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28 de março de 2017

Little Inferno


"Nem sequer é um jogo", dizem. Quatro anos depois do seu lançamento na Wii U e subsequentes versões para PC e dispositivos móveis, Little Inferno regressa à Nintendo Switch em busca de uma nova oportunidade. Na minha análise à versão da Wii U, comecei por lhe chamar uma "perda de tempo", embora o jogo seja tudo menos isso. Na verdade, ao longo do tempo entretanto passado, apercebo-me que foi um dos jogos mais influentes que já joguei. Voltar a jogá-lo na Nintendo Switch apenas reforçou essa sensação.

Little Inferno não é uma perda de tempo: é um jogo sobre o tempo que perdemos no dia-a-dia dedicados ao "entretenimento". No universo deste título, o mundo arrefeceu e ninguém sabe porquê. Para o aquecer, as crianças são incentivadas a queimar os seus brinquedos numa invenção tecnológica conhecida como Little Inferno Entertainment Fireplace. Mas, brincar com o fogo não será perigoso? Essa questão não parece ser importante, desde que as crianças se mantenham quentinhas e entretidas junto à fogueira. E o que é feito dos adultos?


No jogo propriamente dito, assumimos a perspetiva de um destes utilizadores do Little Inferno e compete-nos queimar coisas na fogueira. A jogabilidade é muito simples: acedemos a um catálogo de compras, aguardamos algum tempo pela sua recepção ou descontamos um voucher para entrega imediata e, finalmente, atiramos as nossas aquisições para a fogueira. Cada item tem uma reação própria ao fogo e assistir à sua incineração tanto pode ser divertido, como relaxante, ou até mesmo perturbador. O jogo pode ser facilmente controlado com o giroscópio, através de um cursor virtual que se desloca com o movimento do Joy-Con, ou diretamente através do ecrã tátil da consola no modo portátil. Mas afinal é mesmo um jogo?

Além do catálogo inicial de produtos encomendáveis, o jogador tem acesso a uma lista de 99 combinações de produtos a queimar em conjunto. Para desbloquear novos catálogos, é necessário descobrir um número destas combinações para as quais temos apenas uma temática a servir de pista. É, portanto, um puzzle de associação de objetos. Algo bastante simples mas que requer bastante atenção aos itens dos catálogos e a sua descrição. Nesse sentido, podemos dizer que Little Inferno é um jogo de puzzles, embora a experiência de jogo seja muito mais do que isso. Conforme progredimos, recebemos também cartas de outros personagens, que nos vão dando alguma noção do que está a acontecer no mundo lá fora. Cartas, essas, que podemos naturalmente atirar logo para a fogueira.


Little Inferno é uma obra de arte de intervenção. Na altura, surgiu-nos como um manifesto contra uma praga de jogos baseados em micro-transações, que nos deixam à espera de períodos de tempo para poder jogar a menos que se invista algum dinheiro. Hoje, é principalmente uma crítica à sociedade de consumo, à facilidade com que deixamos as nossas crianças, aliás, nós próprios, ceder ao consumo passivo do entretenimento. No jogo, nunca vemos o homem das entregas trazer os produtos encomendados. São simplesmente colocados à disposição e consumidos pelas chamas, sem nunca se tirar o olhar da perturbadora lareira. É uma obra aberta à interpretação e da qual podemos retirar inúmeras camadas - algo de que me apercebo mais facilmente agora que o joguei pela segunda vez.

Jogando com alguma celeridade (ou simplesmente já sabendo o que se está a fazer), é possível concluir a história em cerca de 2 a 3 horas de jogo. Quem se desafiar a completar os 99 puzzles de associação terá uma experiência prolongada, mas sejamos realistas: não é disso que Little Inferno se trata. Existe um final da história. Um último puzzle, que questiona a atenção que fomos prestando ao longo do jogo e cuja resolução muda para sempre as impressões que temos deste jogo. Um final surpreendente e inesquecível, que faz deste um jogo verdadeiramente inspirador.

Nota: Esta análise foi efetuada com base em código final do jogo para a Nintendo Switch, gentilmente cedido pela Tomorrow Corporation