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31 de outubro de 2017

The Count Lucanor


Eu não fazia ideia que The Count Lucanor era ligeiramente baseado num livro castelhano com o mesmo nome, Tales of Count Lucanor (com a tradução do título a ajudar na resolução do jogo).
Ligeiramente, vá, partilham o mesmo nome, o nome de algumas personagens e um sistema de morais. As histórias curtas compiladas no livro ditam exemplos a seguir na vida, ao passo que o jogo existe para tornar a nossa mais assustadora. Vá, a mensagem que o jogo transmite é honesta, mas o meio para lá chegar… bem, digamos que tive o prazer de jogar um dos jogos mais inquietantes dos últimos tempos. Sim, passei ao lado de muitos com o mesmo efeito, mas estamos aqui a discutir Lucanor.

Passem os olhos por um trailer, não parece ser nada de especial, certo? Desenganem-se. Comecem a jogar antes de julgarem este livro pela capa. O início é uma bola curva, parece um RPG tipicamente angsty de um jovem à procura de aventuras, recebe uns itens da mãe e lá parte pela floresta. No caminho encontra algumas pessoas com que pode interagir e após determinadas decisões, lá segue caminho até à mansão do Count Lucanor. Aventura? Fama? Fortuna, tudo à mão de Hans, a personagem, mas para tal só tem de avinhar o nome da criatura que o recebe. Não se preocupem, não é spoiler, é mesmo o pontapé de saída para um dos jogos mais marados do catálogo? Posso dizer marado nesta análise? Pois é o adjectivo que melhor se adequa. O jogo muda de tal maneira que parecem dois jogos diferentes, é literalmente uma mudança do dia para a noite como se entrássemos numa dimensão paralela onde os nossos medos e horrores ganhassem vida. Estamos a falar de cabras bípedes que berram atrás de nós, encapuçados a deambular pelos corredores e personagens macabras com objectivos próprios na mansão. Nem todos são maus, atenção, há personagens que saem do seu caminho para ajudar e é uma alegria encontrar alguma normalidade.


A atmosfera do jogo é pesada e macabra, bastante acentuada pelos visuais do jogo. Diria que saiu das entranhas de um RPG Maker e isso não ajuda, sabem? Pensamos que é mais um jogo com gráficos datados e básicos, com cutscenes pixelizadas, mas quando entramos naqueles corredores, gente… Não há jogos da nova geração que façam frente. Acham que estou a exagerar? Talvez. Se calhar sou eu que me assusto facilmente… Um jogo não vive apenas dos visuais, fosse só isso e o jogo não mexia com ninguém, mas a atmosfera que falei é complementada na perfeição pelo departamento sonoro que está de parabéns. Faço aqui uma vénia à Baroque Decay pelo trabalho excepcional e arrepiante. O jogo tem poucas músicas, mas os efeitos sonoros são qualquer coisa. Os inimigos, os sussurros (não sei porquê, mas lembram-me a voz baixa do vocalista dos Cradle of Filth) na mansão, etc, etc.

É tudo tão claustrofóbico que me consegue deixar com uma dose de adrenalina que me remete aos dias de Bloodborne. E falando nisso, vão morrer algumas vezes. E quando acontecer, o ecrã que vos irá receber vai lembrar-vos do jogo. A dificuldade não é elevada, muitas mortes deviam-se à minha azelhice, mas aconteceram com inimigos ou armadilhas. É fácil serem apanhados, não há maneira de matar ou lutar, mas há um sistema de jogar às escondidas engraçado: esconder atrás de cortinas, passar por baixo de mesas ou atalhos. Isto não lembra um pouco o Clock Tower? Yeap. Ainda sentem mais o desespero.


O jogo também não facilita, não há checkpoints nem itens curativos ao pontapé. Para gravarem é preciso pagarem em moedas. Ou usam-nas na loja ou gravam o jogo. Ah, decisões. E para se curarem há que comer pão, queijo, entre outras coisas. Tudo guardado no inventário que é o ponto menos positivo no jogo: não é intuitivo. Ou paramos o jogo e vamos lá ou temos de clicar no Z/R para andar a procurar o que queremos. E como temos de andar sempre com as velas na mão, se as tiramos para escolher algo para um puzzle, lá ficamos às escuras.

Esperem, não falei desta mecânica? Ora, a mansão está às escuras e o que nos salva são umas velas que apanhamos. São ainda bastantes, não se preocupem. Podemos andar o jogo todo com uma na mão a alumiar o caminho ou espalhá-las pelos corredores e cantos. Aliás, até aconselho a fazerem-no porque não sabem o que se esconde nas sombras. Podem ouvi-los, mas quando os virem já é tarde de mais.


The Count Lucanor é aquele jogo que poderá ser ignorado devido ao seu visual estranho, partes querido, partes o-que-é-isto, mas se gostarem do género de terror, de uma boa experiência e de um jogo curto – sim, entre três a seis horas acabam – não há como falhar aqui. É o jogo perfeito para o Halloween, joguem mas é de auscultadores e à noite. É só um conselho de amigo.

Nota: Esta análise foi efetuada com base em código final do jogo para a Nintendo Switch, gentilmente cedida pela Merge Games