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30 de novembro de 2015

Xenoblade Chronicles X


Suceder a um grande êxito não é tarefa fácil. Xenoblade Chronicles, lançado para a Wii em 2010, foi um dos principais títulos de RPG da sua geração, combinando eficazmente o melhor dos tradicionais RPGs japoneses com elementos modernos de jogos ocidentais, especialmente os mais focados na vertente online, mesmo não tendo qualquer componente multijogador. Cinco anos depois, a Monolith Soft tenta repetir a proeza com Xenoblade Chronicles X, um RPG exclusivo para a Wii U que refina a fórmula do anterior e a transporta para um mundo enorme e completamente aberto à exploração, com uma envolvente história de ficção científica e muitas horas de jogo.


Algures no futuro do planeta Terra, duas civilizações alienígenas envolvem-se numa batalha cataclísmica, que resulta na destruição do mesmo. Num acto de desespero, algumas naves contendo as sementes de uma nova civilização são lançadas pelo espaço fora, pouco antes da Terra ser dizimada. A história que acompanhamos é a de uma destas naves, que sofre um ataque perto do planeta Mira e acaba por lá fazer uma aterragem de emergência. Quando o nosso personagem desperta, já passaram dois meses desde a chegada ao planeta, onde os humanos tentam criar condições de vida para a sua civilização. Com a destruição da nave mãe, perdeu-se também o Lifehold, um núcleo onde a maior parte dos sobreviventes ficaram congelados durante a viagem espacial, pelo que encontrá-lo é um objetivo fundamental para os que se encontram na recém-criada cidade de New Los Angeles.

O planeta Mira é um local fascinante com uma enorme biodiversidade que se espalha por 5 continentes de caraterísticas muito próprias. As espécies que o habitam, denominadas por "indigens", são normalmente inofensivas para os humanos, embora haja também muitas agressivas. A política da espécie que acabou de chegar, no entanto, é a de que apenas se devem eliminar os que constituem uma ameaça, pelo que a postura dos humanos nesta história é mais próxima do ponto de vista de um grupo de refugiados do que de colonos espaciais.  Entre a fauna do planeta, há mais civilizações para encontrar, mas nem todas são indigens. Desde cedo, os humanos percebem que há outros "xenos", espécies alienígenas ao planeta Mira, e nem todas são bem intencionadas. Acontece que os Ganglion, uma das espécies responsáveis pela destruição da Terra também se encontram em Mira e possuem um grande ódio de morte aos humanos. Outra civilização, como os Ma-non, é bastante pacífica e encontra em New LA um refúgio dos bélicos Ganglion, mostrando-se grande aliados dos humanos com os seus avanços tecnológicos. Para tratar de todos os assuntos ligados à sobrevivência da espécie, incluindo o combate aos Ganglion e a recuperação do Lifehold, os humanos criaram a BLADE, uma espécie de organização militar que desempenha o mais variado tipo de funções através de missões que lhes vão sendo atribuídas, e da qual o nosso personagem faz parte.


O jogo contém um robusto sistema de criação de personagens, embora o avatar criado não seja o do protagonista da história: o nosso personagem é apenas um membro da BLADE assignado à equipa da Comandante Elma. Como acontece em muitos RPG onde se tem liberdade de criação do avatar do jogador, este acaba por ser um herói silencioso cujas respostas são dadas pelo jogador escolhendo opções que surgem no ecrã, o que é um grande contraste com o que acontecia no jogo anterior e o carismático Shulk. Ao fazer parte da equipa da Elma, temos um papel ativo na história do jogo, mas na verdade o protagonismo é atribuído à equipa como um todo, ou à sua comandante. A história principal vai-se desenrolando conforme se aceitam missões especiais identificadas como tal, mas há também outras missões de "afinidade" que desenvolvem o relacionamento entre os diversos personagens, muitas destas sendo obrigatórias como requisito para certas missões de história - no fundo, são também elas parte da história, mas com um impacto menor no enredo principal.

Todas as missões, sejam básicas ou relacionadas com a história, acabam por ter um impacto no mundo do jogo, sendo que até as mais simples podem servir para desbloquear conteúdos mais interessantes em missões que de outra forma seriam inacessíveis. Normalmente, ao escolher uma missão do menu, é possível marcar no mapa os locais onde se encontram os monstros ou personagens necessários, poupando o trabalho de procurar caso seja numa zona já previamente explorada. Infelizmente, quando o objetivo de uma missão é recolher n materiais de um certo tipo que se encontra pelo mundo, não há forma de saber ao certo onde procurar além do continente onde tal material existe, o que pode originar situações frustrantes. Numa missão importante para avançar no jogo, tive de procurar durante horas por um item raro no continente de Oblivia, sem fazer a menor ideia de qual o sector ou região onde o poderia encontrar. Foi um caso pontual de grande frustração, visto que habitualmente estes requisitos de materiais ficam para missões secundárias que se pode ir completando ou simplesmente aceitar só depois de ter explorado bem uma região.

