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9 de novembro de 2017

The Flame in the Flood


Duas coisas acerca deste The Flame in the Flood. Esperava outra coisa e adorei a banda sonora.

Talvez a culpa tenha sido minha, talvez devesse ter investigado melhor o jogo em vez de ir às cegas. Eu pensava que Flame tinha um enredo, mas é um roguelike. Quer dizer, o jogo tem um fim – só, até lá segue todas as fórmulas do género. Mas gostei mesmo, mesmo da banda sonora e vou fazer algo de diferente nesta análise que é começar por ela. Chuck Ragan pode ser um nome desconhecido para muitos, mas o senhor já carrega uns bons anos de carreira musical e é vocalista da banda Hot Water Music. Este jogo foi o seu primeiro projecto e, meu deus, que delícia.

Agora sobre o jogo. Ainda me lembro das palavras de uma professora de faculdade sobre a Great American Wilderness e toda a vastidão desconhecida do continente Norte-Americano. Senti isso em alguns jogos: Red Dead Redemption; de certa forma, no The Last of Us e este Flame trouxe de novo esse sentimento. E bastou a música. Os banjos, a voz rouca, as lamurias e a velocidade do Chuck. Vamos passar muitas vezes numa jangada, rio abaixo, portanto o ritmo adequa-se tão bem e dá aquela pica de aventura e adrenalina. Mas eu vivo de histórias e o jogo podia ter uma, mas o que tem é um sistema de sobrevivência para ver quanto tempo duramos naquele mundo – e quanto a isso, eh, nem é mau.


O jogo começa num mundo pós-apocalíptico e coloca-nos na pele de uma menina, a Scout, que tem um cão ou cadela, Aesop ou Daisy, e começamos a segurar um rádio a emitir estática. Ora, o objectivo inicial e principal é seguir essa emissão, com alguns secundários pelo caminho – e é este a personagem mais importante, o caminho, a alma americana: a estrada aberta. Aqui nem tanto uma estrada, mas um rio bravo que não perde uma oportunidade de nos afogar. E enquanto desbravamos aquele mundo, temos de lutar contra os elementos, a doença, a fome e predadores, no geral: contra a morte que vem de várias formas e feitios. Morri afogado, morri esfomeado, morri de doenças e atacado por um javali e formigas. Morri, morri, morri e nisto só aguentei quatro dias.

O jogo é uma corrida contra o tempo, é uma adrenalina constante para achar mantimentos e usá-los da melhor forma. Vamos construir uma fogueira com boas pedras que podemos usar num martelo? Vamos mastigar aquelas folhas para matar a fome, enquanto podemos fazer um chá para curar sepse? Fazer roupa nova? Arranjar a jangada? Deitar itens fora porque estamos cheios? Neste caso ainda podem distribuir pelo animal ou deixar na jangada, mas se naquele momento estivermos longe deles, nada a fazer. Uma vez morri à fome porque o cão fugiu com umas maçarocas…


Como é apanágio destes jogos, o parceiro, a IA, serve para nos alertar para os mais diversos perigos, itens ou pontos de interesse. É o nosso GPS. Às tantas lá nos encontra umas caches com mais missões. De resto, senta-se na jangada e espera por atracar. Existem diversos sítios para descansar e explorar: igrejas, acampamentos, lojas de pesca para arranjar a jangada, etc.

O jogo não é fácil, mas há vários modos de introdução: o modo Campaign com checkpoints que guarda os itens do cão quando morremos e o modo Endless que, como o nome indica, não tem fim e se morrermos é definitivamente. No modo Campaign temos o Traveler e o Survivalist que correspondem ao modo Normal e Hard.

Voltando ao início, ao aspecto técnico de The Flame in The Flood, e aos visuais do jogo devo dizer que fiquei surpreendido pela positiva. A The Molasses Flood apostou num estilo mais caricaturesco que funciona bem, com paletes de cores mortas, mais castanhas para fazer jus ao mundo pós-apocalíptico. Se há algo a apontar é que no modo portátil, as letras são muito pequenas e dificulta a leitura. E como passamos muito tempo em menus e no inventário, lá se vão as contas do oftalmologista. Um detalhe riquíssimo que adorei são as citações, que surgem nos menus, de autores norte-americanos. Portanto quando a minha mente voou para essas aulas de faculdade foi por alguma razão.


Para concluir, The Flame in the Flood não mete água. Pode não ser o jogo para mim, mas para os amantes de roguelikes ou de sobrevivência ou até para os escuteiros, é o jogo perfeito para suar de ansiedade quando estivermos a morrer à sede e só tivermos termos água da chuva. Bebam. Aguentem e passem um bom bocado. Ou vários, porque vão querer repetir o jogo vezes sem conta.


Nota: Esta análise foi efetuada com base em código final do jogo para a Nintendo Switch, gentilmente cedido pela Curve Digital.