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11 de fevereiro de 2015

Monster Hunter 4 Ultimate

Monster Hunter é uma franquia que goza de uma popularidade tremenda no Japão, mas que no Ocidente ainda é vista como algo de nicho no sector dos videojogos. Apesar de Monster Hunter Tri (MH3, Wii) e Monster Hunter 3 Ultimate (MH3U, Wii U/3DS) terem sido bem recebidos pelos fãs ocidentais da Nintendo, estes títulos nunca se elevaram ao nível de best-sellers, tanto que a quarta entrada na série principal se ficou pelo território japonês, deixando uma vaga que vem agora ser preenchida pela sua versão definitiva, com Monster Hunter 4 Ultimate (MH4U) a chegar mesmo a tempo do lançamento da New Nintendo 3DS e já tirando partido das novas funcionalidades desta consola, embora seja perfeitamente compatível com a 3DS original e restantes sistemas da família. Será agora que Monster Hunter conquista o Ocidente?


Esta é uma série bastante carismática, com características bem vincadas e que a demarcam dos restantes jogos de aventura ou RPG. O papel do jogador é de um caçador de monstros, que tem de se preparar para o combate recolhendo mantimentos e melhorando o equipamento, explorar o território, observar e analisar o monstro e, por fim, enfrentá-lo em combate. Se sobreviver, irá obter os espólios da criatura para melhorar as suas capacidades e, assim, enfrentar monstros ainda mais possantes. Ao contrário do habitual em videojogos, o jogador tem direito a uma barra de energia, mas as criaturas que enfrenta não. Não há indicativos do dano que uma arma está a causar ao monstro, tirando o impacto visual de cada golpe ou da reação provocada. Sabe-se que a fera está no limite das suas capacidades pela visível fadiga nos seus movimentos e não por valores numéricos.

Em MH4U, há todo um rol de novos monstros e territórios para descobrir, um novo ecossistema a explorar e novas armas e armaduras para equipar. O conteúdo novo introduzido em MH4 é apenas uma parte de tudo o que esta versão Ultimate tem para oferecer, mas é precisamente essa parte que torna este lançamento tão empolgante. Os cenários têm agora um relevo muito mais acidentado, com bastantes locais para escalar e dos quais é possível, por exemplo, saltar para cima de um monstro e montá-lo para o atacar. A juntar-se ao vasto arsenal, há ainda dois novos tipos de armas: a Charge Blade, uma combinação de escudo e espada que se fundem num machado gigante, e a Insect Glaive, que oferece uma jogabilidade muito dinâmica com uma espécie de bastão e um insecto telecomandado. Naturalmente, um herói mais acrobático permitiu também a introdução de criaturas bem mais ágeis, com um maior leque de ataques e movimentos do que o habitual.


A aventura começa quando o protagonista se junta a uma caravana que estava mesmo a precisar de um caçador para as suas aventuras. O líder da caravana adora viajar pelo mundo e descobrir os seus mistérios, estando agora a recrutar com o objetivo de decifrar o segredo de um artefacto que guarda consigo. A caravana irá passar por várias localidades, cada uma com diferentes problemas por resolver, mas todos relacionados com monstros temíveis que só um caçador poderá enfrentar. Pelo caminho, irão deparar-se com um monstro particularmente temível, chamado Gore Magala, que infecta pessoas e monstros com um estranho vírus. No entanto, não há monstro que não possa ser derrotado e, com a progressão na aventura, até o Gore Magala acabará por parecer uma criatura banal às mãos do caçador.

A sensação de progressão é onde se nota mais a maior acessibilidade de MH4U em relação aos títulos anteriores. Seguindo a tradição da série, a Guild é a responsável pela atribuição de missões que o caçador poderá depois aceitar, tais como caçar ou capturar um determinado monstro ou então simplesmente recolher mantimentos. A diferença é que este título tem muito mais das missões "boas" do que das chatas como ir pescar algum peixe específico. Embora continue a ser necessário recolher espólios e melhorar equipamentos (em Monster Hunter o personagem não evolui com a experiência, mas com o que tem equipado), o jogo assegura uma progressão natural a cada missão, sempre com um novo monstro a descobrir. É possível concluir o arco principal da história sem qualquer repetição, levando de forma empolgante umas cerca de 40h sem qualquer noção do tempo a passar.

