais. Tinha de saber o que acontecia a seguir e não conseguia resistir aos encantos vampíricos. Às tantas, o que não gostava passou para segundo plano e comecei a aproveitar melhor o jogo – e muito por culta do enredo. As minhas preces iniciais foram respondidas, a história era mesmo boa; talvez das melhores destes últimos lançamentos.

A história começa em 1918, em Londres, no auge da epidemia da gripe espanhola. Jonathan é atacado, morto e acorda transformado em vampiro. Depois dos acontecimentos iniciais e bastante turbulentos, somos acolhidos no hospital de Pembroke, que será a nossa base de operações durante vários capítulos. Para além de um vampiro, Jonathan é médico. Pensem nesta história como um mistério policial e sobrenatural, com um toque de Dr. House. A história final, a de descobrir quem nos transformou e porquê é cliché neste tipo de obras, mas os fios que se entrelaçam nesta trama compensam a viagem nocturna. Além da história principal e respectivas personagens importantes, o jogo, ou Londres, está dividido por distritos. Nesses distritos habitam pessoas que foram uma rede de relações sociais com vidas e destinos também com a sua importância para o mito ou lore.

A Dontnod referiu várias vezes a importância das decisões neste jogo: ajudar ou matar tem repercussões a curto/médio prazo. Interagir com uma velhota fechada em casa, irá influenciar o filho bêbado na rua que, por sua vez, está relacionado com outra pessoa num gangue. E quando a cesta rota se gaba antes da vindima, desconfiei da execução desta mecânica. Até porque a primeira coisa que fiz no tutorial foi matar um inimigo. Entrei logo em pânico porque pensava que já tinha feito asneiras, mas lá descobri que o jogo atira inimigos a torto e a direito que não contam para as estatísticas, mas para o belo do grind. Portanto, podem jogar sem matar ninguém ou podem matar tudo. Um ponto engraçado é como somos médicos, temos de tratar das pessoas e se melhorarmos a qualidade do sangue, mais experiência recebemos. Eis a razão de matar! Seduzir um civil para um beco e enterrar os caninos nos seus deliciosos pescoços dá um boost de experiência incrível (a alternativa é grind e sidequests). Se ignorarmos o Código Hipocrático, deixarmos as pessoas adoecer e/ou matarmos os líderes dos distritos, o nível de qualidade destes baixa e atira-o para uma guerra civil que não tive o prazer de testemunhar. Eu era um excelente profissional, mas fui fraco, sabem?, e mordi a minha primeira vítima quando este admitiu que não iria ser boa pessoa.


E quem morde uma vez, morde mais. A partir daí, estava nas tintas para as pessoas e mordia quem me olhasse de lado. A vítima morria e suspirava uma última confissão. Admito que uma deixou-me particularmente triste e feliz ao mesmo tempo porque tinha feito o melhor por ela. Melhor, pior, bem e mal são apenas chavões. Se virmos bem, nós somos o monstro, o vlião. Um vilão que pode curar pessoas e mata caçadores de vampiros que querem livrar Londres de monstros. É uma maneira retorcida de ver as coisas que foi bem feita. E algumas decisões ao longo da história têm peso e se algumas me custaram, algumas foram tomadas por puro sadismo. Afinal, sou ou não sou uma criatura da noite?

E a música? Oh, que música tem. Os temas melancólicos da banda sonora, os violoncelos tristes e rasgados, o crescendo e o ritmo acelerado quando tomamos uma vida. As notas que acompanham os vários momentos chave. Bela, perfeita, uma vitória neste campo.

Bram Stoker pode não ter criado o mito do vampiro, mas caraças se não me está a dar vontade de ver o filme pela enésima vez! Ou a Entrevista com o Vampiro já que estamos nessa onda. Ou aquele filme do Leslie Nielsen! E é claro que os easter eggs estão presentes. E como não joguei Vampire: The Masquerade não tenho muito para comparar, mas admito que já sentia falta de algo diferente e dentro deste universo. Adoro zombies e não quero falar por todos, mas já estava cansadito dos monstros. A solução é este Vampyr, um jogo para quem tem saudades do ambiente de Bloodborne, mas tem medo de meter o disco na consola; um jogo para quem está apaixonado por vampiros que não brilham e um jogo para quem tem medo e tem o dedo no comando e está pronto para mudar para o Benfica.


Vampyr sai para a noite com um Satisfaz Bastante ou com um Menos Bom. Parece as minhas notas do ciclo quando me diziam que tinha potencial para melhor, mas não era um caso perdido. Atirei a moeda ao ar e calhou-me o Bom. E porque me diverti bastante. E porque há razões para voltar e para tomar outras decisões, para construir uma personagem diferente, para sermos bons ou maus. Para conquistarmos a noite, assim como me conquistou a alma mortal.

Nota: Esta análise foi efetuada com base em código final do jogo para a PlayStation 4, gentilmente cedido pela Ecoplay.