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1 de março de 2016

The Legend of Zelda: Twilight Princess HD


The Legend of Zelda: Twilight Princess foi o meu "Zelda 3D" favorito. Joguei-o na Wii em 2006 e senti, na altura, uma enorme sensação de aventura como a que me recordava de ter ao jogar o meu primeiro, na Super Nintendo. O jogo foi originalmente planeado para a Nintendo GameCube, da qual tirava o máximo partido, mas acabou por ter um lançamento simultâneo nas duas consolas. Dez anos (quase) passaram, e eis que a Nintendo convida a viver novamente esta grande aventura, agora em HD e para a Wii U. Com gráficos melhorados e uma jogabilidade apurada, The Legend of Zelda: Twilight Princess HD apresenta-se como a "versão definitiva" deste jogo. Uma oportunidade para revalidar esta opinião e o reavaliar no contexto de uma série que, ao longo dos tempos, já sofreu muitas transformações.


Twilight Princess foi um dos títulos mais jogados da série Legend of Zelda (a ordem varia conforme se considerem reedições e remakes na contagem). Lançado após The Wind Waker, um jogo com um visual colorido e inspirado em desenhos animados, surpreendeu e cativou o público pelo seu estilo realista e tonalidade sombria. Até porque é das sombras que se trata a história: um crepúsculo misterioso invade o reino de Hyrule e, após alguns monstros raptarem vários jovens de uma pequena aldeia na periferia, o seu amigo Link parte em seu socorro. É no momento que o puxam para o mundo das sombras que o herói se vê transformado em lobo e conhece uma misteriosa personagem conhecida por Midna, e que será central para todo o argumento.

Com um enfoque tão elevado na história, o jogo conta com um elenco superior ao que é habitual na série e diferentes linhas narrativas que se interligam. O argumento não é particularmente profundo, mas é bastante envolvente e muito eficaz em motivar o jogador a seguir em frente, quase sem tempo para descansar e, até uma determinada fase, sem tempo ou possibilidade de explorar. A linearidade do jogo é gritante durante as primeiras 10 horas de jogabilidade, onde pouco mais há para fazer além do que a história nos indica. Felizmente, após um determinado evento, o mundo abre-se à exploração com dezenas de "side quests" e grutas escondidas com monstros, puzzles e tesouros. O Hyrule Field é bastante grande, mas não é um espaço vazio: em toda a parte há inimigos para combater, segredos para desvendar ou simplesmente paisagens para apreciar.

Andar a cavalo é bastante gratificante, especialmente pelas mecânicas de combate incluídas e a sensação de velocidade. Mesmo existindo uma funcionalidade de teletransporte para certos pontos do mapa, muitas vezes vai-se a cavalo simplesmente por prazer. Mas as opções de mobilidade não se ficam por aqui. A certa altura, Link ganha a possibilidade de se transformar livremente entre lobo e humano, o que acaba por ser útil tanto para a exploração do mundo como para resolver alguns puzzles nas masmorras. Além disso, em algumas secções do jogo é possível fazer canoagem, controlar um pássaro gigante para voar e até fazer snowboard. Embora sejam condicionadas a partes específicas da história, acabam sempre por desbloquear um minijogo para momentos de descontração.


O núcleo duro de qualquer jogo da série consiste quase sempre nas diversas masmorras e templos que há para explorar e a forma como os itens que vão sendo obtidos ao longo do jogo são aproveitados. Neste departamento, Twilight Princess contém alguns dos melhores itens de sempre, como a "Clawshot" que rapidamente se torna imprescindível, ou o "Spinner" que surpreende pela originalidade e nos proporciona um dos melhores bosses da saga. O próprio bumerangue, que normalmente é pouco interessante, ganha aqui uma nova dinâmica ao levar consigo um forte tornado. As próprias masmorras são interessantes e com estruturas bastante diversificadas, mesmo que muitas não surpreendam os mais familiarizados com a série. Ainda assim, merecem destaque pela originalidade as Snowpeak Ruins e pela complexidade o Lakebed Temple, já para não falar do templo Arbiter's Grounds que se destaca por todos os motivos possíveis.

A linearidade do jogo faz com que todos os templos tenham uma ordem rígida pela qual são encontrados e completados, algo comum nos títulos 3D da saga a que apenas o primeiro (Ocarina of Time) conseguiu escapar. Neste sentido, as masmorras têm como pressuposto uma aprendizagem gradual das mecânicas do jogo e utilizam eficazmente mais do que o item obtido no seu interior, embora este acabe sempre por se tornar crucial para chegar até ao boss e derrotá-lo. Esta estrutura acaba por tornar a resolução dos desafios um pouco mais previsível do que seria desejado, um aspeto que se tornou evidenciado em jogos mais recentes da série que tentaram quebrar com esta "tradição".


Não sendo um jogo fácil, especialmente para quem o joga da primeira vez, Twilight Princess também não é propriamente difícil. Há sempre alguns puzzles que obrigam a pensar um bocado e analisar tudo o que temos à disposição, especialmente quando se trata de alguns desafios feitos a pensar nos que querem juntar todos os pedaços de coração e outros colecionáveis. O sistema de combate é bastante complexo e gratificante, mas muitos dos inimigos dão relativamente pouco dano. Por este motivo, nesta adaptação foi inserido um "Hard Mode", onde os inimigos dão o dobro do dano e o mapa do mundo é espelhado (à semelhança da versão Wii), enquanto o modo normal segue o layout original lançado na GameCube. Além disso, é também possível aumentar o dano dos inimigos ao colocar no GamePad um amiibo do Ganondorf, enquanto as figuras do Link e da Zelda permitem recuperar flechas e corações, respetivamente. Um mecanismo quase inútil, mas que cheguei a utilizar numa ocasião onde precisava de flechas e não apetecia estar a ir para trás só para as comprar numa loja.

