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12 de maio de 2017

Little Nightmares


Todos temos os nossos medos sem compreensão, os nossos pesadelos que, de vez em quando, lá nos acompanham durante a noite. É com uma premissa ligada a este tipo de terror que surge Little Nightmares, um jogo indie da Tarsier Studios, equipa essa envolvida em jogos como Little Big Planet ou Tearaway Unfolded, que nos convidam a entrar num universo bizarro em que a lógica é questionável. Afinal, que lógica existe por detrás dos sonhos?


Este é um jogo que teve um ótimo início de vida, recebendo o prémio de melhor jogo Indie da Gamescom em 2016 [link], e embora tenha sido um jogo pouco falado, foi puxando o interesse aos curiosos que queriam entrar no The Maw, o local grotesco desta aventura. Lá acompanhamos a fuga de Six, a pequena mas corajosa protagonista que terá de escapar, fugindo de sítios que facilmente podemos encontrar nos pesadelos de muitos de nós.

Tendo estado entre esses curiosos, fiz o possível para evitar spoilers ou até mesmo ver o mínimo possível de vídeos e imagens do jogo. Estava bastante curioso, e queria que todos os pontos da aventura fossem uma surpresa! Lancei-me assim para este mundo desconhecido, e nessa escuridão caí, sem qualquer introdução ou sequer saber o que se passava, para além de uma misteriosa figura esguia que aparece numa breve sequência. De imediato o jogo conseguiu cativar toda a atenção, lançar todo um conjunto de questões que iam desde o simples "onde estou" aos constantes "que criaturas são estas?"


Os primeiros momentos do jogo serviram-me para aprender as mecânicas do jogo, e sem quaisquer tutoriais ou mensagens pop-up a explicar os botões (que existem, aparecendo apenas quando estamos presos), respeitando bem aquela que é uma aventura sem quaisquer textos, sequências ou até mesmo história a contar, afinal, o que se passa. É uma aventura em que a descoberta é constante, ao atravessar os cenários que temos de escapar, repletos de perigos e monstros que nos querem capturar (sabe-se lá para fazer o quê, mas possivelmente o pior).

A aventura em si é bastante linear, levando-nos a percorrer os vários cenários sem quaisquer problemas em saber por onde ir. O principal desafio é atravessar as salas sem que os inimigos dessem por nós, e à disposição existem vários sítios onde Six se consegue esconder: caixas, debaixo de mesas, atrás do armário, etc. Infelizmente a nível de puzzles o jogo deixa muito a desejar, já que eles praticamente não existem ou são extremamente óbvios. Estava à espera de encontrar vários enigmas, algo que o estilo de jogo proporciona, mas tal não aconteceu.


Já os cenários em si? Incríveis! Passei grande parte do jogo a observar os pequenos detalhes, desde papéis de parede, os quadros que embelezam as várias divisões, as inúmeras prateleiras e livros que várias vezes serviam de escadas, a comida com aspecto duvidoso, entre mais. Sente-se que houve uma especial atenção ao desenhar os níveis, principalmente pela parte estética que é o ponto mais forte do jogo. O bom uso de bloom lightning, causando um efeito mais analógico, até mesmo etério, e ainda a câmara que baloiça suavemente, fazendo vários elementos do cenário mover de acordo (existindo um motivo para tal), dão uma sensação de "sonho" ao jogo, que funciona na perfeição. Mesmo a música, ou melhor, os vários efeitos sonoros que acompanham Six na sua aventura, embelezam bastante.

Mas a admiração pelos cenários agravou apenas um outro problema do jogo, a sua longevidade. Este é um jogo curto, talvez demasiado curto, e fiquei a querer bastante mais. Mais níveis, mais desafios, mais personagens bizarras de quem fugir, mais cenários fantásticos para observar detalhadamente. O jogo também não é muito desafiante, sendo que existe uma ou outra morte frustrante fácil de ultrapassar à segunda vez, e não existe muita penalização por morrer. Existem também pequenas coisas a encontrar nos cenários, como os pequenos Nomes, criaturas com cabeça em forma de cone (que me lembra do icónico monstro de Silent Hill), lamparinas e velas para acender, e até bonecas de porcelana para destruir e libertar uma espécie de essência espiritual delas.


Algo que acompanha todo o jogo é um certo misticismo e imensas coisas que não têm explicação, o que me agradou imenso pois deixou-me a pensar sobre o que estava a suceder. Passei o tempo todo a fazer várias interpretações sobre as personagens, fossem elas crianças (tal como a Six), os pequenos Nomes e até mesmo os monstros. Não há explicações para nada ou sequências, só mesmo os curtos eventos pré-definidos em que Six, constantemente cheia de fome, come o que tem à disposição. Sei que é algo que pode frustrar muitos, e para os interessados o website oficial [link] tem informações sobre a história, personagens e o The Maw, mas fiquei extremamente satisfeito por não ter respostas a tudo.


É impossível não recomendar o jogo, principalmente aos que gostam particularmente de visuais mais fantásticos e experiências algo diferentes do normal, mas infelizmente a aventura fica a saber "a pouco", quer pela longevidade e até mesmo conteúdo no jogo. Talvez tenha ficado algo desiludido, por ter jogado Tearaway que conta também com visuais incríveis, e com mecânicas únicas que me deixaram bastante satisfeito. Fora esses problemas, Little Nightmares é um jogo onde a fantasia reina, que me prendeu e mergulhei por completo em The Maw, principalmente ao jogar às escuras e com os headphones ligados!


Nota: Esta análise foi efetuada com base em código final do jogo para PC, gentilmente cedido pela Bandai Namco Entertainment Europe