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6 de outubro de 2017

Deemo

Análise por Diogo Ribeiro

Anunciado pouco antes do seu lançamento para a Nintendo Switch, Deemo é um jogo com o qual não contava e, confesso, era completamente alheio. Criado pela mesma empresa de VOEZ, a Rayark Games, Deemo integra-se na mesma categoria de ritmo/música e ambos partilham muitas semelhanças, como não poderia deixar de ser. É curioso que a Rayark tenha decidido agora lançar Deemo, pois cronologicamente, Deemo é antecessor a VOEZ (2013 vs.2016). Talvez derivado ao sucesso de vendas que VOEZ teve na consola, Deemo é mais uma importação para a mesma de um jogo que apenas pode ser jogado em modo portátil.

Ao contrário de VOEZ, Deemo apresenta a sua história através de pequenos vídeos e exploração do mundo de jogo, desbloqueando conteúdo quer musical quer de enredo. Funciona quase como um “point-and-click” neste aspecto, em que temos que procurar pistas pelo mapa. O jogo possui inclusive tradução em português das falas da protagonista Alice, uma pequena rapariga perdida pelo mundo estranho de Deemo, um pianista/organista que ao tocar, faz crescer aos poucos um árvore, que irá ajudar Alice a escapar daquele local. A história é de algum modo o foco do jogo, especialmente na fase final, mas podemos sentir que por vezes serve de desculpa ao desbloqueio do conteúdo musical. Contudo tem uma direção artística bonita, em alguns momentos bem casada com a banda sonora, e é preciso jogar algum tempo (talvez até ao desfecho final) até conseguirmos realmente perceber o seu conteúdo.


Musicalmente, Deemo é restrito nos seus estilos musicais: o foco está na música pop e banda sonora/”neo-clássica”, com algumas faixas de electrónica e jazz intercaladas, entre alguns outros estilos. Isto acontece pois neste jogo o piano é o instrumento de destaque, fazendo o paralelo à personagem Deemo, e os próprios botões que tocamos ao ritmo da música têm um “playback” de som de piano. As mecânicas de jogo são simples e apenas duas: clicar os botões que vão descendo ao longo da música, e clicar e manter premido ao longo dos vários botões de arraste. Isto torna o jogo bastante mais simples que VOEZ e até mais intuitivo, já que além disso temos também o facto de haver dois tipos de botões diferentes que distinguem entre a parte instrumental de piano e as outras. Além disso temos ainda a possibilidade de ajustar a velocidade das canções, o volume da canção e dos botões que premimos, e nas opções, de activar sombras meramente decorativas e desactivar o playback sonoro desses mesmos botões (“Effect” e “Key Sound”).

Para mim uma das grandes falhas do jogo passa pelo “design” dos menus e do seu interface. Estes são muito pobres e na maioria parece que não iriam reagir ao nosso toque, o que faz pensar que nem são menus para interagir. Por exemplo, para alterarmos a dificuldade das canções, temos um botão redondo com uma semínima, colcheia ou semicolcheia, mas em momento nenhum nos é indicado esta possibilidade de ajuste. Deemo melhoraria imenso com uma apresentação um pouco mais bem cuidada neste aspecto. Aliás, isto é algo que se sente em Deemo: a falta de um acabamento final muito superior. Só o facto de a opção de alteração do idioma apenas mudar as falas da história demonstra que falta um pouco mais de esforço. Chamem-me picuinhas, mas a qualidade de um título vê-se muitas vezes no acabamento dos seus pormenores.


O ponto forte do jogo é de alguma forma a sua história, e além disso é um título até agradável de jogar em alguns momentos, mas devido à fraca qualidade das canções (quer da sua estrutura musical, quer da qualidade dos próprios sons e temas pouco interessantes e repetitivos) fica um pouco aquém do que se poderia esperar, como um todo. Pois como não poderia deixar de ser, essa vai ser sempre a razão porque acabamos por experimentar um determinado jogo deste género: a sua qualidade musical. Após muitas horas de jogo, não sou capaz de voltar a esta ou aquela canção, tal é a minha falta de identificação com o repertório aqui proposto. A jogabilidade no geral é boa , mas pode tornar-se rapidamente repetitiva e em alguns momentos até um pouco confusa, quando em alguns casos podemos ouvir várias linhas de piano em simultâneo, tanto a que estamos a tocar como uma outra secundária.

No geral é isto que sinto com Deemo: um jogo que fica um pouco aquém das expectativas, com bastante conteúdo (quantidade não é qualidade), que poderia ser muito melhor com uma produção no geral mais bem conseguida e mais alguma variedade. A parte musical é discutível e vai depender do gosto de cada um, visto tratar-se de música produzida por artistas asiáticos, cujos “sabores” musicais variam dos nossos, mais ocidentais, e também um pouco mais sóbrios. Mas neste caso, não se trata apenas de um estilo musical “mais asiático”, mas sim, uma vasta falta de qualidade das canções. É uma pena pois a história é realmente muito emotiva e triste, bem ligada com algumas canções mais melancólicas, mas a funcionalidade do jogo não lhe faz juz.


A comparação com VOEZ é inevitável, visto já estarem os dois à venda na eShop, dentro da mesma categoria de jogo, e produzidos pela mesma companhia. Na minha opinião, não há razão nenhuma para preferirmos Deemo além da sua história, já que VOEZ é mais funcional, esteticamente mais bonito, com uma qualidade de produção superior, e uma selecção musical acima.


Nota: Esta análise foi efetuada com base em código final do jogo para a Nintendo Switch, gentilmente cedido pela Flyhigh Works.