Outro aspeto interessante das missões secundárias é o desenvolvimento de pequenas histórias que abordam temáticas bastante relevantes (e atuais) como a ética, o fanatismo religioso e a xenofobia, por exemplo. O acolhimento dos Ma-non e outros xenos na cidade dos humanos, mesmo com todas as vantagens tecnológicas que traz, não é bem visto por todos, havendo pessoas empenhadas em livrar-se deles. O jogo tenta passar uma interessante mensagem de ecologia e fraternidade entre diferentes espécies, algo que felizmente é o sentimento principal dos humanos na história.


Xenoblade Chronicles X é um jogo completamente "open world" que oferece total liberdade de exploração. Embora tendo algumas condicionantes como os níveis de inimigos em certas zonas, é realmente possível aceder a quase qualquer parte do mundo logo desde o início. No GamePad, é apresentado um mapa do continente com um sistema de favos a identificar os diversos sectores, sendo possível aceder a muitos destes com a opção de "fast travel" desde que a zona tenha sido previamente explorada. A exploração torna-se bastante útil para facilitar a realização das missões e avançar na história, mas a verdade é que o mundo é tão interessante que os jogadores simplesmente se aventuram de forma natural, constantemente em direção ao próximo local interessante que aparece ao fundo. Com mais de 50h de jogo, ainda me consigo impressionar com paisagens e ambientes do primeiro continente explorado. O mundo do jogo é deslumbrante, maravilhoso, com maior diversidade do que se poderia esperar de um mapa com 5 regiões temáticas, o que incentiva a querer ver tudo o que haja para ver.

O grafismo é uma parte importante da realização deste mundo, sendo constantemente apresentados cenários fantásticos independentemente da distância a que as paisagens estejam. Infelizmente, a ilusão é um pouco quebrada quando se está em movimento (especialmente a maiores velocidades) e se vê a imagem "transformar-se" com a aproximação. Embora este artefacto só exista devido a limitações técnicas, visto que a Wii U não poderia apresentar todo um continente em detalhe, está sempre presente para nos lembrar que estamos apenas num jogo. O mesmo acontece com os inimigos mais pequenos que, vendo de longe, simplesmente não são desenhados. Dito isto, o mundo nunca parece vazio, sempre com coisas para ver e inimigos para combater em qualquer parte que se esteja. É uma pena que a atenção dada aos cenários e até mesmo aos monstros do jogo, não tenha sido também dada às caras dos personagens, que parecem demasiado básicas e sem vida em comparação com tudo o resto. O mesmo se pode dizer da cidade de New LA, que visualmente é o local menos interessante de todo o planeta Mira.

O combate é semelhante ao de Xenoblade Chronicles e assenta em batalhas semi-automáticas com um sistema de Arts. Ao iniciar o combate, o personagem irá usar automaticamente a arma que tiver equipada, cabendo ao jogador movimentá-lo pelo cenário e escolher o alvo a atingir caso hajam múltiplos adversários ou seja um inimigo de grande porte com várias zonas a atacar, enquanto os restantes membros da equipa agem de forma autónoma. As Arts são ataques especiais caraterísticos da classe do personagem, e são ativadas por ação do jogador, demorando depois alguns segundos até poderem ser utilizadas novamente. Pelo meio, existe um sistema "soul voice" que funciona como uma espécie de "quick time event" dentro da batalha, e oferece melhorias a toda a equipa. As batalhas são dinâmicas e com muita coisa a acontecer no ecrã, mas como tudo no jogo acabam por se tornar bastante intuitivas. No entanto, as diferenças de níveis em relação aos inimigos são muito levadas a sério pelo jogo, exigindo algum "grinding" a quem planeasse jogar "só para ver a história". Felizmente, quando o boss de uma missão está a ser muito difícil de passar, o jogo oferece a possibilidade de reduzir a dificuldade desse inimigo em particular, poupando algumas frustrações.


