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10 de outubro de 2017

Thimbleweed Park


Thimbleweed Park é o primeiro point-and-click na nossa Nintendo Switch e está no sítio ideal para ser jogado. Aquele ecrã táctil não está ali para enfeitar e haver a opção de jogar com comando ou com toque é aquele compromisso que dispara a Switch para a frente da concorrência. Para a análise tentei jogar com um comando e era para lá de chato arrastar a seta com o analógico, percorrer o menu de acções e clicar em cada píxel do cenário. Tirei a consola da base, encostei-me no sofá e melhorei a minha experiência de jogo. É que é mais intuitivo passar o dedo pelos objectos, menus e personagens. Aliás, há inclusive um segredo para facilitar o jogo: se deixarem o dedo premido no cenário, os ícones clicáveis são iluminados. Não é obrigatório usarem esta dica, mas que ajuda, ajuda.

Ainda em dicas, o jogo está feito para novatos e veteranos – pela parte que me toca, a de entusiasta, agradeço toda a ajuda possível porque o jogo chega a ser desafiante e, às vezes, a resposta está mesmo à nossa frente, mas na altura não enxergamos nada.

Mas o que é Thimbleweed Park?, e não Tumbleweed, como andava para aí a dizer. Thimbleweed é um point-and-click gráfico como já mencionei acima. Saído da cabeça de Ron Gilbert e Gary Winnick e dos bolsos dos fãs via Kickstarter, o jogo viu a luz do dia em março de 2017, mas a versão da Switch saiu agora em setembro. E como mais vale tarde do que nunca, posso dizer que até temos das melhores versões – eu sei, posso estar a repetir-me, mas eu quero que a mensagem chegue ao hiperespaço dos manda-chuva dos jogos da Switch e que apostem em mais jogos do género. Os remaster de Day of the Tentacle ou Grim Fandango? E porque não? Não me quero perder, vamos voltar à polpa da análise. Thimbleweed teve uma campanha bem sucedida, não fosse pelos nomes atrás do projecto e a quantidade de dinheiro angariada permitiu fazer mais e melhor: vozes, novas mecânicas, mais consolas.


Este jogo pode ser considerado uma sequela espiritual ao Maniac Mansion, que não joguei, e volta a trazer o saudosismo de 1987 aos dias de hoje. Melhor ano, atenção, não querendo ser tendencioso. A história começa com um assassínio e cabe aos dois agentes, Ray e Reyes, desvendar o caso. Aos agentes juntam-se outras personagens, Delores, uma programadora de jogos e o palhaço Ransome, que é só das melhores personagens que tive o prazer de jogar. Não houve um momento em que não me ri com ele – e ainda bem… porque o jogo tem a sua dose de problemas.

Não sou o maior entendido de point-and-clicks, mas gosto de saber que ainda percebo alguma coisa de narrativa. Thimbleweed começa tão bem: um homicídio para resolver, mas rapidamente perde o fio à meada e enrola-se num novelo de enredos que no fim encolhemos os ombros, olhamos em volta e perguntamos o que raio se passou. Este é o ponto menos bom (não negativo) a escrever porque as histórias que nos são introduzidas não são más; a revelação final é muito boa e a resolução é também ela boa, mas eu gosto de conclusão. E não, não vou dizer o que ficou para trás. Ao mesmo tempo, sinto que que os escritores esqueceram-se do seu próprio lore e isso fez-me andar às voltas sem qualquer necessidade. Salvou-me a linha telefónica do jogo que nos dá dicas se ligarmos para um certo número. E há este detalhe também: o jogo é demasiado meta ou foca-se demasiado em si ou a quebrar a fourth wall. Se de início as piadas até têm piada, mais para o meio conseguem cansar, mas no final até entendemos o porquê das piadas. Desta vez ganhas,Thimbleweed.

Mesmo não gostando da história, acabarão por gostar de alguma personagem e quererão levá-la a bom porto. Não é um mau jogo, mas perde-se a meio e não sabe muito bem para onde quer ir. Talvez por haver vários objectivos em simultâneo, várias personagens e de estarmos sempre a trocar. Preferia algo mais linear, mais contido e que se focasse, por exemplo, só no primeiro caso. Não sou eu que mando e lá consegui acabar com algumas ajudas. Não me envergonho, usei ajuda! Em minha defesa estava a jogar no modo difícil – sim, podem alterar a dificuldade porque o jogo não facilita. Há imensas bolas curvas ou red herrings como itens que não servem para nada ou diálogos que não levam a lado algum e, de novo, está tudo explicado.

A nível técnico o jogo é irrepreensível. Os gráficos levam-nos à época áurea do género, mas com aquele aprumo da tecnologia de hoje. A banda sonora é agradável e até se adequa ao tema com uma vibe noir.



Portanto, sim! Thimbleweed Park vence por ser o primeiro. O jogador vence por ter conteúdo de qualidade na palma das mãos e uma (várias) história rica para se deleitar. Dá para pensar, dá para frustrar, dá para rir imenso. A ti, Ransome. Que haja mais personagens como tu. Não há falta de variedade na Nintendo Switch, só há falta de tempo. Espero que estas palavras tenham convencido alguém a experimentar o jogo e garanto que se forem fãs do género, não se irão arrepender.

Sai daqui com um Muito Bom.

Nota: Esta análise foi efetuada com base em código final do jogo para a Nintendo Switch, gentilmente cedido pela Terrible Toybox