Só depois desta fase do jogo é que se começa a sentir uma dificuldade mais acentuada, começando a exigir melhor preparação para as batalhas "High Rank" e a busca por equipamentos mais específicos. A sensação é comparável ao popular jogo Destiny, da Activision, que tinha uma progressão acessível até ao nível 20 e exigia muito mais dos jogadores que quisessem passar desse ponto, mas aqui numa escala muito mais impressionante de conteúdo. A verdade é que quem só queira jogar a história de Monster Hunter 4 Ultimate terá uma experiência bastante gratificante, ficando o resto apenas para os mais dedicados, que gostem de apanhar loot dos monstros e sintam um gostinho especial em utilizar uma armadura feita com materiais recolhidos da sua caçada. Para termo de comparação, em títulos anteriores da série, apenas os mais dedicados sobreviviam às entediantes horas iniciais de aprendizagem do jogo.


A jogabilidade propriamente dita é idêntica à de MH3U na Nintendo 3DS, mas com algumas melhorias. Houve uma preocupação com a acessibilidade do jogo, que se reflecte tanto nos menus um pouco mais simples como na explicação de tudo o que há para fazer no jogo que vai sendo feita de forma gradual e conforme as necessidades. O ecrã tátil oferece um conjunto de painéis configuráveis para que cada jogador tenha à distância de um toque as funcionalidades mais úteis, incluindo um botão virtual para controlar a câmara. Ao jogar numa New Nintendo 3DS, ou com o acessório Circle Pad Pro numa 3DS "antiga", é possível utilizar o novo C-Stick para controlar a câmara de forma mais intuitiva, libertando também esse espaço no ecrã para outras funções.

Já os gráficos são bastante diferentes do título anterior, apesar de utilizarem o mesmo motor e estilo artístico para a concepção dos monstros. O realismo de MH3U, que foi criado a pensar numa consola doméstica, deu lugar a cenários bem mais coloridos e contrastes realçados, o que funciona muito bem no ecrã da portátil. Tendo em conta o detalhe dos monstros e o número de jogadores e criaturas que podem estar presentes num combate, assim como a fluidez dos gráficos mesmo quando se joga com o efeito 3D ligado, são visuais excelentes para a Nintendo 3DS. Também neste aspeto o jogo tira partido das vantagens da New Nintendo 3DS, apresentando texturas mais detalhadas e melhorias a nível de iluminação. A banda sonora, por outro lado, assume um papel mais subtil no jogo, assinalando a presença de um monstro com o seu tema caraterístico, embora nunca sejam músicas memoráveis.


Um dos principais aspectos de Monster Hunter sempre foi a componente multijogador, que fez com que a série se tornasse um fenómeno de vendas no Japão em primeiro lugar. Pela primeira vez na Nintendo 3DS, é possível jogar online sem a necessidade de soluções ad-hoc, sendo uma experiência tão bem integrada como o modo de multijogador local. Para alternar entre modos, basta aceder ao mapa mundo e escolher jogar a Solo (offline), localmente ou online. Nos dois últimos, pode-se criar um lobby ou entrar num que esteja disponível, além de poder ver que amigos se encontram a jogar. Aqui existe um enorme conjunto de missões que podem ser jogadas independentemente do modo escolhido, mas que serão sem dúvida mais divertidas a quatro jogadores. Caso apenas dois estejam a jogar, cada um será acompanhado pelo seu Palico (um felino ajudante), o que poderá sempre ser uma boa ajuda em combate.

Das sessões online jogadas antes do lançamento (quando apenas se encontram outros críticos de videojogos), não se notou qualquer tipo de lag na experiência, sendo quase idêntico à experiência de jogo local em termos de jogabilidade. A principal diferença está na comunicação feita através de um teclado virtual no ecrã tátil, não havendo opção de conversação por voz. Entre jogadores experientes não será um problema, mas ao jogar com novatos irá sentir-se alguma dificuldade em explicar que não devem atacar num certo momento estratégico, por exemplo. Felizmente, a comunidade de Monster Hunter é conhecida por ser bastante compreensiva com os novatos, algo que provavelmente se manterá nesta nova edição com potencial a atrair novos jogadores.


Infelizmente, é provável que não seja desta que o Ocidente se rende à série, tendo em conta o estigma criado pela barreira de entrada em títulos anteriores. A verdade é que a série não tem um apelo universal, mas também não se pretende que tenha. MH4U é um jogo bastante acessível e tem a capacidade de atrair novos jogadores para a série, com a vantagem de acompanhar o lançamento de uma nova consola portátil da Nintendo, mas será sempre um jogo para um nicho de jogadores dedicados. É um dos jogos mais intensos na Nintendo 3DS, carregado de conteúdo que parece nunca acabar e uma das melhores experiências multijogador numa consola portátil.