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20 de abril de 2016

Yo-Kai Watch


Yo-Kai Watch é a mais recente marca da Level-5 a chegar ao Ocidente, depois de ter conquistado os corações de milhões de japoneses. Na altura do seu lançamento, a empresa apostou em força na criação de um videojogo apelativo, uma série de animé para acompanhar e uma vasta gama de produtos de merchandising, aposta esta que se provou vencedora: a febre de Yo-Kai Watch fez com que esta série fosse imediatamente considerada um novo Pokémon.

Esta não é, de todo, uma comparação justa. A aposta num jogo com centenas de monstros para colecionar e colocar em batalhas, o estilo cartoon e carismático das personagens e o design de algumas criaturas podem até fazer lembrar Pokémon, mas Yo-Kai Watch (o videojogo) é algo completamente diferente. É certo que o popular Jibanyan foi desenhado para ser popular, uma espécie de Pikachu dos yo-kai, mas não se pode censurar uma nova franquia por tentar aproveitar ingredientes de uma fórmula de sucesso para construir a sua. O que é, então, este Yo-Kai Watch?


Tudo começa quando Nate (ou Katie, conforme se escolha entre jogar com rapaz ou rapariga) aceita um desafio para apanhar insectos e acaba por se aventurar na floresta, onde encontra uma daquelas máquinas gashapon onde se coloca uma moeda para ganhar um brinde mistério dentro de uma bola de plástico. Claro que o Nate coloca uma moeda para ver o que lhe sai, mas o que lhe saiu na rifa desafiou tudo o que pensava saber do mundo em que vivia: o seu brinde era afinal Whisper, o mordomo yo-kai que tinha sido aprisionado na máquina por engano durante umas centenas de anos!

Os yo-kai são criaturas mitológicas do folclore japonês, monstros ou espíritos associados aos mais variados azares e superstições, mas no mundo deste jogo são bem reais e espalham o caos nas mais variadas situações. Há que dizer que é um conceito muito apologista de que o mal feito pelas pessoas é causado por entidades externas, e que até estas não o fazem por mal, pois estão apenas a brincar. Se querem ensinar às crianças que elas devem ser responsáveis, convém explicar logo que nunca lhes irão aceitar um yo-kai como desculpa por terem feito asneiras. Enquanto mordomo, o Whisper ajuda o herói a enfrentar esta nova realidade e a utilizar o seu relógio yo-kai, o tal que dá nome ao jogo.


Ao longo da história, Nate irá encontrar imensos yo-kai com a ajuda do seu relógio. Ao estabelecer amizade com uma nova criatura, esta oferece uma medalha como prova dessa ligação, que depois pode ser inserida no relógio para a invocar sempre que se quiser ajuda, incluindo para combater. A maior parte do jogo é passada a explorar a cidade de Springdale e interagir com outros personagens para lhes resolver os problemas causados pelos yo-kai. Por vezes, há também algumas criaturas que precisam de ajuda, incluindo algumas que fazem parte da história como o gato fantasma Jibanyan e o adorável cão Komasan. Muitos dos problemas são resolvidos através do combate entre yo-kai, e é também através do combate que a maioria dos monstrinhos podem ser obtidos.

As batalhas são bastante divertidas e decorrem em tempo real, sendo que os yo-kai combatem principalmente por sua iniciativa e não através dos comandos do jogador. A jogabilidade consiste, então, num papel de supervisão da batalha, podendo-se definir um alvo a atingir (seja um inimigo em particular ou um ponto fraco de um boss), utilizar itens e ativar o poder especial de cada yo-kai. O combate tem um sistema rotativo que permite trocar o grupo de 3 criaturas que ficam à frente a combater enquanto os restantes ficam de reserva, sendo importante pensar com estratégia no posicionamento de cada yo-kai antes de se entrar em batalha. Parecendo um sistema simples, acaba por deixar o jogador sempre ocupado em curar, atacar, purificar e até subornar os inimigos: dar-lhes uma comida que gostem a meio do combate aumenta a probabilidade destes quererem fazer amizade mesmo depois de serem derrotados!


Se tivesse de resumir este jogo a uma só palavra, esta seria "personalidade". É o que define cada yo-kai tanto a nível de história como em combate. Existem classes e elementos, que permitem agrupá-los, mas cada criatura tem a sua personalidade e as suas habilidades. Por exemplo, o Buhu é muito desmotivante, e pode contagiar os inimigos com essa falta de motivação, pelo que poderão não atacar e simplesmente ficar a divagar sobre a inutilidade de combater. Por outro lado, o Suspicioni é bastante desconfiado e pode até atacar os seus aliados, mas também pode contagiar os adversários com a mesma suspeita. O design dos monstros é bastante completo, associando a personalidade à imagem e aos ataques que pode fazer, já para não referir o nome que é quase sempre um trocadilho bastante óbvio. Facilmente se pode adivinhar alguma característica dos monstros a partir de nomes como Bananose, Timidevil ou Snotsolong. São nomes divertidos e que se adequam muito bem ao ar descontraído de todo o jogo.

Houve uma grande aposta no humor e nem a história se leva demasiado a sério. O jogo sabe que é feito a pensar nas crianças, mas sabe também que muitos adultos o irão jogar e compreender um pouco melhor o sarcasmo de Whisper. Até as situações mais dramáticas são interrompidas por um comentário humorístico que nos fazem interrogar se o mordomo yo-kai estará mesmo do nosso lado. A banda sonora também acompanha bem esta fluidez entre "assustador" e engraçado, utilizado muitos clichés de filmes de fantasmas mas sempre num tom positivo e descontraído. Outro aspecto curioso é a forma como o jogo incentiva comportamentos muito educados, como esperar que o sinal fique verde antes de atravessar uma passadeira, ou tirar os sapatos assim que se entra em casa. Percebe-se a popularidade da série no Japão quando se observa o quão bem esta absorve e retrata a cultura japonesa, o que pode também dificultar uma recepção tão calorosa ao jogo em território europeu.


Para um RPG japonês, este jogo não é muito difícil nem muito extenso, com a história principal a durar cerca de 20h para concluir sem grande dificuldade. No entanto, há muito mais para fazer além disso. O jogo tem centenas de sidequests, incluindo algumas bem mais exigentes depois de se terminar o jogo, além de áreas secretas onde se podem combater e tentar obter yo-kai mais fortes. O jogo tem ainda uma componente multijogador, que não tive oportunidade de experimentar mas está longe de parecer o prato principal desta receita, já que o combate não é assim tão competitivo. Já quem quiser completar o jogo a 100% terá uma árdua tarefa pela frente, pois pode ser muito difícil conseguir a amizade de alguns dos yo-kai mais raros.

Yo-Kai Watch é um jogo cheio de charme e personalidade. Uma história divertida recheada de monstros cómicos ou assustadores, mas sempre carismáticos. Um RPG capaz de fazer sorrir até os mais carrancudos, a não ser que tenham alergia a trocadilhos e sarcasmo. Mas deve haver um yo-kai para isso!
Nota: Esta análise foi feita com base em código final do jogo para a Nintendo 3DS, gentilmente cedido pela Nintendo.