A partir de certo ponto no jogo, tudo muda para o jogador ao adquirir a "carta de condução" dos Skell, os gigantescos mechs desenvolvidos pelos humanos. De repente, a exploração torna-se muito mais rápida, assim como a obtenção dos materiais espalhados pelo mundo. Passam a estar acessíveis novas áreas de grande altitude ou que anteriormente seriam de difícil acesso, os indigens de pequena dimensão são agora facilmente "pisados" e os gigantes, de repente, já reparam em nós. Estes robôs são completamente personalizáveis e podem ser utilizados em combate, utilizando as diversas armas do seu arsenal de forma análoga às Arts dos humanos. Naturalmente as batalhas são muito mais espetaculares desta forma, mas é importante ter cuidado para que o Skell não seja destruído, senão terá de ser recuperado pelo seguro, que tem um limite de recuperações. É possível comprar vários destes robôs e atribuir um a cada elemento da equipa, mudando efetivamente a escala a que esta irá combater.

Para quem procura uma experiência mais social, o jogo oferece ainda uma componente multijogador online. O jogo permite recrutar temporariamente (e por um preço) os personagens criados por outros jogadores, para que façam parte da equipa como se fosse qualquer outro personagem, o que pode ser útil quando se procura alguém com um nível específico ou certo tipo de armas e classe. Além disso, existe um sistema de classes que atribui, a partir do servidor, missões para se eliminar certos tipos de inimigos. Cumprir estes objetivos desbloqueia missões que podem ser efetivamente jogadas online até 4 jogadores. Infelizmente, só algumas destas funcionalidades ficaram disponíveis a tempo desta análise, pelo que não houve oportunidade de as explorar adequadamente. O sistema é algo semelhante ao de jogos como o Monster Hunter, onde existe um lobby para reunir até 4 jogadores após se ter lançado uma missão. É também possível procurar missões de outros jogadores online que estejam a recrutar. As missões colocam a equipa numa área com o objetivo de eliminar um conjunto de inimigos, dando depois uma recompensa a nível de materiais dos monstros para se poder criar novas armas. Estas missões podem também ser feitas offline com a equipa normal do jogo.

Um factor importante a considerar, é que Xenoblade Chronicles X tem uma dose arrebatadora de informação para se processar. A aprendizagem do jogo é bastante lenta, embora rapidamente se consiga partir para a ação sem perceber muito bem o que se está a fazer. A exploração do jogo é um processo tão gradual como a exploração do mundo do jogo, com menus e funcionalidades que só vão começando a fazer sentido com a experiência. O próprio equipamento dos personagens tem tantas variáveis que a melhor abordagem é decidir momentos do jogo em que se quer melhorar o equipamento da equipa e dedicar algum tempo só a esse processo. Um aspeto interessante do equipamento é a opção de escolher "fashion gear", ou seja escolher qual o equipamento que o personagem exibe no jogo independentemente do que ele tenha "realmente" equipado (ou seja, o que tem impacto nas estatísticas do personagem). Acrescentando opções de Arts, habilidades, classes, Skells e personalização, há muito para digerir e que só se consegue aos poucos.


A experiência de jogo tem um ciclo interessante de exploração e realização de missões, seguido de investimento em melhorias e optimizações e depois os avanços na história. A exploração é, sem dúvida, o ponto alto do jogo, graças a um mundo fascinante e surpreendente que nos faz sempre querer ver um pouco mais. A história, porém, não lhe fica atrás graças ao argumento envolvente e misterioso, cheio de reviravoltas e com personagens bastante interessantes. Infelizmente, a densidade e o volume deste jogo não são para todos, especialmente numa altura em que temos cada vez menos tempo livre. Há dezenas de horas de conteúdo para ver e o avanço na história requer bastante dedicação, sendo quase sempre gratificante apesar de alguns soluços na progressão. Xenoblade Chronicles X é um jogo para se explorar com calma, livremente e sem a pressa de ver o final por mais que a história nos motive a ir para lá. Uma experiência em muito semelhante à do jogo anterior e ao mesmo tempo bastante diferente, levando mais longe a sua visão do que quer manter do tradicional RPG ao mesmo tempo que incorpora elementos comuns dos jogos modernos de mundo aberto. E dentro do género é tão bom que justifica plenamente a compra de uma Wii U para o jogar. Apenas não é nem tenciona ser um RPG "para todos os jogadores".

Notas: Esta análise foi efetuada com base em código final do jogo para a Wii U, gentilmente cedido pela Nintendo. O artigo foi escrito com base em mais de 50 horas de jogo e o conhecimento de 75% da história principal.