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30 de novembro de 2017

Xenoblade Chronicles 2


Lançado em 2010 para a Wii, Xenoblade Chronicles foi um dos grandes títulos da consola e considerado por muitos como o grande RPG da sua geração. Uma fasquia elevada para se começar uma nova franquia que, espiritualmente, sucede aos clássicos Xenogears e Xenosaga. Em 2015, sucedia-lhe Xenoblade Chronicles X, um RPG open world que trocava a fantasia pela ficção científica mas não causou o mesmo impacto. O que não se sabia era que, entretanto, já a Monolith trabalhava numa "sequela" do título original, regressando aos temas de fantasia que há 7 anos deixaram boquiabertos os amantes de jogos RPG japoneses.


Em Xenoblade Chronicles 2, somos levados a conhecer o mundo de Alrest, dominado por um oceano de nuvens em torno da gigantesca World Tree. Pelo mar, circulam colossais Titans onde habitam os humanos e restantes povos de Alrest. Reza a lenda que, outrora, os humanos viveram em harmonia num local paradisíaco, o Elysium, mas acabaram expulsos pelo seu criador. Os colossos foram então criados para que os humanos pudessem neles sobreviver, mas também estes são mortais. Haverá um prazo marcado para o fim da humanidade?

A história arranca quando Rex, um jovem que se dedica a mergulhar às profundidades do mar de nuvens em busca de tesouros e materiais preciosos, é convocado para uma missão altamente secreta. Neste mundo, existe um tipo de armas que são também personagens (Blade) e combatem lado a lado com o guerreiro (Driver) que as despertou. Inadvertidamente, Rex acaba por se envolver demasiado na missão e dá por si vinculado a uma Blade muito especial, de seu nome Pyra, cujo principal desejo é chegar ao Elysium. Será mesmo possível chegar lá? Assim surge uma nova esperança, que servirá também de mote a uma grande aventura.

Claro que a história do jogo não é assim tão simples. Pyra é uma Blade muito cobiçada e o enredo ainda irá dar enormes voltas e reviravoltas, twists surpreendentes e outros nem por isso - não o fizesse e seria uma tremenda desilusão para os fãs do título original. Infelizmente, isto também passa pelo lugar comum de personagens que omitem informação aos seus próprios aliados, para depois culminar em revelações dramáticas. Houvesse mais honestidade e o pobre Rex poderia saber logo de início onde é que se estava a meter. O lado positivo é que os personagens são realmente interessantes e agarram a atenção do jogador desde o primeiro minuto. Uma história envolvente, que intercala momentos sérios com alguma tontice e brincadeira mas deixa sempre o jogador a querer saber mais e mais.


O jogo consiste, então, na exploração destes colossais Titans e as suas sumptuosas paisagens em busca de respostas e uma forma de chegar ao paraíso. Pelo caminho, uma enorme diversidade de inimigos para combater, side-quests para fazer e tesouros para descobrir. Durante a aventura controlamos uma equipa de 3 personagens, cada um acompanhado por até três Blades no máximo, embora em combate cada Driver só possa usar uma Blade de cada vez. Tudo o que fazemos no jogo dá experiência para subir de nível e aumentar a afinidade entre guerreiros e armas, ficando assim mais fortes e proficientes.

Ao longo do jogo vamos adquirindo Core Crystals, que podemos vincular a qualquer um dos Drivers na equipa e assim dar origem a uma nova Blade, que poderá ser de qualquer elemento e utilizar qualquer tipo de arma, além de ter diferentes estatísticas. Quando maior a raridade do cristal e mais evoluído estiver o Driver, melhor será também o potencial da Blade e maior a probabilidade de obter uma rara, com desenho especial e habilidades exclusivas, que podem ser utilizadas em combate ou no terreno durante a exploração. É complexo, sim, mas a forma como tudo vai sendo gradualmente introduzido torna mais fácil a aprendizagem.

O tutorial é extenso, mas não é intensivo. A cada nova mecânica introduzida, o jogo deixa passar o tempo de assimilação dos conceitos antes de passar para a seguinte. Isto é fundamental, especialmente porque o sistema de combate também é bastante complexo de explicar, embora simples de utilizar. O personagem que está à frente da equipa é o único que controlamos diretamente e podemos deslocar livremente. Se estiver ao alcance do inimigo, ataca-o automaticamente, enchendo as barras de energia para os ataques manuais, chamados Arts. Ao utilizar Arts, vamos enchendo um contador de afinidade da Blade, que pode ir até quatro níveis de energia e serve para um ataque especial da intensidade correspondente e do elemento da Blade. Entretanto, as duas Blades que não estão a combater vão carregando a energia para as suas Arts, pelo que pode ser boa estratégia ir alternando entre elas. Depois há ainda os combos entre os três Drivers e respetivos elementos que, bem utilizados, podem resultar em ataques devastadores. E há os efeitos dos ataques nos inimigos, que podem e devem ser utilizados para nossa vantagem. Há tantos fatores e variáveis em jogo nas batalhas que só podemos mesmo agradecer pelo tutorial nos dar tempo de aprender.