Se estes amiibo não têm uma grande utilidade, já a figura do Link Lobo que acompanha o lançamento do jogo permite desbloquear uma caverna de 40 pisos com desafios para derrotar hordes de inimigos, semelhante à Cave of Ordeals. A figura pode ainda ser utilizada como atalho para a gravação do jogo a partir do menu inicial, apesar de carregar no botão não ser assim tão cansativo para justificar a utilização do amiibo. A Nintendo sabe disto, por isso prometeu integração da figura com o próximo jogo da série para a Wii U, o que de repente já é uma boa motivação para querer passar a nova caverna e gravar o progresso do jogo. Note-se que, em termos puramente técnicos, se o próximo jogo for lançado na mesma consola que esta versão, então bastaria aceder ao ficheiro de gravação no disco.

Nesta adaptação, tal como em Wind Waker HD, é possível utilizar o GamePad para a gestão dos itens e consulta rápida do mapa, ou então jogar apenas no comando sem utilizar a TV. De fora ficaram os controlos utilizados na versão Wii, pelo que já não se irá estar sempre a abanar o comando, mas foram acrescentados controlos por movimento (opcionais) que permitem usar a mira de forma semelhante à de Ocarina of Time 3D e Majora's Mask 3D na Nintendo 3DS. Uma outra opção muito interessante é a de se poder utilizar a mira na 3ª pessoa, com a câmara mesmo atrás do Link tal como acontecia na Wii. Quem quiser uma experiência mais próxima à do jogo original, poderá simplesmente jogar com o Pro Controller.


Nos últimos anos, tem-se falado muito de remakes e remasterizações de jogos que não são suficientemente antigos para necessitarem de uma adaptação, incluindo algumas versões "HD" de jogos que originalmente já haviam sido lançados em HD. No que diz respeito à saga Legend of Zelda, este é já o quarto título a ser reeditado em consolas da geração atual a nível doméstico e portátil, tendo todos levado tratamentos diferentes. Ocarina of Time ganhou um remake extremamente fiel ao original, enquanto que Majora's Mask sofreu consideráveis melhorias na sua jogabilidade e The Wind Waker recebeu uma atualização gráfica simplesmente deslumbrante que tirou o máximo partido do seu estilo artístico. Ora tendo isto em conta, Twilight Princess não pode ser comparado a nenhum destes casos, sendo mais uma adaptação direta para HD do jogo original do que qualquer um dos outros mencionados.

Houve um grande trabalho a nível das texturas do jogo, que estão agora mais detalhadas e interessantes, favorecendo imenso algumas zonas particulares do jogo como Faron Woods ou a cidade que rodeia o castelo de Hyrule, por exemplo. Já os modelos 3D permanecem maioritariamente inalterados, salvo alguns personagens principais que aparentam ter maior detalhe. Embora as cores do crepúsculo sejam deslumbrantes, com tons sombrios mas bastante saturados e um laranja incandescente, o mundo normal parece agora ter tonalidades mais esbatidas. Continua presente o efeito "bloom" da iluminação que tanto caraterizou o jogo, mas uma vez mais parece ter sido atenuado no mundo "normal" por oposição ao crepúsculo. O mais negativo acaba por ser o aparecimento de alguns problemas a nível de sombras, que em situações esporádicas nos interiores parecem surgir do nada em certos ângulos de câmara. Outro problema com a câmara, que é de controlo livre com o stick analógico, é que tem dificuldade em se ajustar a algumas situações e faz um tremelique irritante. Embora estes problemas sejam de casos pontuais, a verdade é que não é o tipo de bug que estamos habituados a encontrar num Legend of Zelda ou outra série da Nintendo, indicando que talvez fosse necessário mais algum tempo de desenvolvimento e melhorias.

Na realidade, o jogo merecia uma verdadeira remasterização ou até mesmo um remake propriamente dito. O estilo artístico de Twilight Princess pede realismo e alta definição, algo nas linhas do que a Nintendo apresentou como "tech demo" da Wii U em 2012. Deste ponto de vista, é difícil aceitar que esta seja a versão "definitiva" de Twilight Princess, mesmo que seja a melhor lançada até agora. Os visuais não vão impressionar ninguém em 2016, mas o jogo em si tem tudo para conquistar os fãs de Zelda que ainda não o tenham jogado. Dinâmico, empolgante e com uma história envolvente, o jogo peca apenas por ser tão linear e demorar algum tempo até deixar o jogador explorar livremente o seu mundo. Já os veteranos de uma versão anterior saberão há muito tempo se tencionam ou não aproveitar esta versão para voltar a este Hyrule coberto de sombras, mas se o fizerem não ficarão decepcionados.


Twilight Princess continua tão interessante e cativante hoje em dia como era em 2006. Com umas sólidas 45 horas de jogo (facilmente passando as 60 quando se joga pela primeira vez), é uma aventura com um excelente ritmo e que nunca se torna repetitiva. Um jogo excelente que agora recebe uma adaptação de qualidade suficiente para ter sido um enorme prazer voltar a jogá-lo e, ao mesmo tempo, ter pena que não se tenha feito mais.
Nota: Esta análise foi efetuada com base em código final do jogo para a Wii U, gentilmente cedido pela Nintendo.