Infelizmente, o que o tutorial não ensina é como utilizar os menus. O jogo tem uma das interfaces menos intuitivas de sempre no que diz respeito a RPGs japoneses: organizar a equipa, gerir as Blades que acompanham cada personagem, ver o inventário... Quase que é preciso tirar uma licenciatura. Tudo se resolve com habituação, mas o menu de gestão de quests é tão atabalhoado que quase mais valia não existir e deixar as missões à sorte. Curiosamente, um outro menu de missões, onde podemos enviar Blades que estejam "encostadas" para resolver e ganhar experiência, consegue ser dos menos atrapalhados.

O pior é mesmo quando se quer consultar o mapa. Há um mini-mapa no ecrã de jogo, que pode ser omitido ou expandido a sobrepor a imagem, mas não há uma simples opção de consulta do mapa para ver o que há em redor. O que há é um atalho para o menu de viagem rápida, que começa com uma lista de Titans, sub-lista de regiões e respetiva sub-lista de áreas a explorar. Como é que deixaram isto acontecer? O mapa é tão mau que mais vale aprender a geografia do jogo, pois ele só irá servir mesmo para o "fast travel". Por falar nisso, este é mesmo rápido, com "loadings" de 1 a 2 segundos caso a viagem seja dentro do mesmo Titan. Tecnicamente é impressionante a quantidade de informação que o jogo suporta de uma só vez, mas em compensação houve sérios compromissos na componente visual.

Xenoblade Chronicles 2 está longe de ser o jogo mais bonito ou visualmente impressionante da Nintendo Switch, sendo que no modo TV temos a melhor apresentação, mas também a mais inconsistente. Personagens óptimos, paisagens incríveis, texturas estranhas, NPCs e alguns inimigos com aspeto mais descuidado... Os cenários em ambientes interiores são os piores, parecendo saídos de um qualquer jogo de PC dos anos 2000. No modo portátil, há uma redução notável no detalhe da imagem, cores e efeitos de luz. Em compensação, tudo se torna mais consistente apesar da perda de resolução e algum "brilho". A questão é que os cenários, as paisagens, têm uma arte incrível, mas nem sempre a imagem do jogo lhes faz justiça. Temos um grafismo bastante melhor com a consola ligada à TV, mas fica sempre patente a falta de algum polimento e optimização. Terá sido um jogo demasiado ambicioso para a plataforma, ou simplesmente carecia de mais tempo em desenvolvimento?

Modo TV (esq.) vs. Modo Portátil (dir.) - Carrega nas imagens para ampliar.

Por outro lado, um dos aspetos mais notáveis de todo o jogo é a sua banda sonora. Quem tiver jogado o primeiro Xenoblade Chronicles irá recordar facilmente temas como o épico Gaur Plains. Pois bem, em XC2 o que não falta são temas tão ou mais impressionantes! A cada novo Titan, a cada nova cidade, uma nova faixa para nos deslumbrar. Temas orquestrais e de longa duração, para não cair no repetitivo, com versão diurna e noturna, preenchem o imaginário deste mundo durante a exploração. As paisagens são melhores graças às músicas que as acompanham. As batalhas, essas, interrompem toda a envolvência com um rock frenético, que varia consoante a importância do inimigo em questão. Há músicas de cidades que dariam o tema principal de um qualquer outro jogo, ou até de um filme de animação. Poucos jogos na história se podem gabar de uma banda sonora deste calibre e que merece ser ouvida até por quem não liga ao mundo dos videojogos.

Isto traz-nos às vozes, um tema divisivo no jogo devido à sua localização feita na Europa e com atores britânicos, como tinham feito no primeiro jogo. No geral, as vozes são bastante boas, mas nem todas se enquadram completamente nos personagens. Infelizmente, são uma mera dobragem das vozes japonesas, pelo que não há sincronização dos lábios com aquilo que os personagens estão a dizer. No dia de lançamento, será disponibilizado um DLC gratuito com as vozes japonesas, para quem preferir jogar com o áudio original.


Após cerca de 30 horas de jogo, há ainda imenso em XC2 por descobrir e aprender. A história já levou umas quantas voltas, algumas expectáveis, mas continua deveras interessante. O jogo não convida a apressar, mas sim a apreciar. Há muitos motivos para voltar aos Titans já explorados, interagir com todos os habitantes e aceder a novas quests, algo que beneficia bastante com a portabilidade da Switch. O mundo de Alrest é tão fascinante que é difícil não adorar o jogo, mesmo quando se dá de cara com todas as suas falhas, algumas delas profundas ao nível do design, ou quando a história decide enveredar por algum humor idiota.

Por entre os problemas de execução, conseguimos vislumbrar neste jogo a excelência. Um mundo inspirador, cenários e personagens inesquecíveis e uma banda sonora maravilhosa. Tudo isto são razões para voltar sempre a Xenoblade Chronicles 2, que se afirma como o primeiro grande RPG da Nintendo Switch.
Nota: esta análise foi efetuada com base em código final do jogo para a Nintendo Switch, gentilmente cedido pela Nintendo.